um minuto de silêncio

Um minuto de silêncio. Por Paulo Renato Coelho Netto

Um minuto de silêncio para quem ainda não entende o poder do silêncio.

Um minuto de silÊncio

Neste exato momento, com a bola parada, no centro do campo, um minuto de silêncio.

Aos que estão nos camarotes bebendo uísque, champanhe e comendo caviar.

Àqueles nas arquibancadas, ou espremidos na geral, que deixaram de comer para pagar o ingresso, um minuto de silêncio.

Aos que desenvolveram suas habilidades para o ataque, para a defesa ou para defender o gol, um minuto de silêncio.

Aos gandulas que passam despercebidos.

Para quem ficou em casa e que, por algum motivo, não se faz presente de corpo e alma e que vai torcer do mesmo jeito como se aqui estivesse.

Um minuto de silêncio para quem ainda não entende o poder do silêncio.

Ao locutor eufórico e quem entrou mudo e saiu calado.

Ao torcedor fanático cuja bandeira do time ainda vai cobrir seu caixão, um minuto de silêncio.

Ao que vai ao estádio para se divertir, como se fosse ao teatro, ao cinema, ao circo ou ao parque de diversões com os filhos, um minuto de silêncio.

Aos desiludidos que se apartaram da esperança.

Aos timoneiros que não temem os humores do mar.

Aos faroleiros que sonham e ficam.

Aos devotos de Santa Clara, aos filhos de Xangô e Iansã, um minuto de silêncio.

Aos garis encarregados da limpeza.

Aos negros revistados a caminho da arena e aos brancos que a polícia sinalizou onde fica estádio.

Aos seguranças atentos ao público, de costas para o jogo.

Aos assalariados que carregam nas costas as chuteiras e os uniformes para o atleta multimilionário brilhar em campo.

Aos que não se importam com chuvas ou temporais, mas com o resultado da partida.

Aos que pegaram trem, metrô e ônibus e aos que chegaram em carros elétricos e importados.

Aos que confraternizam após a partida e aos que vieram para se engalfinhar com os adversários.

A todos que têm direito ao espetáculo.

Um minuto de silêncio.

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Paulo Renato Coelho Netto –   Jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de nove livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”.  Vive em Campo Grande.

 

capa - livro Paulo Renato

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