OSSANHA

O canto de Ossanha traidor. Coluna Carlos Brickmann

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE QUARTA-FEIRA, 18 DE MAIO DE 2021

 Há ocasiões em que aparece alguma novidade no Brasil. A última é que o presidente Bolsonaro se declarou imbrochável, incomível e imorrível.

A antiga Roma, capital do mundo, achava que os poetas eram mensageiros dos deuses, que lhes davam os divinos poderes de divinare, “adivinhar”. Em latim e português o poeta é chamado de “vate” – daí a palavra “vaticínio”, previsão. Ouçamos nosso poeta Vinícius de Moraes e seus vaticínios, no ótimo Canto de Ossanha: “O homem que diz sou não é”.

Por coincidência, Ossanha é o orixá das folhas milagrosas, das ervas que curam; não trata de medicamentos criados por cientistas, infectologistas, biólogos, embora os ajude com seus fitoterápicos de ervas medicinais e de folhas milagrosas. E Bolsonaro? Mais vaticínios do poeta Vinícius: “Coitado do homem que cai/ No canto de Ossanha traidor! / Coitado do homem que vai/ Atrás de mandinga de amor”. Tem coisa pior do que se deixar enfeitiçar pelo presidente de outro país, de cabelo tão laranja quanto… quanto… ah, deixa pra lá. O homem que conquistou seu coração nem mais é presidente.

Quanto a ser imorrível, só conheço um – e também falso. O Fantasma, grande personagem de quadrinhos, tinha fama de imortal, mas não era. Por 400 anos um filho substituía o pai falecido, mantendo o nome e o uniforme do Espírito que Anda. No nosso caso, os filhos todos se elegeram já usando o mesmo nome do pai; quem tentará sucedê-lo na Caverna da Caveira?

 As diferenças

Os dois se declaram imorríveis, mas acabam aí as semelhanças entre ambos. Os dois andam armados, mas o Fantasma jamais teve de entregar as armas a algum assaltante. O Fantasma é dono de um tesouro incrível, mas vive modestamente e nem sabe o que é uma picanha de R$ 1.800,00 o quilo.

E, lembrei-me, há outra semelhança: ambos vivem cercados de pigmeus.

 Crise anunciada

O Governo promete para agora uma linha especial de crédito na Caixa, para caminhoneiros, com taxa inferior a 55% ao ano. Convida-os a trocar seu veículo por outro mais moderno. Só que boa parte dos problemas do setor vem do excesso de caminhões e da falta de carga. Aí ocorrem as tentativas, sempre furadas, de criação de um frete mínimo, imposto pelo Governo.

Não dá certo: se um caminhoneiro está sem carga, preferirá cobrar menos a ficar parado. E há dois projetos que atingirão diretamente o transporte por caminhão: as ferrovias que, de pouquinho em pouquinho, acabam sendo concluídas e oferecem preços muito mais baixos e poluem menos; e a BR do Mar, um projeto estranho, que entrega o transporte de boa parte da produção nacional a barcos estrangeiros, e que também contribuirá para reduzir a necessidade de frete rodoviário. Os enormes caminhões para longas viagens

talvez sejam caros demais para pegar uma mercadoria no porto e levá-la ao destino, a poucos quilômetros de distância. Com esse problema, mais outro – estará pagando o caminhão, mesmo com juros baixos – é crise na certa.

 Aprender é preciso

Este erro já foi cometido no governo de Dilma e foi responsável pela crise do transporte rodoviário no governo Temer e no atual duelo por preços no governo Bolsonaro. Claro: o ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, Tarcísio Gomes de Freitas, era diretor-executivo (e mais tarde diretor-geral) do DNIT, Departamento Nacional da Infraestrutura de Transportes, no tempo da presidente Dilma.

Naquela época, como hoje, acha que está certo.

 A roupa do general

Hoje deve ser divertido assistir ao depoimento do general Pazuello na CPI do Senado. Depois de longa hesitação, o general parece ter decidido vestir farda para depor – o que talvez não seja bem visto pelas Forças Armadas, já que sugere que administrou a Saúde em nome delas. Não é verdade: aliás, não administrou a Saúde nem em seu próprio nome, mas como obediente preposto do presidente Bolsonaro. Deve estar pensando em intimidar a turma da CPI.

De certa forma, é triste saber que um general depende da roupa que usa para que saibam quem é. Enfim, não se esperava que fosse de farda. Com a situação que enfrenta, no estado de nervos em que dizem que está, apostava-se que iria de terno marrom-esverdeado. Camuflagem, digamos.

 A opinião do presidente

Pazuello foi ao Supremo e conseguiu decisão que o libera de falar quando o que disse possa incriminá-lo. Que pensa o presidente Bolsonaro desse tipo de depoimento? Ele já disse tudo na CPI dos Bancos, de 1999, no Governo Fernando Henrique, quando o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, conseguiu liminar para calar-se quando as respostas o incriminassem.

Disse Bolsonaro: “Dá porrada no Chico Lopes. Eu até sou favorável a que a CPI, no caso do Chico Lopes, tivesse pau de arara lá. Ele merecia isso: pau de arara. Funciona! Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também”.

A Rede Bandeirantes transmitiu essa entrevista.

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2 thoughts on “O canto de Ossanha traidor. Coluna Carlos Brickmann

  1. Muito bom esse artigo, como sempre.
    Para constar, Pazuello traja um terno azul-escuro.
    Sua testa já brilha e estamos somente no início dos trabalhos.
    A conferir.

  2. Muito se diz agora sobre as imagens que o capitão faz de si mesmo, mas não sei se há tanto para dizer. Sobre ser ‘imbroxável’ ou ‘imorrível’, trata-se apenas de bobagem. O Viagra já é um patrimônio da humanidade, e só broxa quem quer. ‘Imorrível’, bem… nos sonhos, todo Presidente com paixões autoritárias e totalitárias deseja ser. De fato, o adjetivo que merece comentário é ‘incomível’. Vi e revi a passagem em que o capitão assim se diz, e, no momento em que pronuncia a palavra, creio ter notado certo ar de lamentação, quase como se expressasse uma queixa. Notem que ‘incomível’ significa aquilo que não pode (mais) ser comido, não aquilo que nunca foi comido… Assim, ao se dizer ‘incomível’, o capitão – talvez sob a influência de uma cerveja a mais, o que facilitaria a expressão de suas pulsões mais reprimidas – pode estar apenas verbalizando aquele tipo de medo que vem embutido no desejo recalcado. Isso nos oferece uma pista para entender a sua já famosa frase ‘enfia no cu’, que sai de sua boca todo dia. No fundo, são apenas (boas e más) lembranças reprimidas.

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