Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Millôr Fernandes. Por José Paulo Cavalcanti Filho

… Quando foi apagar velas, Millôr pediu a palavra:  – “Estou emocionado. Trata-se de um momento único. Que considerando nossas idades, é a lei da vida, isso não vai se repetir muitas vezes mais”…

Millôr Fernandes
Fonte : Instituto Moreira Salles – Millôr Fernandes

Millôr era gênio, sem dúvida. Quando Maria Lectícia e eu estávamos no Rio coordenava, sempre aos sábados, almoço no Arlecchino. Com turma grande: Eliana e Chico Caruso, Guga e Paula Casé, Hugo Carvana, José Lewoy, Luiz Gravatá, Técio Lins e Silva, muita gente mais. De vez em quando o embaixador José Aparecido, Fernanda Montenegro, João Ubaldo Ribeiro, Ziraldo. E tendo só duas regras: 1. Ninguém podia chegar antes das 15hs. 2. Nem sair antes das 19hs. Aproveito e conto, aqui, umas poucas histórias dele (algumas creio que já publiquei aqui, escusas, faz mal não).

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Na praia da Lagoa Azul, de vez em quando, tem andada dos siris. Põem os ovos, partem do mangue e vem se lavar no mar; depois, usando palavras de Pessoa (Caeiro, no Guardador…), “para de onde vieram, voltam depois”. No trajeto, com frequência, passam por dentro de nossa casa. Com recomendação, aos funcionários, para não serem incomodados. Numa noite, grito pavoroso. De Guga, mulher do arquiteto Paulo Casé, que saiu do quarto com um siri pendurado na orelha. Dei um tapa e ele voou. Millôr, espectador da cena, completou ‒ “Siri melhor quem siri por último”.

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Aniversário de 70 anos, com festa no apartamento de Eliana e Chico Caruso. Lá, gente de todas as tribos: de João Ubaldo Ribeiro a Geraldinho Carneiro, de Paulo Francis (NY) ao embaixador José Aparecido (então morando em Lisboa); de José Lewgoy a nós (Recife). Quando foi apagar velas, Millôr pediu a palavra:  – “Estou emocionado. Trata-se de um momento único. Que considerando nossas idades, é a lei da vida, isso não vai se repetir muitas vezes mais”.

Baixou a cabeça, como se fosse chorar. E era mesmo natural. Por ser, provavelmente, o mais velho no recinto. Protestos gerais. Que é isso?, Millôr. Quando se fez silêncio, completou: – “A vida é mesmo breve, sei bem. Não há como alterar o tempo. Mas quero só dizer uma coisa, meus amigos. Quando o último de vocês morrer, e eu tiver de comemorar aniversário sozinho, vou sentir muitas saudades”.

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Quando um amigo dizia “vou fazer aniversário amanhã”, ele respondia – “Tomara”.

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Soube que estava escrevendo sobre Fernando Pessoa. E, certo dia, chega em casa encomenda que me mandou. Era a biografia de (Ludwig Josef Johann) Wittgenstein, e mais um bilhete: ‒ “Como está escrevendo uma biografia, mando a melhor que já li. Talvez lhe seja útil”.

Pouco antes de enviar à editora mandei, para ele, os rascunhos do livro. Pedindo sua opinião, era natural. Quando escreveu A Bíblia do Caos, também mandou para que fizesse observações. Fiz isso para empatar. E logo recebi bilhete dele, a maior honra que tive em minha pobre vida: ‒ “Escusas por lhe mandar a biografia de Wittgenstein, a sua é muito melhor”.

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Nos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Sales, escreveu ‒ “A última vez em que estivemos juntos (com Ariano Suassuna) foi o momento mais extraordinário. Na casa de nosso comum amigo José Paulo Cavalcanti Filho, jornalista, escritor e causídico (a ordem é a do leitor), numa praia de quatro quilômetros de extensão, em Porto de Galinhas. Ficamos lá horas, conversando dentro d’água, num mar indizível mas que vou tentar dizer.

“A meu lado, dentro das águas claras, a presença absolutamente surreal de Ariano, secundado por (apertem os cintos!) Luís Fernando Veríssimo. E eu ali, galera, me boquiabrindo diante da loquacidade brilhante de Ariano Suassuna e me boquifechando diante do mutismo perturbador de Veríssimo, mostrando, como sempre, que não é homem de jogar conversa fora. Ao redor, a meteorologia no seu melhor, enviando leves pancadas de chuva em momentos preciosos e vento sempre fresco, com dezoito nós e alguns laços ‒ os da amizade”.


  • ________________________________________________JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHO

    José Paulo Cavalcanti Filho – É advogado, escritor,  e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Ex-Ministro da Justiça. Integrou a Comissão da Verdade. Vive no Recife. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, cadeira 39.

    jp@jpc.com.br

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