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As quadrilhas do Brasil. Por Edmilson Siqueira

… as quadrilhas, formadas desde o início da história desse país, responsáveis por todas as leis que temos e que lhes garantem a impunidade, estão aí para ficar. Enquanto conseguirem manter a maioria da população entre a miséria e a pobreza, a ignorância e o fanatismo, não há solução para o Brasil…

quadrilhas do Brasil

Quando a segunda turma do STF, comandada por Gilmar Mendes, nomeado pelo PSDB e Ricardo Lewandowski, nomeado pelo PT, decidiu que ia levar adiante a suspeita inventada pelos advogados de Lula de que Sérgio Moro havia sido parcial nos julgamentos da Lava Jato, iniciou-se uma estratégia, muito bem concatenada, entre bancas caríssimas de advocacia, ministros do STF, deputados e senadores com altos cargos, o presidente da República e alguns de seus ministros, a PGR de Aras e a AGU de quem quer que fosse, desde que bolsonarista.

A decisão final, todos sabem, foi a derrota da Lava Jato, a confirmação de que Moro havia sido parcial e a completa absolvição de Lula, pois mesmo com os processos tendo que se iniciar novamente a partir da mesma denúncia, não haveria mais tempo para o devido julgamento. Os crimes todos prescreveriam, como era uma das estratégias da defesa e como se está vendo agora. Lula pode gritar que é inocente de tudo, apesar do caminhão de provas que os membros da Lava Jato conseguiram descobrir, inclusive confissões dos corruptores, devolução de dinheiro roubado (centenas de milhões de reais, diga-se) e depoimentos fartamente comprovados. E com detalhe que faz qualquer cidadão inocente morrer de ódio da inacreditável Justiça brasileira: todos os processos que agora vão para o lixo custaram milhões de reais aos cofres públicos. Os petistas estão rindo à toa, afinal praticar crimes e ser inocentado gastando fortunas do erário é prática comum nas hostes do partido.

Mas, como tudo que acontece de podre na política brasileira, nesse caso também não se trata apenas da absolvição do chefe do maior esquema de corrupção que a História já conheceu. O buraco é muito mais embaixo.

É que a rede de proteção à corrupção ampliou em muito seu alcance. Como há um STF – sua maioria pelo menos – favorável a que muito mais dificuldades sejam interpostas às investigações contra políticos e membros do serviço público, o Congresso Nacional também entrou com sua parte na estratégia, abolindo leis que dificultavam a corrupção e criando mecanismos de proteção que garantem a farta distribuição do dinheiro público sem comprovações de destino ou de despesa.

O atual governo, comandado por um genocida que também é corrupto, entrou na negociação com cargos e emendas. Milhares de cargos e bilhões de reais em emendas. Como a maioria do Congresso está devidamente comprada e vivamente interessada no erário, a coisa ficou mais fácil ainda. Em troca, eles não cassam o genocida de jeito nenhum. Ninguém quer matar a galinha dos ovos de ouro.

Atentos à movimentação das grandes quadrilhas de Brasília, desembargadores de todo o país também estão se aproveitando e pegando carona na farra, pois o salvo-conduto para a impunidade está dado, sacramentado e juramentado pela elite dos poderes do Brasil.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, faz o papel, apenas o papel, de político de bom senso, pois senta sobre os mais de cem pedidos de impeachment de Bolsonaro e se propõe a aprovar reformas que, de reformas mesmo, só têm algumas partes que facilitam o enriquecimento das mesmas famílias que há décadas dominam os mais polpudos holerites governamentais. O resto é mais do mesmo.

O ministro da Economia, em quem um dia se acreditou que fosse liberal, se mostra um populista raiz da pior espécie, lambendo o saco do seu chefe e se expondo ao ridículo quase que diariamente, em redes nacionais, fazendo previsões que já se mostraram inexequíveis alguns dias ou semanas antes. É uma espécie de arauto do passado, de um bardo a incensar um falso mito e a propagar lendas nas quais deve acreditar piamente.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, imbuído também em enterrar a Lava Jato para dar boa vida a si próprio e a quase todos os seus pares, faz de conta que é oposição, mas trabalha para que o Procurador Geral da República – talvez o pior que o Brasil já teve – seja reconduzido ao cargo por mais dois anos, garantindo que nenhum de seus pares será julgado por qualquer “desvio de conduta” que cometa.

Assim, com tudo bem planejado, os senhores de Brasília vão tomando conta do Brasil como um grande negócio, uma gigantesca empresa onde os empregados trabalham, ganham mal e pagam enormes impostos para sustentá-los.

Num país onde políticos se elegem com promessas que sabem que jamais cumprirão, com um povo miserável que vota a troco de metade de uma esmola que tende a mudar de nome a cada novo chefe da quadrilha eleito, onde partidos políticos brotam como erva daninha e, em sua grande maioria, são agremiações em busca dos fundos partidário e eleitoral e estão sempre à venda para partidos mais fortes, não se pode esperar outra coisa a não ser essa festa interminável, já cantada em prosa e verso que, vez ou outra, tem um esbirro de esperança, que logo morre, já que o tesouro público, feito da arrecadação dos impostos que pagamos, existe para poucos usufruírem.

E as quadrilhas, formadas desde o início da história desse país, responsáveis por todas as leis que temos e que lhes garantem a impunidade, estão aí para ficar. Enquanto conseguirem manter a maioria da população entre a miséria e a pobreza, a ignorância e o fanatismo, não há solução para o Brasil. Nosso destino é ser um país do terceiro mundo governado por quadrilhas que só entregarão a rapadura se forem pressionadas por um povo indignado que demonstre sua ira nas ruas, em gigantescas manifestações. Mas não confundam com essa que está sendo programada para 7 de setembro. Essa é para manter o status quo das quadrilhas, inclusive a franquia das rachadinhas da família Bolsonaro.

A verdadeira manifestação do povo indignado com tanta roubalheira e desgoverno acontecerá dia 12 de setembro. Todos lá, caso queiram manter algum lampejo de esperança de um país melhor.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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