Dom Luciano

Dom Luciano Mendes de Almeida

… pedi para mapear quantos conflitos agrários havia no país. Eram, então, cerca de 2 mil. E quantos tinham poderes no meio? Todos. Em vez do MST, era a Igreja que atuava no campo. Precisava conversar com Dom Luciano Mendes de Almeida, secretário-geral e quem comandava a CNBB, sobre isso. Conto, aqui, como nos conhecemos…

Dom Luciano
Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida

Mais fatos que se deram na transição. De uma ditadura triste para a Democracia que desabrochava.

E começo logo dizendo que padres eram atores importantes, naquele tempo. Para uma ideia, no ministério (da Justiça), pedi para mapear quantos conflitos agrários havia no país. Eram, então, cerca de 2 mil. E quantos tinham poderes no meio? Todos. Em vez do MST, era a Igreja que atuava no campo. Precisava conversar com Dom Luciano Mendes de Almeida, secretário-geral e quem comandava a CNBB, sobre isso. Conto, aqui, como nos conhecemos.

Procurei dom Lamartine, queridíssimo amigo, nos Manguinhos. Era quem articulava tudo para dom Hélder. Pedi agendasse encontro com Dom Luciano para definir ações comuns entre Igreja e o ministério que iríamos assumir. Dias depois, avisou:

– Tudo certo. Disse quem você era. Está esperando. Mas se prepare que, quando acabar de falar, ele vai pedir para autorizar a entrada, no Brasil, de 81 padres vetados pelo Governo Militar.

Grande Lamartine. Por saber o que ocorreria passei, antes, no SNI. Para conversar com o ministro Ivan de Souza Mendes e acertar como iríamos trabalhar, naquele tempo novo que começava. Perguntou:

– Você tem sugestão?

– Sim. – Qual é?

– Cumprir a lei. – Para mim, está bem.

– Só tem um problema, ministro. É que, por ela, quem define a entrada de estrangeiros, no Brasil, não é o SNI, como vem sendo até agora. Mas o ministério da Justiça.

– Assim seja. Mas você vai precisar de mim.

Figura extraordinária, o ministro Ivan, a Democracia brasileira muito lhe deve. E tinha mesmo razão. Depois, encontramos uma forma de trabalhar juntos, no controle dos estrangeiros, com a colaboração da Interpol. Mas só em relação a crimes, drogas, por aí. Sem mais ideologia, no meio. Certo é que, depois, fui encontrar dom Luciano. Quando acabei de falar, e como preveniu dom Lamartine, voltou-se para uma escrivaninha, tirou de lá papel com 81 nomes e disse:

– Doutor, então comece por trazer meus padres.

Já consequência da conversa no SNI, escrevi nele:

– Ao DPMAF (órgão responsável por essa admissão). Autorizo a entrada, no país, dos religiosos abaixo indicados.

Assinei e fiz menção de pôr no bolso. Dom Luciano deu um bote (a descrição do gesto é fiel), ágil como um gato, pegou o papel da minha mão e perguntou:

– É para valer?

– Claro.

– Perdão, mas vou trocar. Essa lista era da ditadura, depois mando outra.

Semana seguinte recebi, com só 40 nomes, que os restantes estavam já noutros países. Concedemos vistos a todos. Palavra dada, palavra cumprida. Inclusive ao padre belga Joseph Comblin, apesar de enorme oposição do Itamaraty, por razões até hoje para mim pouco claras. O mesmo que, em 2011, morreu na cidade de Simões Filho (Bahia), com 88 anos, em paz.

A partir daí, ficamos cada vez mais próximos. Inclusive com almoços, todas as quartas, comida boa e caseira. Junto Dom Ivo Lorscheiter, com seu corpo de atleta. E sempre tomando Biss. Saudades desse tempo. Saudades do amigo Dom Luciano.


  • ________________________________________________JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

    José Paulo Cavalcanti FilhoÉ advogado, escritor,  e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Ex-Ministro da Justiça. Integrou a Comissão da Verdade. Vive no Recife. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, cadeira 39.

    jp@jpc.com.br

 

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