O homem do mar. Por Antonio Contente
… conheci Eutério, o marítimo. Na época, é verdade, já se aposentara, mas como as fainas do mar representavam uma espécie de vício irremovível, ele vivia a trançar pernas pelo cais.

Nos anos em que morei em Santos conheci Eutério, o marítimo. Na época, é verdade, já se aposentara, mas como as fainas do mar representavam uma espécie de vício irremovível, ele vivia a trançar pernas pelo cais. Em certos fins de tarde era comum encontrá-lo, com os olhos quase úmidos, debruçado na amurada da Ponta da Praia, a observar navios que entravam ou saiam pelo canal.
Agora onde eu gostava mesmo de topar com o Eutério era num barzinho na esquina do Canal 4 com a praia, perto da Igreja do Embaré. Sentávamos ali e, diante de intermináveis brejas, falávamos de tudo, até bem da vida alheia.
Numa tarde de sexta em que o tempo com céu baixo parecia particularmente sombrio, fiz ao marítimo uma dessas perguntas óbvias que talvez até evitasse não fosse a meia dúzia de cervejas que já havíamos tomado:
— Você sente muitas saudades dos tempos das viagens?
— Ora – ele se ajeita na cadeira – é claro que sinto.
— E nesse tempo todo em que você andou por aí – insisto – o que de mais interessante aconteceu contigo?
Eutério pensou um pouco a coçar a densa barba já branca. Pegou um marisco, colocou na ponta da língua; afinal respondeu, mascando:
— Na verdade há sim um episódio profundamente marcante da minha época de marítimo.
— E onde aconteceu – especulo – em Singapura, Hong Kong, Manilha, Marselha, Nova York?…
— Não – bate na mesa – aconteceu aqui mesmo, em Santos.
— E como é que foi? – Eu já estava mordido pela curiosidade.
— Sucedeu que, por viver viajando, eu não queria casar. Mas um dia conheci uma bela moça chamada Viviani e casei.
— Meus parabéns – levanto um brinde.
— Mas que parabéns? Isso foi há séculos, rapaz!
— Muito bem… Você casou e…
— Casei e, como era natural, minha mulher ficava em casa enquanto eu partia por períodos que demoravam meses.
— Partia mas, afinal, voltava – murmuro.
— Exato. E isso, pra te falar a verdade, até que, no começo, era emocionante.
— Só no começo? – Ergo as sobrancelhas.
— É que – ele acentua – quando andava pelos dois anos de casamento as viagens ficaram ainda mais demoradas.
— Na realidade – observo – isso é mesmo o tipo do troço chato.
Eutério concorda com a cabeça, me fita e pousa a mão direita no meu braço esquerdo:
— Posso te confessar?
Antes que eu consentisse, confessa:
— Eu sentia uma baita, uma funda, uma dolorida saudade de Viviani. Até que, certa ocasião, fui mandado para Kobe, a fim de acompanhar os reparos num navio.
— Puxa – coço a cabeça – se não me engano Kobe é no Japão, correto?
— Exatamente. E de lá, com quase três meses fora de casa, escrevia quase todos os dias pra minha mulher. Só que, de repente, o imediato da nossa tripulação adoece.
— E o que tinha a ver uma coisa com a outra? – Suspiro.
— O que tinha a ver – o veterano embarcadiço suspira – é que enquanto ela recebia minha última carta eu estava chegando ao Brasil, de avião, acompanhando o colega enfermo.
— E daí?
— E daí que, assim que terminei o trabalho de internar o doente, corri para casa a fim de fazer uma surpresa para Viviani. Entrei, meu amigo, para dar com ela, deslumbrante, a fazer crochê, sentada na sala. Uma cena de filme, meu Deus do céu, como ela estava linda; linda de morrer…
— Sem dúvida – concordo – uma bela cena.
— Então – o amigo prossegue – nos abraçamos e fomos, entre beijos e abraços, direto para o quarto.
— Até parece que estou vendo a cena – digo, antes de um novo gole.
— Nisso, no que estávamos lá no maior amor – a voz de Eutério fica meio alterada – ouvi o rumor de alguém entrando em nossa casa.
— Era um ladrão? – Me apresso.
— Foi o que pensei – o homem do mar termina – e só percebi que me enganara ao me descobrir dentro do nosso enorme guarda-roupa para o interior do qual minha mulher me empurrara antes do visitante entrar no quarto…
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
