A mensagem no paletó. Por Antonio Contente
… fuçou os bolsos do casaco na tentativa de descobrir a quem pertenceria. Logo achou a identidade do Moita, que sentava a seu lado. E, junto com o RG, chamou a atenção um papelote cuidadosamente dobrado. Desdobrou. Estava escrito…
![]()
Havia um pequeno armário coletivo no escritório onde os funcionários colocavam os paletós. Naquela manhã meio fria Arnóbio, após receber um telefonema, levanta, pega o casaco e sai ainda vestindo a peça. Estava sendo chamado para um importante encontro no centro. Foi após tudo resolvido que, deixando a Galeria Trabulsi, resolveu tomar um café no Regina. Na hora de procurar a carteira no bolso interno, é que toma o susto ao não encontrá-la. Primeiro, pensou na ação de algum hábil punguista. Depois, sacou que a peça de roupa que estava usando não era sua. Na pressa pegara o paletó errado.
Conseguiu catar umas moedinhas na calça e, enquanto bebia o moka, fuçou os bolsos do casaco na tentativa de descobrir a quem pertenceria. Logo achou a identidade do Moita, que sentava a seu lado. E, junto com o RG, chamou a atenção um papelote cuidadosamente dobrado. Desdobrou. Estava escrito, com letra de computador: “Cuidado, amigo, cavalo não desce escada. Sua esposa tem outro”… Arnóbio quase precisa se apoiar no balcão, para não cair. Afinal, o peso do que lera desabara sobre sua cabeça de forma acachapante, pela simples e boa razão que, mesmo não sendo íntimo de Moita tinha, por ele, certa afeição. Deu o último gole na bebida e se atirou para um táxi no ponto perto da estátua do Carlos Gomes.
O rapaz agora chega ao prédio em que trabalhava, na Norte Sul. Trata de imediatamente colocar o paletó no armário e se debruça sobre a mesa de Frota, um colega.
— Desce comigo, preciso falar com você.
— Mas não pode ser aqui? Tá quase na hora do almoço.
— Desce! É uma questão de vida ou morte!
Num canto do próprio estacionamento da firma Arnóbio contou o que acabara de acontecer. O outro ainda quis descontrair:
— Ora, isso acontece nas melhores famílias…
— Santo Deus, rapaz – vem a bronca – isso é coisa séria! Um colega nosso está carregando um baita de um par de chifres e você vem com essa?
Frota pede calma e indica que poderiam discutir o assunto durante o almoço. E, de fato, logo depois, os dois frente à frente no restaurante, Arnóbio enfia os dedos uns nos outros; estala.
— Chatíssimo, você não acha? Acontecer um troço desses logo com o Moita?
Há silêncio ante a observação. O outro pega o paliteiro e fica rolando a peça sobre a mesa:
— Nessa história toda, tanto eu quanto você esquecemos, até agora, um detalhe importantíssimo.
— Qual?
— O Moita, simplesmente, não é casado. E, até onde se sabe, vive na mais completa solidão.
Agora Arnóbio olhava para Frota e Frota olhava para Arnóbio, ambos com expressão de certo espanto. Foi o primeiro que tornou:
— Então o bilhete que estava no bolso dele pode muito bem não ter sido recebido. Mas sim, quem sabe, estaria pronto para ser enviado.
A observação, naturalmente, caiu como uma espécie de bomba. Frota abre os braços:
— Quem garante que o destinatário de tal mensagem não poderia ser algum outro colega do escritório?
Arnóbio quase esmurra a mesa, ao murmurar:
— Mas lá além do Moita só trabalhamos nós dois. O resto é tudo mulher.
Assim foi que, naquela noite, Frota entrou em casa como se procurasse alguma coisa além de Élida, a bela esposa. Durante o jantar, murmura:
— Como foi sua tarde?
— Muito boa – ela responde, provocando um friozinho na barriga do camarada.
Enquanto isso, em outro bairro da cidade, Arnóbio não estava menos inquieto. Olhava para Natália medindo cada centímetro de sua bela anatomia.
—Tudo bem, querida?
— Puxa, você já me perguntou isso dez vezes desde a hora que chegou, sabia?
Mais tarde, nas respectivas camas de casal, nenhum dos dois homens conseguia pregar os olhos…
____________________________________________
ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
