Lendas Urbanas. Por Lula Vieira
… Naquele momento falava-se de lendas urbanas, tema puxado pelos comentários sobre o magnífico e premiadíssimo filme “O Agente Secreto”. Alguns conheciam de perto a história da “perna cabeluda”, narrada no filme, e que se espalhou nos anos 1970, em Recife, contando sobre uma perna humana decepada…

Antes que a querida leitora ou o prezado e recatado leitor fique ofendida (o) e encha o email da editora/proprietária desta publicação com reclamações, me sinto obrigado a alertar que a minha crônica de hoje contém não só sacanagem da grossa, como alguns palavrões, capazes de conspurcar ouvidos e mentes mais puras e atentar ao bom gosto e à boa educação. Escusado dizer que a leitura não está liberada aos menores de 18 anos de ambos os sexos.
Faço um intervalo destinado a quem quiser tomar a salutar providência de deletar a publicação, faça-o agora. Peço desde já desculpas pelo incômodo. (Intervalo destinado ao previdente apagamento deste texto imoral). Ah! Inútil e agressivo também. Porque não dizer? Mal escrito.
Posto isso, vamos à crônica, que é totalmente atual, pois narra fatos ocorridos neste último sábado de janeiro. Estávamos todos no Mercadinho São José, reinaugurado gloriosamente por estes dias, jogando conversa dentro, com a profundidade filosófica que a ocasião exigia. À mesa, além da família de Luiz Fernando Veríssimo, alguns outros circunstantes, gente da mais alta qualidade de conversa, versada em qualquer assunto.
Naquele momento falava-se de lendas urbanas, tema puxado pelos comentários sobre o magnífico e premiadíssimo filme “O Agente Secreto”. Alguns conheciam de perto a história da “perna cabeluda”, narrada no filme, e que se espalhou nos anos 1970, em Recife, contando sobre uma perna humana decepada, que atacava pessoas à noite com chutes e rasteiras, simbolizando medos e violências da época da ditadura militar.
Foi a senha para uma enxurrada de histórias que cada um trouxe de sua infância. Minha mulher, filha de fazendeiros, lembrou-se da escrava cuja alma assombrava a fazenda de seus pais. Era uma negrinha que fora morta pelos donos da propriedade e que costumava surgir numa elevação de terreno, pedindo orações. Essa aparição deixou de frequentar a região depois que a fazenda foi vendida e transformou-se numa concorrida (e sofisticada) pousada, que não poderia ter seus negócios prejudicados por uma intrometida. A cerimônia de exorcismo, que foi amplamente divulgada e deu motivo a um sarau com a presença de grandes artistas mineiros, foi de uma eficácia exemplar, pois nunca mais se ouviu falar na tal escrava, que atualmente deve estar repousando tranquilamente no seu confortável sono eterno.
Outra história, de escravos sendo mortos pelo patrão, é conhecida também no Rio Grande do Sul, com o nome de Negrinho do Pastoreio, embora neste caso, o menino morto foi milagrosamente ressuscitado pela Virgem Maria, fato que fez o estancieiro assassino se arrepender e transformar-se num generoso patrono da igreja. Já em São Paulo, uma lenda conhecida é da Loira do Banheiro, que surgiu em Guaratinguetá e assombra banheiros escolares. Trata-se, na realidade da alma de Maria Augusta de Oliveira Borges, uma jovem do século XIX, filha de um visconde, que foi obrigada a se casar com um homem agressivo e ignorante, e daí fugiu para Paris e morreu em circunstâncias misteriosas, exatamente num banheiro parisiense. A lenda se popularizou e durante muito tempo as pessoas temiam em, ao dar descarga, se deparar com a figura chorosa da Loira do Banheiro. Ela surge exatamente na hora da descarga, angustiada, como quem pede para se livrar desse ambiente.
Foi nessa hora que apareceu, no começo de forma envergonhada e, mais tarde em detalhes, a história de um personagem que se tornou muito conhecido nas rodinhas boêmias de Porto Alegre. Trata-se de um rapaz assassinado pelo pai da namorada por ter espalhado na cidade inteira suas estripulias com a menina. Segundo essa lenda, sua alma surgia nas ruelas escuras fazendo gestos que significavam claramente suas aventuras com a moça. Toda Porto Alegre conhecia a história desse fantasma, o famoso “Zé Furico”.
Como se vê, o Mercadinho São José pode ser também um local propícios a conversas de grande profundidade intelectual.
Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
