Muito prazer. Me chamo Lula. Por Lula Vieira
Estreia! Lula Vieira no CG!
Chamar-se Lula é mais ou menos como se chamar Mario. É não aguentar mais ouvir as mesmas piadinhas quando se é apresentado. Faz vinte anos que eu não ouço uma gracinha inédita sobre o fato de ter o mesmo nome do presidente. Mas, fazer o que? Já pensou se eu me chamasse Jair?
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Chamar-se Lula é mais ou menos como se chamar Mario. É não aguentar mais ouvir as mesmas piadinhas quando se é apresentado. Faz vinte anos que eu não ouço uma gracinha inédita sobre o fato de ter o mesmo nome do presidente. Mas, fazer o que? Já pensou se eu me chamasse Jair? Esse sim é um nome que não tem volta. Perceberam a piadinha?
Sou saudosista sim. Não tenho medo de ser. Atualmente está em moda se mostrar irritado com quem fala do passado. Não pega bem ter lembranças, ter saudades, sentir falta do que já foi. Há um desespero em parecer jovem e há uma arraigada ideia de que jovem não tem história nem liga para ela. Daí as pessoas recitarem lugares comuns do tipo “só me prendo no futuro”, como se fosse feio ter saudades de algumas coisas que já perdemos. Ou que sentir falta das coisas boas que já passaram seja prova de velhice. Estou me lixando para estes modismos. Lixando, aliás, é uma expressão muito velha. Modernamente então, eu quis dizer foda-se. Onde eu quero chegar é extremamente simples: eu já fui mais burro, mais ignorante, mais irresponsável, mais ansioso do que sou agora. Em compensação tinha mais tesão e mais fígado do que hoje. Troco de bom grado toda minha sapiência, o respeito que (dizem) que mereço, a segurança diante das decisões importantes, por um fígado mais inteiro, um coração mais regular e por mais tempo de pau duro. Com perdão da má palavra. Mas não estou aqui para justificar meus ataques de lembranças nem acredito que o desavisado que me leia esteja interessado em nostalgias. Quando comecei a escrever me deu vontade de repetir Bukowski :“onde anda você, juventude? Que falta você me faz sua grande filha da puta!”. Bukowiski. Esse já se mandou. Atualmente poucos se lembram dele. Para desgraça dele e desânimo de toda a geração que fez do velho safado um ídolo e um exemplo a ser seguido, existe uma biografia que é um verdadeiro escândalo. Revela que a escrotidão que nos encantava, era jogada de marketing. O puto era um profissional da maior responsabilidade. O animal tinha poupança, fazia aplicações, cuidava da aposentadoria e era capaz até de passar algum tempo num SPA. Mas me perdi. O assunto era outro.
Eu queria contar uma história passada há 50 anos. Eu trabalhava na Thompson. Melhor ainda: trabalhava na maior agência do Brasil, provavelmente na melhor conta de publicidade do mundo: a De Beers. Trabalhar na Thompson e atender a De Beers era um sonho que, se alguém não viveu, não existe a menor chance de acontecer de novo. Desculpem. Não falo para me gabar. Não são meras guirlandas de saudosismo. É a constatação de que por descuido ou fantasia Deus permitiu que durante algum tempo Ronaldo Marques, Magno Dias e eu vivêssemos a maravilhosa oportunidade de atender um cliente que hoje parece mentira.
Não só era uma das maiores verbas do mundo inteiro como permitia que gastássemos desbragadamente despesas de representação sem nenhum filtro. Tudo que a gente gastasse para atender a conta era ressarcido. Tudo. De taxi a drinks na agência. Era norma internacional da De Beers. E como as nossas despesas eram convertidas em Libras Esterlinas, por mais que a gente esbanjasse, ainda era baratinho para a contabilidade da matriz em Londres, em Safron Hill, na chamada “Casa do Diamante”, onde foi filmado uma das histórias do James Bond – Os diamantes são para sempre. Aliás, slogan da De Beers.
Mas vamos à história. Era janeiro, consequentemente inverno em Londres, e eu me lembro que nossa casa em Oslon Gardens, apesar de deliciosa e aconchegante como uma boa casa inglesa, tinha um importante defeito: os banheiros eram gelados. Tomar banho era uma experiência aterradora, pois sair do chuveiro quentinho e levar pela cara uma temperatura abaixo de zero pode ser bom para pasteurizar leite, mas é praticamente insuportável para o ser humano. Pois eu tinha outro cliente, a Editora Abril, que publicava Cláudia, a maior revista feminina da época. E foi na Claudia que eu li uma matéria contando que existia um solução para quem, como eu, morria de frio ao sair do chuveiro. Simples. Segundo a revista, bastava colocar num pratinho um pouco de álcool, por fogo, que eu poucos segundos o ambiente ficava suportável. Munido de um litro de álcool e de um recipiente de louça, fui tomar banho achando que dali para diante nunca mais iria sentir qualquer desconforto. Liguei o chuveiro, esperei a água ficar em temperatura de canja, pus fogo na cumbuca e dei início aos trabalhos.
É preciso que se faça um necessário e esclarecedor parênteses. Sou o mais desastrado dos seres humanos. Minha habilidade manual é exatamente nenhuma. Uma catástrofe em qualquer coisa que exija algum tipo de destreza. A fogueirinha foi colocada perto do box do chuveiro, que tinha uma cortininha de plástico, que evidentemente pegou fogo. O banheiro era também de plástico, pois se tratava daquelas adaptações tão comuns em casas londrinas antigas, que não tinham esses luxos de vários banheiros. E pegou fogo, claro. A operação de apagar foi operada com minha inépcia, que conseguiu passar as chamas pro carpete consequentemente nas cortinas do corredor.
A coisa terminou dramaticamente comigo murmurando confusas desculpas para um chefe de bombeiros metropolitanos disposto a me internar como suicida, isso tudo enrolado numa toalha, cabelos chamuscados e lábios roxos de frio. A velhinha que cuidava da casa e morava no sótão se refugiou nos seus aposentos, juntamente com seu gato que quase teve o mesmo destino dos seus irmão brasileiros, isto é, terminou seus dias como churrasco. No dia seguinte tivemos que ouvir no cliente todas as gracinhas a respeito da nossa piromania, pois a notícia se espalhou, com direito a ridículas fotos publicadas nos tabloides.
Mas a tragédia mesmo se deu a seguir. Naquela noite nós levamos um grupo de amigos para jantar em casa (a mesma casa) e compramos no pub de um escocês algumas maravilhosas linguiças no whisky que a mãe dele fazia. O plano era servir caipirinha acompanhada com uns canapés daquela linguiça, numa tentativa de reproduzir o ambiente de um autêntico botequim brasileiro. Dessas besteiras que passam na cabeça da gente e são os primeiros passo para o desastre. Assumi a cozinha com a missão bastante simples de fritar a linguiça e fazer umas torradinhas. E foi na hora das torradas que tudo se complicou. As migalhas de pão queimaram na torradeira elétrica que passou a produzir muita fumaça e eu resolvi colocar o aparelho na janela para ventilar. O vento derrubou tudo, que caiu sobre o teto de acrílico de um pateozinho interno que era usado como sala de chá. Em seguida o calor da torradeira afundou o acrílico que desabou sobre uma mesinha de cristal que virou caco e caiu sobre o gato que estava fazendo uma sesta tentando se recuperar das emoções da noite anterior.
O final da história pode ser imaginado. A velhinha, os bombeiros e a associação dos moradores pediram para eu me mandar da casa, em nome da segurança da cidade, da preservação do bairro e dos animais. Segundo a senhora, o que os alemães não tinham conseguido fazer naquela rua, eu consegui em apenas dois dias, sem nenhuma V-2. O gato, esse estava precisando de um psiquiatra, pois se homiziou no quarto da velha e até onde eu saiba jamais saiu de lá.
Isso foi há cinquenta anos. Logo depois eu saia da Thompson para abrir minha agência e o Brasil se recuperava do doloroso ciclo da ditadura militar. O que tem uma coisa com a outra? Bem, tanto eu não tinha nenhuma experiência como empresário, como o Brasil tinha perdido o jeito para escolher presidente. Fizemos muita burrice, cada um para seu lado. Os brasileiros acreditaram num louco de carteirinha (louco por grana) e o elegeram para uma das mais amalucadas fases de nossa história política. Hoje parece piada, mas Collor apostou corrida com cavalos no Central Park, brigou com a mulher, e escolheu uma equipe de ministros diante da qual sou um monge budista. Teve ministro que operou cadela em hospital público (“cachorro também é gente”), dois foram ter um caso de amor tórrido em Paris. Uma zona. Não tenho nenhuma saudade desse tempo, embora tenha dos primeiros dias de agência.
Bem, encerrando. Estou beirando os oitenta. Acredito que a morte ainda está distante, mas já começa a rondar, o que é uma dolorosa novidade. O médico já lhe pede exames de todo o tipo, inclusive mais aquele vexaminoso e inglório, quando você é apalpado pelo lado de dentro, num misto de vergonha e dor e que vai ficando cada vez mais rotineiro. Nesses anos fiz amigos, escrevi seis livros e peguei algumas centenas de porres, fiz algumas milhares de cagadas, fui ridículo, covarde e mentiroso, quase que como todo mundo. Concordo com quem não liga muito para o que já passou. Pelo que tenho visto que vem por aí, pela revolução nas ideias e na sociedade que invenções recentes estão trazendo. E eu acho que são os próximos 20 anos os que vão valer a pena. Esses sim, serão para a humanidade não esquecer.
Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos no Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

Seja benvindo, Lula (sem piada). Morri de rir logo de cara… Que bom contar com alguem com seu humor nesses tempos tao surrados. Que me fez pensar nos comentarios de seu velho amigo Moyses Weltman, meu pai. Toda vez que eu, um jovem velho dizia “antigamente que era bom”, papai respondia: “Desculpe filho, mas antigamente era uma merda. Nao tinha geladeira, ar condicionado, nem penincilina.” Seu Moyses estava sempre otimista, olhando para o futuro. Queria ser como ele… Um abracao, Lula (sem piada).
eu também agradeço a você!
Lula, ganhei meu dia hoje!!! Não te conhecia – azar meu, apesar de sermos quase contemporâneos. Parabéns pelas histórias que vc contou por aqui. Abraços!
Leitor há anos e eventual colaborador deste espaço democrático de grandes colunistas, confesso que nunca havia lido no Chumbo Gordo termo chulo como “pau duro”. Consta na frase: “Em compensação tinha mais tesão e mais fígado do que hoje. Troco de bom grado toda minha sapiência, o respeito que (dizem) que mereço, a segurança diante das decisões importantes, por um fígado mais inteiro, um coração mais regular e por mais tempo de pau duro. Observo que o Chumbo Gordo é um portal editado por uma mulher, a excelente e respeitada jornalista Marli Gonçalves. No mais, quando por aqui pisamos, devemos nos atentar que este espaço foi criado por um dos maiores e igualmente respeitados jornalistas brasileiros, o elegante (no trato e nas palavras) jornalista Carlinhos Brickmann. Infinitamente distante de me fazer passar por defensor da moral e dos bons costumes, sugiro que nos próximos artigos o novato octogenário Lula Vieira se atente para o fato de que nada substitui a elegância, assim como o respeito por quem nos honra com seu tempo de leitura. Abraços e seja bem-vindo. Muito prazer. Meu Chamo Paulo Renato Coelho Netto.