O ídolo, o craque e o líder. Coluna Mário Marinho. Especial Copa do Mundo

COPA DO MUNDO – ESPECIAL

 

 

O ídolo, o craque e o líder.

COLUNA MÁRIO MARINHO

São três palavras usadas com muita facilidade e também com muita confusão.

São três situações distintas, diferentes e que dificilmente são encontradas, juntas, em uma mesma pessoa.

Por exemplo.

Durante a transmissão do jogo Argentina e França, a televisão mostrou muitas vezes o craque Messi de cabeça baixa.

Isso aconteceu após cada um dos gols tomados pela Argentina e também ao final do jogo com Los Hermanos desclassificados.

Ouvi de narradores e comentaristas cobrando a postura de um líder. Ou com afirmações do tipo: um líder não pode baixar a cabeça assim.

Mas, quem disse que Messi é um líder.

Messi é um craque e também um ídolo.

Os argentinos costumam prestar reverências ao que eles chamam de Santíssima Trindade: Maradona, Messi e o papa Francisco.

Os dois primeiros são craques e ídolos. O terceiro é um líder – o líder espiritual da Igreja Católica.

Quando foi eleito papa, ele foi eleito Chefe da Igreja Católica. Com sua atuação carismática, sempre presente, inteligente, agregador, foi elevado de chefe a líder.

O que se pode cobrar de Maradona, é uma atuação mais presente, mais firme, mais contundente – mas nunca de líder.

Pelé, o maior jogador do mundo de todos os tempos, foi um líder?

Não, não foi.

Apesar de ser o melhor de todos, aclamado Rei do Futebol, de sua disposição física, de sua entrega dentro de campo, de mostrar coragem nunca fugindo de bolas divididas, Pelé nunca foi um líder.

No Santos, onde jogou a grande parte de sua vida, os líderes eram Carlos Alberto Torres e Zito.

Eram os dois que gritavam com os companheiros, que exigiam mais raça, mais determinação, mais participação – inclusive do próprio Pelé.

Eles eram líderes.

No jogo Brasil 1 x 0 Inglaterra, na Copa de 1970, no México, o atacante Lee, da Inglaterra, deu duas entradas violentas no goleiro Félix.

O lateral Carlos Alberto chamou Pelé e travou-se aí o seguinte dialogo, que me foi contado pelo próprio Carlos Alberto:

– Negão, o número 9 deles já pegou o Félix duas vezes. É preciso dar um jeito nele. Divide cm ele, dá uma porrada nele!

– Eu não posso fazer isso, sou muito visado e o juiz vai me expulsar.

Carlos Alberto não teve dúvidas, na primeira bola que o Lee pegou e partiu para nossa área, ele, o capitão da equipe, o líder, deixou sua posição de lateral direito e deu entrada violentamente acintosa no inglês.

Era caso de cartão vermelho que, aliás, fazia sua estreia naquela Copa.

O juiz deu apenas a falta e advertiu fortemente Carlos Alberto.

Quanto a Lee, nunca mais voltou nas cercanias da área brasileira.

O líder não se importou de se colocar em risco. Ele poderia ser expulso, mas precisava acabar com aquela situação.

Nesse exemplo, não considero que Pelé tenha se acovardado. Ele era totalmente consciente de sua importância para o time. Daí, ser necessário se preservar.

O craque é o melhor na  sua competição, na sua posição.

A palavra vem do inglês “crack”, significando quebrar, empregada em sua origem aos melhores cavalos de corrida. Aqueles que, na definição de um jornalista de turfe, eram capazes de quebrar a monotonia.

E o que nós esperamos do craque?

Exatamente que ele quebre a rotina do jogo, o marasmo, a mesmice.

Neymar é um craque.

E o ídolo?

O ídolo é quase uma imagem, como era empregada a palavra em sua origem grega. A palavra era empregada também no sentido de fantasma, de aparição…

Nem sempre o ídolo é o craque.

Lembro-me, por exemplo, de um zagueiro do Palmeiras chamado Tonhão.

Tonhão estava a quilômetros e quilômetros de distância de ser um craque.

Era um zagueiro de muita raça.

Tinha a figura marcante com longa e encaracolada cabeleira.

Quando o Palmeiras estava perdendo ou em dificuldades em um jogo, era comum ver Tonhão deixando a sua área e atravessando o campo com a cabeleira esvoaçante em direção à área adversária, principalmente nas cobras de faltas ou escanteios.

A torcida ia ao delírio e entoava uma canção especial para a ocasião com apenas uma palavra: “Tonhão, Tonhão”...

Moisés foi outro zagueiro que se tornou ídolo do Corinthians e que pouco tinha a ver com a técnica.

Ele era chamado de xerife. E a torcida o amava porque ele sabia como manter o adversário longe de sua área.

Para mostrar que não estava de brincadeira, Moisés sempre repetia: “Área não é sala de visitas. Atacante não é bem vindo aqui.”

E você, caro e seleto leitor, encontra alguém que reúna as três qualidades?

Ídolo, craque e líder juntos em uma mesma pessoa? Três em um?

O sofrimento

de sua Majestade

Lá em Buckingham, tomando seguidas doses de sherry vindo diretamente da Andaluzia e mordiscando nervosamente Cheese bits, a rainha Elizabeth acompanhou o drama inglês ontem na Rússia.

Não deve ter gostado nada do que viu.

A Seleção da Inglaterra fez 1 a 0 e parou em campo, como se já estivesse tudo dominado.

Em um determinado momento, deu-se a impressão de que a Inglaterra talvez nem soubesse contra quem estava jogando.

Colômbia? Onde fica isso?, perguntou Lord Byron.

Pois aos 48 minutos do segundo tempo, o zagueiro Mina fez seu já tradicional gol de cabeça o que levou o jogo para a prorrogação.

Nos pênalti, o ótimo goleiro Obina fez a parte dele e praticou uma defesa sensacional.

Mas, na sequência, seu companheiro de clube chutou na trave. E logo outro cobrou para ótima defesa do esperto goleiro inglês, Pickford.

Assim, a Sua Majestade autorizou Mr Carson, o mordomo, a soltar dois foguetes em comemoração.

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FOTO SOFIA MARINHO
MARIO MARINHO, Copa do Mundo Especial CHUMBOGORDO
Mario Marinho – É jornalista. Especializado em jornalismo esportivo, foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.
(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
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