Richard Overton, aos 112 - um dúzia de charutos por dia... (Cuba)

Leitores e Charutos. Por José Paulo Cavalcanti Filho

LEITORES E CHARUTOS

José Paulo Cavalcanti Filho

…“Você só se aqueceu de tratar as virtudes das mulheres do fumadores de charutos. São pessoas raras. Aqui em casa, por exemplo, muito ao contrário de George Burns, se eu começasse a fumar charuto não viveria nem mais um minuto”. Laurentino Gomes (escritor, autor da trilogia 1808).

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O melhor de escrever em jornal é sentir a reação dos leitores. Respondo, quando escrevem. Invariavelmente. E, algumas vezes, penso dividir essas falas com outros leitores. Venia para fazer isso, agora, com relação à última coluna (Viva o Charuto). Apenas umas poucas mensagens, não daria para todas. Aquelas com observações que possam interessar a mais gente. E sem transcrever elogios, já passei da idade em que isso tinha importância. Com os senhores, Sua excelência o leitor:

“Apreciei o seu texto sobre os charutos. Também sou apreciador. Sobre as maluquices de Colombo, sugiro consultar o livro de Afonso Arinos, O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa”. Alberto Venâncio Filho (da ABL).

“Groucho e Karl não eram irmãos, mas eram ambos charuteiros. Claramente prefiro o primeiro ao outro”. Antoine Vivant (banqueiro em Lisboa).

“A primeira vez que tive o prazer de subir a escada que leva para o escritório do Dr. José Paulo, ele me recebeu fumando um charuto com tanto prazer que dava para perceber nos brilhos dos seus olhos quando soltava a fumaça. No desenrolar da boa conversa misturada com as tragadas do charuto, contou-me uma história plástica que aconteceu no Rio. Encontrou-se com um amigo de escola, que não via há anos, mas não teve a oportunidade de pegar-lhe o telefone porque o ônibus que o amigo ia viajar apressou-se e o amigo não teve a oportunidade de copiar e passar o número do telefone. Percebi um brilho de frustração nos seus olhos por não ter tido mais a oportunidade de rever o amigo, por causa da pressa do motorista do ônibus”. Cícero Tavares (jornalista).

Resposta: Verdade. Se chamava Antêmio. Para nós, era Antêmio Catatau. Nunca mais o vi. Como pressenti. Infelizmente.

“Hitler era um psicopata assassino e não fumava. Che era um psicopata assassino e fumava. Fumar não torna ninguém melhor, nem pior. O vício que cultivamos, ou não, não nos torna anjos nem demônios”. Comandante (profissão ignorada).

“Você vai ficar com raiva de mim. É que deixei estragar diversas caixas dos mais preciosos charutos que recebi e esqueci de repassar. Uma vez cometi uma indelicadeza durante atividade em Genebra, quando eu era conselheiro do South Centre. Fui visitar o embaixador de Cuba que me presenteou uma caixa do que os cubanos fazem de melhor. Na frente dele, na mesma hora, passei a caixa para meu amigo hoje embaixador brasileiro Fres Meyer dizendo eu não fumo. Eu e Hitler”. Cristovam Buarque (educador).

“Aquele navegador genovês era incrível. Foi trazer para a Europa um hábito democrático, antídoto para o fascismo que século depois surgiria em sua terra. Edilson Pereira Nobre (Desembargador Federal).

“Li sua crônica ainda em Goiânia. Cometi, porém, uma falta de que me penitencio: a leitura foi em quarto de hotel… De volta a Brasília, vou relê-la com o ritual a que tem direito: fumando um Monte Cristo Edmundo e degustando o Diplomático, rum venezuelano que me é a companhia ideal para os puros que nos deleitam o corpo e preenchem os vazios d’alma”. Edmilson Caminha (escritor).

 “Meu velho avô, o General Flores da Cunha, era inveterado charuteiro. Tenho um retrato dele, aqui na minha parede, com seu Montecristo preferido. Certa vez, no início dos anos 50, ganhou de amigo uma caixa de Cohiba. Estava presente João Neves da Fontoura e observou que Getúlio Vargas, também emérito charuteiro, haveria de  apreciar obséquio semelhante. Rompido havia anos com Getúlio, Flores da Cunha tirou um da caixa e disse. Leve-lhe um; um só”. Flávio Bierrenbach (ex Ministro do STF).

“É só colocar no humidificador. Você viu que o Paulo Cordeiro e a mulher faleceram em Milão? Uma pena”. Frederico Meyer (escritor).

“Fiquei com inveja dos fumantes dos puros. Entretanto você esqueceu de dizer que Freud morreu de câncer na boca. Bem, afinal de contas não me incomodo de ser espírito de porco”. Gentil Porto (médico e escritor).

“Uma beleza seu texto, deu vontade de fumar charutos”. Geraldinho Carneiro (da ABL).

“Isso é um tratado, parabéns”. Germano Haiut (grande ator).

 “De marca de cigarro recordo ainda do lasca peito (na Europa referem caporal), Astoria (envólucro amarelo e vermelho), Asa (azul), Columbia (c/ imagem de um barco, esse estourou os  peitos do Barbosa da Mamona), Chesterfield.  Ainda adoro o cheiro de fumo de rolo ensacado nas feiras. Quando estudante fumei bemconha, lombrinha palha que em nada me entusiasma hoje. Na falta de grana viva, trocávamos as capinhas no mercado virtual, mais valendo os cigarros de marcas mais caras. Para São Paulo, o compositor Carlos Fernando enviou solicitação de socorro ao irmão Danilo: envie dinheiro. A resposta chegou rápida: só se for em nota de papel de cigarro…” Gianni Mastroiani (escritor).

 “Só uma promessa tola, que nem merecia ser feita, fez com que deixasse de fumar até os dias de hoje. Confesso que sentia falta, tanto assim que contava, todos os dias. Há quanto tempo deixara o vício. Se não me engano, parei de contar quando atingi 1200 dias, l2 horas e 12 minutos sem o perigoso vício. Bons charutos!” Giovanni Mastroianni (advogado).

“Tudo bem, mas ter esquecido do fantástico austríaco Stefan Zweig, que degustava charuto com Winston Churchill… quando ainda, nem tinha nascido, foi imperdoável… kkkk”. Giovanni Scandura (publicitário).

 “O antitabagismo assumiu uma terrível feição fascista e odienta (sou insuspeito: minha mãe foi vítima do cigarro, a irresistível  dependência da nicotina). O ódio ao cigarro se projeta no ódio à pessoa que fuma. Um horror. O charuto, como você tão bem descreveu, é sempre uma celebração! Virtude, e não vício. Como charuteiro, estou de alma lavada. Um afetuoso abraço geminiano do charutista militante. PS. Ia esquecendo: Hitler era vegetariano. Ainda bem que Gandhi, também”. Gustavo Krause (ex Ministro da Fazenda).

“Quando encontrá-lo, ofereça-me um charuto, para brindarmos”. Heleno Ventura Torres Ventura (empresário).

“Aí está a explicação. Com certeza o cidadão não conhece história. Do contrário, teria ficado calado!” Inácio Meira (produtor rural, pai de Sílvio Meira).

“Vou imprimir e emoldurar”. Jamildo Melo (jornalista).

“O editor do New Yorker tá babando. Diz que a próxima é dele”. Joca Souza Leão (escritor).

“A beleza do texto supera em muito as vagas preocupações médicas. Final lindo. Chave de ouro”. João Bosco Oliveira Filho (médico, da Genomika).

“Há gente que se dá ao desplante de fumar charuto dos bons e desperdiçá-los sem aproveitamento. O Clinton, por exemplo, segundo noticiário da época, teria abusado de um charuto em relação imprópria com a espevitada Lewinsky… Fantástico: um charuto presidencial jogado fora dentro de um salão oval…” Jorge Geisel (escritor).

“Fumar charuto (na verdade, cigarrilha) é o momento em que me sinto bem, conversando com mim mesmo”. Jorge Jatobá (economista).

“Bela citação de Cabrera Infante. E os encorpados hondurenhos têm o seu valor: eu fumava nos Estados Unidos”. José Almino Alencar (escritor).

   “Texto sublime”. José Jardelino (pesquizador).

“FUME. Fume até o fim. E além do fim. A alma continuará fumando. Eternamente”. José Mário Rodrigues (poeta).

“Churchill estragava mesmo 125 por dia? Quanto custava cada caixa?”. António de Abreu Freire (da Universidade de Aveiro, Portugal).

“Não precisavas de exagerar: o Churchill a fumar 125 charutos por dia, mesmo dormindo só 4/5 horas, como o nosso Marcello (Rebello de Souza), dá seis charutos por hora, o que, olhando para o porte dos mesmos me parece impossível. A não ser que ele, perdulário, nem metade de cada um fumasse”. José Carlos Vasconcelos (da Academia de Letras de Portugal).

“Bela ode ao bom charuto e ao momento de usufrui-lo.  Apenas permito-me questionar os 125 charutos/dia do incomparável Churchill – acho que não dá tempo! Teria que ser num ritmo de 5 charutos/hora!”. Raul Cutait (ex presidente do Sírio Libanês).

Resposta aos três amigos: Os charutos dele, não por acaso, eram bem finos. E longos. Acabou virando marca, Churchil. Ele gostava só do primeiro terço. Tinha quase dois metros e mais de 100 quilos. Eram três baforadas e a secretaria jogava o resto fora. Refaçam os cálculos, amigos.

“Você só se aqueceu de tratar as virtudes das mulheres do fumadores de charutos. São pessoas raras. Aqui em casa, por exemplo, muito ao contrário de George Burns, se eu começasse a fumar charuto não viveria nem mais um minuto”. Laurentino Gomes (escritor, autor da trilogia 1808).

“É uma pena, que a ânsia autoritária do ser humano, hoje canalizada para o tal politicamente correto prive tanta gente de apreciar o que gosta. Nos dias de hoje, fumar, só se for cannabis. Eu, particularmente, nunca fumei nem cigarro, nem charuto, nem cachimbo, mas deploro a perseguição que os apreciadores vêm sofrendo. Sempre desconfiei das pessoas que proclamam não terem vícios nem defeitos. Geralmente os têm, e dos piores. Como curiosidade: realmente Colombo não era muito certo da cachola, mas não saber nadar era a regra naqueles tempos. Segundo a lenda, nadar não era necessário nas operações normais. Quanto à possibilidade de um naufrágio durante uma travessia oceânica, os marinheiros diziam preferir morrer logo do que sofrer por mais tempo à espera de um resgate improvável”. Marcelo Bertoluci (ex-microempresário).

“Ao ler a carta no JC, pensei a resposta promete. Matei a mosca: gerou linda crônica”. Nelson Cunha (jornalista).

“Foi gratificante, como charuteiro, ler, pelo menos três vezes, a sua saborosa crônica”. Octavio Lobo (advogado).

“Que bela e informativa crônica. Só eu passei de magro fumador de cigarro a gordo sem fumar charuto”. Onésimo Almeida (da Universidade de Brown, USA).

 “Magnífico! Sente-se, ao ler seu texto, um desejo quase irredutível e charutar…” Padre Pedro Rubens (Reitor da Universidade Católica).

“Que beleza! Aprendi muito. Sou ex-fumante de cigarro! Deixei há 9 anos”. Paulo Gustavo (escritor).

“JP, a referência ao velho Zé Paulo foi tocante, magnífica. Dele, embora, sem convivência, guardo afetuosa lembrança, seja pela rápida delicadeza entre nós, seja porque, sabia do seu valor, da sua estatura de conhecimento e ético. Remou, torceu pelo Sport e amava a vida. Bastante. Sem precisar detalhe, porque, como dizia Ibrahim Sued, o filósofo da alta classe social e carioca, nos anos 60: Em sociedade tudo se sabe. Com isso, aumentou minha empatia com o velho. O respeito ele sempre teve”. Paulo Henrique Maciel (advogado).

“Tinha uma amiga Suerdieck, recebia caixa de charutos feitos para a família e os fumava, isto durante anos. Talvez, com esse artigo, me convença a voltar a fumar”. Ricardo Essinger (Presidente da FIEPE).

 “Meu avô Raul amava charuto aos domingos e nós, os cinco netos, disputávamos o anel dos Suerdick que ele tragava fazendo rolos de fumaça”. Roberto DaMatta (antropólogo).

 “Amigo, é um privilégio ter o prazer de sua convivência onde degustamos alguns puros. Se você conseguir vencer o vício da abstemia alcoólica era negócio para ser canonizado”. Salmen Giske (construtor).

“Esta resposta precisaria ter sido escrita, mesmo que não fosse resposta a nada”. Silvio Meira (gênio).

“Favor incluir, na relação de charuteiros, Mark Twain”. Sócrates Times Neto (jornalista).

“Concordo, apesar de não poder acompanhar…” (Pe. Theodoro Peters (padre).

“Perdoai-os, eles não sabem o que dizem, tampouco desconhecem o prazer dos charutos. Eu também desconfio, e muito, dos corretos, virtuosos, dos sem-defeitos. Normalmente, essa auto-proclamação serve apenas para encobrir um comportamento reprovável”. Xico Bizerra (letrista genial).

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José Paulo Cavalcanti FilhoÉ advogado e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade. Vive no Recife.
jp@jpc.com.br

 

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