SÃO JOÃO

São João: a pátria afetiva do Nordeste. Por Meraldo Zisman

… São João não é apenas uma festa. É uma lembrança acesa. Quando junho chega, as cidades mudam de rosto e de sentimento. As ruas recebem bandeirinhas. As casas ganham cheiro de milho cozido. As praças viram arraiais. A sanfona chama o povo para perto…

SÃO JOÃO

No Nordeste brasileiro, São João não é apenas uma festa. É uma lembrança acesa. Quando junho chega, as cidades mudam de rosto e de sentimento. As ruas recebem bandeirinhas. As casas ganham cheiro de milho cozido. As praças viram arraiais. A sanfona chama o povo para perto. E o Nordeste, tantas vezes lembrado pela seca e pela dificuldade, mostra sua beleza mais profunda: a capacidade de transformar a vida simples em celebração coletiva.

O São João nordestino tem raízes religiosas, pois homenageia São João Batista, celebrado em 24 de junho. Mas, no Nordeste, a festa foi além do calendário da Igreja. Entrou na cozinha, no terreiro, na escola, no sítio, na praça e na memória das famílias. Misturou fé, roça, colheita, música, dança, comida e saudade. Tornou-se uma espécie de retrato sentimental do povo nordestino.

A fogueira não ilumina apenas a noite. Ela reúne. Junta parentes, vizinhos, crianças, velhos e amigos. O milho também não é apenas alimento. É memória. Está na pamonha, na canjica, no mungunzá, no bolo de milho e no milho assado. Cada prato parece trazer de volta uma casa antiga, uma avó cuidadosa, uma infância no interior, uma conversa simples ao redor da mesa. A música é outro coração dessa festa. O forró, o xote, o baião e o arrasta-pé dão movimento ao São João. A sanfona, a zabumba e o triângulo parecem traduzir uma língua que o Nordeste entende sem precisar explicar. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, compreendeu isso como poucos. Ele cantou a seca, a saudade, a para o amor, a volta e a esperança. Por isso, no São João, o Nordeste não apenas dança. Ele se conta.

As quadrilhas juninas também revelam essa força coletiva. Com vestidos coloridos, chapéus de palha, casamento matuto e passos marcados, mostram que a festa precisa do outro. Ninguém faz São João sozinho. É preciso o par, o grupo, o riso, o chamado, a música e a comida repartida. Cidades como Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba, tornaram-se símbolos nacionais dessa celebração. Mas o verdadeiro São João também vive nas pequenas cidades, nos bairros, nos sítios, nas escolas e nas famílias que ainda acendem uma fogueira com respeito e alegria.

No Sul do Brasil, as festas juninas também existem, mas São Pedro, celebrado em 29 de junho, ganha destaque especial em muitas comunidades ligadas à pesca, ao mar, aos rios e à vida rural. São Pedro é visto como protetor dos pescadores e guardião das chaves do céu. Suas festas costumam reunir missas, procissões, almoços comunitários, barcos enfeitados, bênçãos e encontros familiares. É uma celebração menos expansiva que o São João nordestino, mas profundamente marcada pela fé, pela proteção e pelo sentido de comunidade.

Assim, o Brasil revela sua diversidade. No Sul, São Pedro guarda a esperança dos que vivem do mar, dos rios, da terra e da fé comunitária. É uma festa bonita, feita de devoção e encontro. Mas é no Nordeste que o ciclo junino alcança sua expressão mais intensa e comovente. Ali, São João deixa de ser apenas uma data religiosa e se transforma em identidade coletiva. No Nordeste, São João é quase uma segunda pátria. Uma pátria feita de milho, sanfona, fogueira, quadrilha, bandeirinhas e saudade. É a festa que devolve ao povo a lembrança de sua origem. Lembra a casa simples, o terreiro varrido, a avó preparando canjica, o menino olhando o fogo, o casal dançando forró e a praça cheia de gente que, por algumas horas, esquece a dureza da vida. Talvez seja por isso que o São João nordestino emocione tanto. Porque ele não celebra apenas um santo. Celebra um modo de viver. Celebra a resistência de um povo que aprendeu a cantar mesmo na seca, a repartir mesmo tendo pouco, a dançar mesmo carregando saudade. Enquanto houver uma fogueira acesa no Nordeste, uma sanfona tocando ao longe e alguém chamando o outro para o arraial, o Brasil ainda terá onde reencontrar sua alma mais popular, mais simples e mais verdadeira.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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