The End. Por Edmilson Siqueira

THE END

EDMILSON SIQUEIRA

… ganharam corpo com o discurso de saída de Moro. Ali, alguns crimes dos quais se desconfiava, ganhou corpo e prova robusta. Moro disse que Bolsonaro queria interferir politicamente na Polícia Federal, que ele queria um superintendente com o qual não só pudesse conversar sobre os inquéritos, como queria mesmo ter acesso a esses inquéritos. São denúncias gravíssimas…

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Acabou o governo Bolsonaro como conhecíamos ou pensávamos conhecer: um governo meio complicado, mas com alguns bons ministros fazendo seus trabalhos e tentando não só combater a corrupção e suplantar a crise pandêmica atual, mas também pensando no futuro, com uma economia mais organizada, mais liberal, com leis melhores que garantam empregos e investimentos. Enfim, um país integrado ao mundo moderno e galopando no desenvolvimento. Era o que queríamos.

Mas, o que resta a Bolsonaro depois de demitir Mandetta, de ir na contramão do mundo no combate ao coronavírus, de desgastar seu ministro da Economia com um plano totalmente antagônico ao discurso e prática liberal de Paulo Guedes e de cometer o crime de aparelhar a Polícia Federal causando a saída de seu mais popular ministro e com excelente trabalho, o ex-juiz Sérgio Moro? Resta muito pouco, e o pouco que resta é muito ruim.

Não fosse esse vazio de qualidade que ora se escancara, Bolsonaro corre em direção ao que há de pior na política brasileira: um grupo de deputados e senadores que formam, à sombra do poder, um partido paralelo, cujo programa abarca poucos itens, entre os quais participar do governo (qualquer governo), ganhar ministérios (qualquer ministério, desde que tenha bom orçamento e muitos cargos), praticar a corrupção costumeira e votar cegamente a favor de tudo que o governo quiser. São muitos os integrantes desse “partido”, a ponto de poder oferecer maioria na Câmara e no Senado. O compadrio com esse grupo, porém, tem um preço, além daquele mar de dinheiro que desaparece dos orçamentos ministeriais sem que sua finalidade seja cumprida: os governos apoiados pelo centrão são muito ruins. Com exceção do primeiro governo Lula, que comprou o centrão ao mesmo tempo em que nadava em dinheiro proveniente de um mundo comprador das commodities brasileiras, o resto foi péssimo.

Mas a quadra atual, onde Bolsonaro fez o inacreditável, multiplicando várias vezes a encrenca que é enfrentar uma pandemia sem ter uma infraestrutura de atendimento hospitalar competente para tanto, pode piorar a ponto de, hoje, as apostas cravarem mais um fim antecipado do governo do que sua total perda de qualidade.

Animated The End GIFs | TenorPor essas e outras – muitas outras, aliás – as apostas num fim precoce desse governo parecem estar mais perto de ganhar a bolada, do que aquela que apostam apenas num péssimo governo daqui pra frente. Reeleição? As casas de apostas não abriram essa possibilidade, pelo simples fato de não ter viva alma que queira apostar nela.

A possibilidade de um impeachment ganhou corpo com o discurso de saída de Moro. Ali, alguns crimes dos quais se desconfiava, ganhou corpo e prova robusta. Moro disse que Bolsonaro queria interferir politicamente na Polícia Federal, que ele queria um superintendente com o qual não só pudesse conversar sobre os inquéritos, como queria mesmo ter acesso a esses inquéritos. São denúncias gravíssimas, já que não cabe a um presidente da República bisbilhotar inquéritos, nos quais seus amigos e sua própria família podem estar (e estão) envolvidos. Mas tem mais um crime ainda, esse de falsidade ideológica. A exoneração de Aleixo, no Diário Oficial foi publicada como se tivesse sido “a pedido” e com o nome também de Moro, como se ele e o presidente estivessem atestando o ato. Moro disse que Aleixo não pediu demissão e que ele, Moro, não assinou nada, pelo contrário, foi surpreendido com a publicação.

Algumas horas depois do discurso começaram a surgir pedidos de impeachment de deputados de vários partidos. Mesmo antes de Moro se despedir, a Associação Brasileira de Imprensa já havia feito o dela, alegando que Bolsonaro coloca em risco a saúde pública ao não cumprir o que mandam as autoridades sanitárias no combate ao coronavírus e, além disso, incentivar a desobediência a esses comportamentos necessários para enfrentar a pandemia. Detalhe: a ABI inaugurou a era moderna de impeachments no Brasil ao ser a signatária do pedido contra Fernando Collor de Mello.

Assim, sejam lá quais forem os novos nomes que comporão o Ministério que era ocupado por Moro, é fato que ele não terá independência para agir, não poderá avançar com investigações que se aproximem do mito e seus “mitinhos” e terá de apoiar publicamente o presidente em tudo que ele fizer de certo (coisa rara) e de errado (o que é comum). E com um complicador a mais: muitos dos seus novos amigos do centrão têm rabos presos na Lava Jato e outras investigações, muitas delas ainda dependentes da atuação da PF.

Por essas e outras – muitas outras, aliás – as apostas num fim precoce desse governo parecem estar mais perto de ganhar a bolada, do que aquela que apostam apenas num péssimo governo daqui pra frente. Reeleição? As casas de apostas não abriram essa possibilidade, pelo simples fato de não ter viva alma que queira apostar nela.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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