Conto de Natal. Por Lula Vieira
… No Natal lá de casa o pobre do Papai Noel sofre horrores nas mãos de uns seis ou sete pirralhos, imagine enfrentar milhares deles. Mas, amigo do Jomar, uma das pessoas mais gentis e elegantes que conheço, não tive alternativa: aceitei o mico. Jomar providenciou a roupa, mandou costureiras até o escritório para dar ao Bom Velhinho a elegância esperada pelo padrão Globo de qualidade…
Estou fazendo uma pesquisa em meus arquivos e me deparei com um comercial que me trouxe muitas recordações. Há muitos anos, muito mesmo, fiz um anúncio para a Technos, na época minha cliente, fantasiado de Papai Noel. Tratava-se do depoimento de um velho de barbas brancas, mais ou menos parecido comigo, completamente mal humorado, que falava de sua (dele, Papai Noel) ojeriza por “lembrancinhas”. Dava literalmente uma bronca nos consumidores que não se dispusessem a abrir a carteira e oferecer um Technos de presente.
Era uma época de crise e os jornais falavam que naquele ano o pessoal ia tirar o pé do acelerador e gastar menos. O comercial tentava (acho até que conseguiu) mostrar que para quem você ama, para quem é importante, dar uma “lembrancinha” é um acinte. Que eu me lembre, a direção foi do Carlos Manga e foi minha primeira experiência como ator.
Como a agência era minha, não tive coragem de cobrar cachê, pois de uma forma ou de outra estava ganhando. Por gentileza, a Technos me presenteou com um modelo especial, que foi devidamente levado pela simpática dupla que me sequestrou no ano seguinte.
Mas não é esta a história que eu queria contar, embora já o tenha feito. Por causa deste comercial, o Jomar Pereira da Silva resolveu me convidar para ser o Papai Noel do jornal O Globo, que tradicionalmente desce de helicóptero no Maracanã e é recebido por milhares de criancinhas. Uma das atividades mais perigosas do mundo. Evidentemente não pelo voo de helicóptero, mas pelas criancinhas querendo abraçar e beijar o bom velhinho.
No Natal lá de casa o pobre do Papai Noel sofre horrores nas mãos de uns seis ou sete pirralhos, imagine enfrentar milhares deles. Mas, amigo do Jomar, uma das pessoas mais gentis e elegantes que conheço, não tive alternativa: aceitei o mico. Jomar providenciou a roupa, mandou costureiras até o escritório para dar ao Bom Velhinho a elegância esperada pelo padrão Globo de qualidade. O papel, ainda que sofisticadíssimo para o canastrão que sou, não era muito difícil: o texto se resumia em “Hou hou hou…hou hou hou” enquanto acenava para a multidão. E tocar um sino.
É bem verdade que muitos atores não conseguem bater sino, acenar e dizer hou hou hou ao mesmo tempo. Já encontrei alguns modelos incapazes de fazer tudo isso. Mas ensaiei com boa vontade e depois de alguns dias já conseguia ser um Papai Noel convincente. Os pequenos defeitos de interpretação poderiam ser creditados à longa viagem da Lapônia até o Maracanã dirigindo um trenó puxado por oito renas. Aliás, nas minhas pesquisas para o papel, descobri que as renas se chamam Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Relâmpago, Cupido, Trovão e o Rodolfo de Nariz Vermelho. Cultura mais inútil não existe, mas a causa era nobre: introjetar o papel, como diriam os atores globais. Por falar em Rodolfo do Nariz Vermelho, descobri que sua história foi criada pelo Departamento de Marketing da Loja Montgomery nos Estados Unidos e inicialmente se chamava Rollo. Diz a lenda que foi um funcionário brasileiro que lembrou o risco dessa história chegar no Brasil: uma rena chamada Rollo de Nariz Vermelho seria tudo que nós brasileiros precisávamos para desmoralizar completamente a história de São Nicolau. Então a genial (claro) filha do dono da loja, muito mais criativa (evidentemente) do que todos os profissionais do departamento de marketing, sugeriu Rodolfo (que ideia magnífica!). A única coisa que eu temia era o tempo que deveria ficar sob o sol de dezembro em pleno Maracanã, de roupa de veludo, botas, luvas e gola de arminho. Um sacrifício que só se justifica pelas criancinhas, aquelas mesmas que, naquele mesmo lugar, Pelé pediu para serem lembradas quando marcou seu milésimo gol.
Quando dei a notícia em casa, meu filho disse que iria sair do colégio. “Esse é, papai, o vexame definitivo. Meus colegas descobrirem que meu pai, além de tudo que já fez na vida de pouco recomendável, agora virou Papai Noel do Globo. Eu não vou aguentar!” Essa passagem eu conto para mostrar a vocês o que temos que sofrer para se consagrar na vida artística. Para encerrar, três dias antes do evento tive que ir para Manaus a trabalho. Meu voo de volta estava marcado para a madrugada do dia da festa. O voo foi cancelado, transferido para a manhã seguinte. Não consegui chegar a tempo e Jomar, no desespero, conseguiu que a Pepita Rodrigues fizesse o papel.
Um dia ela me confessou que foi um dos momentos mais marcantes da vida dela.
– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
