inferno

(IA)

Conheci o inferno. Por Lula Vieira

… A palavra inferno não é uma metáfora, longe disso. Estou falando do inferno bíblico, de onde não se sai, onde não há portas…

inferno
Estou de malas prontas para ir viajar com minhas netas. Silvana e eu vamos levá-las a Paris, onde uma amiga de coração de ouro nos emprestou um apartamento. Não digo o nome porque não sei se ela estaria disposta a receber milhões de pedidos de pousada e se seu imenso coração suportaria ganhar uma penca de amigos de infância. Mas aproveito o ensejo (hoje estou insuportável – ensejo é demais!) e conto como conheci o inferno, história que tem muito a ver com o tema viagem.

A palavra inferno não é uma metáfora, longe disso. Estou falando do inferno bíblico, de onde não se sai, onde não há portas. A freira Josefa Menendez explica: “o inferno é cheio de corredores longos, sombrios e com fogo eterno. Além disso, cada pessoa condenada perde a capacidade de sentir amor, felicidade, esperança ou qualquer coisa além de crueldade e miséria”. Em outro trecho ela fala de uma alma que chora compulsivamente imaginando como seria sentir amor novamente. Pois eu há alguns anos conheci onde isso acontece.

Digo mais: vi com estes olhos que um dia a terra e seus bichinhos hão de banquetear-se, um retrato deste lugar que é a ameaça permanente aos ímpios. Como diria minha finada avó, mulher de linguajar finíssimo: o inferno é foda! Se algo me pudesse convencer de fazer o bem nessa vida, de não desejar a mulher do próximo, seria me ameaçar repetir a experiência.

Abram os ouvidos, oh, pessoas de pouca fé! Vou contar o que passei. Eu trabalhava na Thompson e estava numa reunião em Miami. Aconteceu uma emergência no Rio e me pediram para voltar correndo que o bicho estava pegando. As empresas aéreas que fazem o percurso não conseguiram me encaixar em nenhum voo naquela noite. Era alta temporada e nem senadores, ministros do Supremo ou empresários financistas conseguiriam um assento sem reserva. Em nenhuma classe. Como bom brasileiro, tentei todos os pistolões e amizades possíveis, inclusive ir para Nova York e de lá vir para o Brasil. Mas nenhuma opção se encaixava no prazo que eu tinha para chegar no Rio de Janeiro.

Estava entrando em desespero quando uma secretária de nosso escritório local disse que conhecia a gerente de uma das aéreas que atendiam a rota e que iria pedir uma ajuda. E lá fomos nós ao escritório dessa empresa. A tal amiga de nossa secretária era uma velhinha, bem velhinha, que vestia um xale escuro e meias pretas. Só não digo que usava vassoura para chegar ao trabalho porque – e vocês vão saber – era uma boa pessoa. Ao ouvir nosso pedido por uma passagem ela disse que só tinha realmente um lugar no próximo voo, mas que se eu tivesse o mínimo juízo não deveria aceitar. Era preferível, disse-me ela, perder o negócio ou o emprego.

Mas eu estava desesperado e não quis ouvir. A Thompson precisava de mim. E eu não poderia imaginar qual a razão desse voo em particular ser tão ruim.  Um inocente. A velhinha me explicou que o avião todo estava reservado a excursões de uma grande operadora de turismo brasileira. E que eu teria que viajar junto com as crianças, cuja maioria estava sem os pais, aos cuidados de guias da empresa. Achei que só podia ser exagero tanto receio. O que umas criancinhas poderiam ser de tão perigosas? Ela deu um sorriso que significava: “espere para ver!” e emitiu a passagem.

Poucas horas depois embarquei. Para a pior viagem de minha vida. Era a volta. Os guias já não falavam mais com as crianças e elas, por sua vez, já tratavam os guias pelos mais escabrosos apelidos que se pode imaginar. E gritavam, jogavam coisas uns nos outros. Trocavam insultos preconceituosos, racistas, violentos. Os mais adolescentes se beijavam descaradamente, os mais infantis corriam entre as poltronas aos gritos.

Eram centenas de crianças, mickeys, donalds, ratos, gatos, sanduíches, biscoitos, vitrolinhas, gravadores. Tudo pulando, gritando, batendo, ofendendo. As comissárias serviram o almoço como quem serve ração. O que era justíssimo em relação ao grau de animalidade de todos. Chicletes foram grudados em cabelos, os banheiros ficaram imundos em menos de duas horas, o filme foi acompanhado de insultos aos vilões nos termos mais mimosos: “Filho da puta!”, “Viado!” Teve até um “corno!” que eu não me lembrava que pudesse ser um adjetivo ofensivo a um personagem de desenho animado.

Em algumas horas de voo consegui me enturmar com os guias que se homiziaram a um canto e ficamos tentando conversar em meio à balbúrdia. De vez em quando vinha uma das crianças fazer uma queixa qualquer, normalmente atendida com total indiferença por parte dos adultos. Veio até uma fada reclamar que tinham lhe roubado a varinha. O comissário-chefe, um filósofo, acalmou a menina: um dia você acha, minha filha, um dia você acha…

Quando chegamos no aeroporto eu estava considerando Herodes um justo.


Lula Vieira – Lula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

 


 

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