Ah! No meu tempo… Coluna Mário Marinho

Ah! No meu tempo…

COLUNA MÁRIO MARINHO

Nós, pessoas já mais vividas, experimentadas, que já fomos colocados à prova pelo implacável passar do tempo, somos, seguidamente, acusados de saudosistas.

Acusação que, por vezes, pesa como se fosse uma doença incurável, contagiosa ou, até mesmo, uma infração penal ou crime hediondo.

Apenas temos saudade.

Claro que muitas vezes a frase do título vem acompanhada de comparações e afirmações do tipo: aquilo sim é que era vida; naquele tempo era muito melhor… e outras.

Comparar tempos passados costuma ser, além de perda de tempo, uma bobagem sem tamanho por sua inutilidade e impossibilidade.

Quando uma pessoa começa a divagar sobre aqueles tempos, quando tinha 20 anos, na verdade, o que ela tem saudade mesmo é daquela pessoa de 20 anos, cheia de energia, de confiança. Aquela pessoa que se pensava inatingível, indestrutível, eterna.

E, se a recordação é, por exemplo, sobre frutas, estará se lembrando mais daquele sabor de infância.

Lembra-se da manga cujo caldo escorria pelos braços?

Que delícia!

Delícia?

Você acabava de chupar manga e ficava o dia inteiro a tirar fiapos presos entre os dentes.

Convenhamos, a manga Palmer à sua disposição no supermercado é muito mais saborosa do que aquela manga comum. Saborosa e sem fiapos.

E a goiaba que você apanhava no pé, no quintal de sua casa ou no quintal do vizinho?

Sabor sem igual!

Taí, eu até concordo. As goiabas do supermercado, aquelas grandonas, japonesas, tem menos sabor.

Em compensação, não têm bicho.

Não é preciso se arriscar a pular a cerca do vizinho e se estrepar num arame farpado nem se arriscar a dar com uma caixa de marimbondos…

Como eram bons os filmes do meu tempo.

E os seriados então nem se fala.

“Os perigos de Nyoka”, “O Fantasma voador”, “As aventuras do capitão Kid”, “Superman”, “O Zorro”, “Capitão Marvel”.

Eram séries que me deixavam com a respiração suspensa pois só na semana seguinte iria saber como a mocinha dependurada numa corda sobre um despenhadeiro, pobre coitada!, como ela iria escapar.

Somente a santa ingenuidade de uma criança de 12, 13 anos naqueles anos 50 engoliria.

Efeitos especiais nada especiais, revólveres que davam dezenas de tiros e nunca acabava a munição; mocinhos cercados de índios por todos os lados que nunca lhe acertavam uma flecha…

E os presentes de Natal?

As meninas ganhavam bonecas; os meninos bola ou carrinhos.

Lembro-me de ter ganhado uma réplica do da caminhonete Ford modelo de 1950 que está no alto da coluna. Claro, na foto é um modelo estilizado, com pneus largos, nova cor. A minha era verde.

Não sei como meu pai conseguiu comprar. O meu modelo não era de “matéria plástica”, como dizíamos na época, mas de metal. Deve ter custado uma grana.

Assim como os presentes, as brincadeiras também eram bem distintas.

As meninas brincavam de casinha, de fazer roupas de bonecas, de roda ou de pular cordas.

As brincadeiras dos meninos eram de rua: jogar bola e voltar para casa com o dedão do pé estourado.

Ao chegar em casa, ouvia bronca da mãe que, quase sádica, despejava iodo em cima do machucado.

E aquilo doía e doía, doía muito. Mas homem não podia chorar.

Lembro-me de tudo isso porque é Natal.

Então, na manhã de Natal, saíamos à rua exibindo e curtindo nossos brinquedos. Orgulhosos, felizes.

Nesta terça-feira, saí à rua aqui no meu bairro, em São Paulo, e dei uma volta pelas vizinhanças.

Não vi nenhum menino exibindo sua bola nova, seu patinete, ou caso raro, uma bicicleta.

Na certa, estavam todos eles dentro de casa, dos apartamentos, curtindo o novo game, o novo tablet, um celular ultra moderno daqueles que basta você pensar ele já faz a ligação…

Mundo novo mundo, parafraseando Drummond.

Ah!, no meu tempo…

Ousar lutar

é ousar vencer

O Santos ousou e trouxe o técnico argentino Jorge Sampaoli, experiente, curioso, inquieto. Dá uma boa balançada no conservador mercado de técnicos do Brasil, acostumado à mesmice de trocas sem parar.

Nas últimas duas Copas do Mundo, ele dirigiu as seleções do Chile e da Argentina. Experiência não lhe falta.

Quanto ao título desta nota “Ousar lutar é ousar vencer” fui ao Google procurar o seu autor. Ali aparece o capitão guerrilheiro Carlos Lamarca.

Antes de Lamarca se tornar famoso, eu já ouvia essa frase diversas vezes na redação do Jornal da Tarde, citada pelo insigne e sempre ousado Vital Battaglia.

Ele dizia que a frase estava no “Livro Vermelho” de Mao Tsé Tung.

Eu acredito.

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FOTO SOFIA MARINHO

Mário Marinho – É jornalista. Especializado em jornalismo esportivo, foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
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1 thought on “Ah! No meu tempo… Coluna Mário Marinho

  1. Prezado Mário,

    Gostei da coluna, como sempre, e especialmente do conservadíssimo carro da foto. Então lembrei-me
    da Rural que seu pai, Sr. Paulo Marinho (depois você), dirigia pelo bairro sempre com alguns meninos a bordo.
    Depois entrou em cena a sua Belina, subindo e descendo, também invariavelmente lotada, as íngremes e maltratadas ruas do nosso bairro. Portanto, desconfio que a postagem da foto nesta coluna esteja relacionada com a memória daqueles tempos. Grande abraço e que o amigo e família tenham um feliz 2019.

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