O salvador. Por Antonio Contente
O salvador… aconteceu de ser nesse exato instante que o fulano procurado por engano percebeu que tinha à sua frente uma bela, uma linda, lindíssima mulher. Sentindo de repente profundo sopro de bem estar abriu os braços…

Naquela manhã de meio de semana, tamanha quarta-feira, Marcos levantou deprimido. Como até para respirar estava difícil, em virtude da secura do ar, não quis nem ler o horóscopo, um dos seus atos obrigatórios. Tomou café mastigando o pão sem empenho e secou o líquido da xícara com três goles. Resvalou beijo insosso na testa da esposa e saiu pra rua.
Chegou ao trabalho sabendo que estava a um passo do mau humor. Assim, tratou de pedir à secretária:
— Se me ligarem não estou pra ninguém.
Isolou-se na ampla sala do escritório, pois alguma coisa dizia que só ali, longe de tudo e de todos, estaria em segurança.
Uma hora depois, porém, lá estava a funcionária entrando:
— Tem uma moça aí fora querendo falar com o senhor.
— Mas a senhora não ouviu, dona Genilda? Não lhe disse que não estou para ninguém?
— O senhor – a moça busca as palavras – falou que se ligassem, doutor. Mas a moça está aí fora; em carne e osso…
Ele levanta, põe um peso sobre os papéis. Balança as mãos:
— Tudo bem, tudo bem, mande entrar.
A visitante não chegou a dar três passos na sala. Estanca:
— Ora, mas que coisa incrível, me desculpe; não é o senhor não!
O equivoco não demorou a ser desfeito, pois de fato havia, naquele mesmo prédio, cinco andares acima, outro Marcos, também diretor de grande firma. Porém, aconteceu de ser nesse exato instante que o fulano procurado por engano percebeu que tinha à sua frente uma bela, uma linda, lindíssima mulher. Sentindo de repente profundo sopro de bem estar abriu os braços:
— Posso te dizer uma coisa?
— Pois não, diga…
— Que pena que a pessoa que você está procurando não seja eu.
A recém chegada primeiro apertou com a ponta dos dedos o brinco da orelha esquerda. Murmura:
— Não fale isso…
Dá dois passos à frente; conclui:
— Afinal, o senhor não sabe o que eu ia fazer com ele.
— Não me diga que ia matá-lo?…
— Ia!
Rápido, Marcos se agita. Puxa uma cadeira:
— Por favor, senhorita, sente. Vou pedir um refresco bem gelado, isso vai acalmá-la.
— Tudo bem, vou aceitar…
Efetivamente, em poucos instantes o ar do ambiente pareceu ficar mais respirável. Tateando em busca das palavras certas como um cego em busca de caminhos, finalmente Marcos pergunta:
— Mas você teria mesmo coragem de dar um tiro nele?
— O senhor duvida? – Ela baixa o copo na mesinha ao lado.
— Não me chame de senhor… – Ele sorri. Depois segue: — Posso te falar a verdade?, duvido…
Há silêncio entre os dois. O camarada é que retoma o fio:
— Afinal, o que foi que ele te fez?
— Me enganou.
— Coisa de dinheiro?
— Não, mais grave. Coisa de amor.
Marcos levanta, vai à janela. Afasta a persiana, olha um pouco para o céu sem nuvens. Torna:
— Como é seu nome?
— Sílvia.
— Escuta, Sílvia, você se importa de me contar o que aconteceu?
— Não me importo não, é tudo muito simples: o cretino me enganou durante meses dizendo que era solteiro, que íamos casar etc. De repente descubro que tem esposa. E três filhos.
Nova pausa. Marcos:
— Seja sincera, mas sincera mesmo: você acha que isso é motivo para matar alguém?
Antes de responder ela volta a pegar o copo, dá um último gole no refresco. Murmura, olhando pro chão:
— Agora estou sacando, depois deste papo, que ia mesmo fazer uma besteira.
— Ótimo – o cara sorri – acabamos de descobrir que você nunca, jamais, em tempo algum, linda do jeito que é, poderia se tornar uma assassina.
Lança a pergunta, como um dardo:
— Você aceita almoçar comigo, apesar de eu ser casado?
— Ora, com você não tem importância…
Para quem acordara num dia ruim, Marcos sentiu que algo bom o envolveu. Afinal, por uma dessas coincidências que não acontecem duas vezes, acabara de salvar uma vida ou, pelo menos, disso se convencera. Levou a guria para almoçar; após, deu seus números de telefones, totalmente imerso numa espécie de felicidade; se despediu com um “vê se liga”. Ao que ela garantiu: “Pode deixar”…
No dia seguinte nosso herói acordou esplêndido, os acontecimentos da véspera obraram bem imenso. Foi para o escritório cantarolando ao volante do carro e, talvez, cantarolando continuaria se ao entrar na sua sala a secretária não perguntasse:
— O senhor já soube o que aconteceu com doutor Marcos, o diretor seu xará aí do décimo andar?
O fulano se apoia na mesa, pálido:
— Não me diga que ele foi morto!?
— Sim, foi, é o assunto do dia aqui no prédio.
Desabando numa poltrona, prende a cabeça entre as mãos. A secretária segue:
— A esposa, ao descobrir que ele tinha uma amante, o queimou com três tiros.
Rápido, Marcos dá salto quase felino, berrando:
— Ah, a assassina foi a mulher dele? A mulher dele?
Teve, é verdade, ímpetos de soltar um “que bom” por não ter sido Silvia a autora dos tiros. Daquele instante em diante passou a esperar, desesperadamente, um telefonema. Porém, durante meses, ficou apenas com o vazio da ligação que nunca veio…
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ANTONIO CONTENTE –
Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
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Digamos que Marcos teve um baita de um livramento , ao ficar esperando a ligação que nunca veio. Afinal, a morte do xará deveria ter servido de sinal de alerta, de uma prévia para abaixar o seu facho. Pois caso Marcos plantasse um chifre na cabeça de sua mulher ela poderia ter a mesma violenta reação.
Desculpe perguntar mas nao entendi o comentario.
Nao lutamos com umhas e dentes oara validar o quem ama nao mata??
Ou isto só vake para o amor masculino??
Dúvidas, só duvidas