Quando a arte aquece a alma. Por Meraldo Zisman
O artista que visita o hospital não está ali para atuar. Ele está ali para testemunhar, para ser uma ponte entre a ferida e a possibilidade de encantamento.

No ambiente estéril do hospital, onde o silêncio muitas vezes se confunde com a dor, o ritmo é ditado por máquinas e o tempo parece arrastar-se.
Médicos e enfermeiros, verdadeiros guardiões da vida, movem-se com propósito. Mas, em meio a prontuários e procedimentos, algo essencial parece faltar: a vivacidade das cores, a melodia de uma canção, a profundidade de um poema.
É então que, sem pedir licença ou trazer receitas, os artistas chegam. Eles trazem consigo violinos que choram e cantam, pincéis que dão vida a telas em branco, palhaços que arrancam gargalhadas e canções que tocam a alma. A intenção não é curar a doença, mas despertar a vida que insiste em se esconder. E, de repente, aquele leito que antes era apenas um lugar de espera, transforma-se em um palco de possibilidades.
A criança, antes focada na agulha, esquece o incômodo ao ver o palhaço tropeçar e rir de si. O idoso, que parecia ter esquecido como sorrir, arrisca um refrão de samba, revivendo memórias. A mulher, imersa em um tratamento exaustivo, fecha os olhos e se deixa levar pela suave melodia de um piano. Não é magia, nem milagre. É a pura e simples arte em ação.
Enquanto a ciência se ocupa em medir pulsos, pressões e índices, a arte se dedica a medir olhares. Ela não tem o poder de prolongar a vida, mas a enriquece, aprofundando cada momento. Faz com que cada minuto se torne uma eternidade de sentido. O hospital, que antes era visto apenas como um centro de curativos, transforma-se em um espaço de encontros: a fragilidade humana encontra a beleza, e a dor se entrelaça com a esperança.
O artista que visita o hospital não está ali para atuar. Ele está ali para testemunhar, para ser uma ponte entre a ferida e a possibilidade de encantamento. A doença não desaparece, mas ganha um novo significado: deixa de ser apenas um limite e se torna uma abertura. Porque quem canta, pinta e brinca à beira da dor está, sem dizer uma palavra, afirmando que viver, apesar de tudo, ainda vale a pena.
No final, o silêncio retorna. Mas não é o mesmo silêncio de antes. Nele, ecoam risos, sussurros de música e a lembrança vívida de cores. A dor persiste, sim, mas agora ela está menos solitária.
E talvez seja exatamente isso que a arte como terapia representa: não é um anestésico, não apaga a dor. Ela simplesmente oferece companhia. Porque existem dores que não precisam de remédios – elas precisam de presença.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu
