A bola da Seleção vai rolar. Blog do Mário Marinho

Ainda bem, ainda bem.

Já estamos cheios de dissabores, de problemas, de transtornos.

Estamos cheios de crises, de pandemias, de contrariedades, de aborrecimentos…

Se não dá para dizer um basta! Um chega!, vamos nos contentar pelo menos com uma ligeira pausa.

Assim, às 21,30 horas vamos assistir a Paraguai x Brasil, no histórico estádio Defensores del Chaco.

E vamos torcer, torcer muito para que seja uma bela apresentação, que saiamos de campo vitoriosos não só no placar, mas como também no resgate do nosso futebol.

Esse estádio, que hoje tem capacidade para 42 mil torcedores, foi inaugurado em 1917, com o nome de estádio de La Liga.

Em 1974, recebeu o atual nome, em homenagem aos soldados que participaram da Guerra do Chaco, conflito armado entre Paraguai e Bolívia, que ocorreu de 1932 a 1935, em virtude da disputa de um terreno inóspito, um grande chaco.

Foi o maior conflito armado da América do Sul no século 20 e terminou com o Paraguai dominando a maior parte do terreno em disputa.

Nesse mesmo estádio, no dia 17 de agosto de 1969, presenciei outra batalha: desta vez, os defensores del Chaco, os paraguaios, foram inapelavelmente batidos pelos brasileiros: 3 a 0, jogo válido pelas Eliminatórias da Copa de 1970.

Era uma tarde de domingo.

O Brasil vinha de vitórias sobre a Colômbia e a Venezuela.

Chegou em Assunção e foi recebido friamente pelos paraguaios.

Eu havia chegado em Assunção, para a cobertura pelo Jornal da Tarde, numa segunda-feira. O Brasil chegou na quinta.

Naqueles dias, o povo paraguaio festejava o fim da Guerra do Paraguai, aquele que sacramentou o Duque de Caxias, para nós, brasileiros, grande herói. Para os paraguaios, verdadeiro assassino – um genocida, para usar uma palavra bem atual.

Os programas esportivos de rádio começavam e terminavam com a execução do hino nacional.

Vencer o Brasil tornou-se uma obrigação patriótica.

A imprensa local pintava os brasileiros de assassinos de criancinhas.

O ambiente foi o mais hostil possível.

Os repórteres paraguaios provocavam o falante técnico João Saldanha, que ameaçou pedir à CBF que marcasse o jogo de volta para a cidade de Nova Lima, em Minas.

– Vocês vão conhecer o alçapão do Bom-Fim. Assim, ele respondia às provocações.

Era este o apelido do acanhado estádio do Vila Nova, lá em Nova lima.

O que levou um repórter paraguaio a me perguntar:

– O que es uno alçapon?

– Es lo infierno!, respondi irado.

O Brasil jogou com: Félix, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo e Rildo; Wilson Piazza e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu (foto ao alto, onde aparecem também, agachados, os massagistas Mário Américo e Nocaute Jack).

Foi um passeio.

Mas, antes do passeio, os jogadores brasileiros usaram e abusaram das faltas – e faltas violentas – no começo do jogo.

Ao final do jogo, o falante lateral Rildo, que era um dos meus informantes na cobertura diária que eu fazia do Santos para o Jornal da Tarde, me explicou:

– Na preleção, o Saldanha falou pra gente. Esses caras falaram muita merda durante toda a semana. Muita merda. Agora, tá na hora de darem o troco. E lembrem-se: nenhum juiz expulsa um jogador com menos de 10 minutos de jogo.

Só então entendi a pancadaria nos minutos iniciais.

João Saldanha e sua doce irresponsabilidade.

Em 1969, o Brasil jogou seis vezes, jogos de ida e volta, contra a Colômbia, Venezuela e o Paraguai.

Venceu todos os jogos. Marcou 23 gols. Tostão (na foto ao alto) foi o artilheiro.

O Paraguai é o adversário do Brasil esta noite.

Os tempos são outros, tomara que a vitória seja também consagradora.

Em

Paz?

Dentro de campo, parece que está tudo em paz. Houve turbulências, boatos sobre a não realização da Copa do Brasil, demissão do técnico Tite – uma confusão.

Quem caiu mesmo foi o presidente da CBF, Rogério Caboclo, afastado por um até então desconhecido Comitê de Ética da CBF.

Acusação: assédio sexual a uma funcionária da entidade.

Dificilmente ele volta ao cargo e o caso pode se transformar num escândalo policial.

Que todas as investigações sejam feitas.

Se nosso futebol já não é tão respeitado como há duas décadas, que pelo menos sobreviva a dignidade, a cidadania.

Precisamos manter firmes e inabalável o orgulho de ser brasileiro – apesar do terrível momento.

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
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