absurdos

No país dos absurdos. Por Edmilson Siqueira

NO PAÍS DOS ABSURDOS

EDMILSON SIQUEIRA

… estamos caminhando para que todos os absurdos que ocorrerem na política brasileira não mais espantarão pelo ineditismo. Será mais um político que fez aquilo que outro ou outros já tinham feito. E assim vamos caminhando para bater todos os recordes do absurdo na política…

 

Em se tratando de política brasileira não há limites. Há uma frase que já deve ter sido modificada mil vezes por aí, mas que na essência diz que qualquer coisa absurda que aconteça no Brasil, procure na Bahia (ou em Minas, depende de quem usa a frase) que encontrará antecedente. A frase pode ser injusta com o estado citado, mas estamos caminhando para que todos os absurdos que ocorrerem na política brasileira não mais espantarão pelo ineditismo. Será mais um político que fez aquilo que outro ou outros já tinham feito. E assim vamos caminhando para bater todos os recordes do absurdo na política.

Se já não bastasse um assessor de um deputado pernambucano ser flagrado, em 2005, com cem mil dólares na cueca, fato esse que foi seguido de outros absurdos, pois nem o assessor nem o deputado foram punidos e a origem do dinheiro também não foi explicada até hoje, agora aparece um senador da República, vice-líder do governo, pego numa operação da Polícia Federal com a cueca cheia de dinheiro sujo. Sujo, no caso, com sentido duplamente qualificado, se é que me entendem.

Aí vem o presidente da República e diz que no governo dele não tem corrupção, embora em menos de dois anos, já ululem fatos de sobra sobre malversação do erário, tanto nos arredores da cadeira presidencial, quanto na intimidade da família Bolsonaro.

Hoje mesmo, sexta-feira, a Revista Crusoé – em mais um dos vários “furos de reportagem” que vem publicando há meses e se tornando o mais importante veículo da imprensa política brasileira – mostrou que a relação de Fabrício Queiroz com os Bolsonaros começou bem antes da data que as investigações alcançaram. Ou seja, são amigos do peito há quase 20 anos, desde o primeiro mandato do filho 01 na Assembleia do Rio de Janeiro. E Queiroz, à época, já estava implicado em processo de homicídio, ao lado do “parça” Adriano da Nóbrega, que mais tarde viria a ser um dos mais violentos chefes de milícia do Rio, liderando um tal de “escritório do crime” especializado, entre outras coisas, a assassinar por encomenda, até ser morto na Bahia pela PM, ao resistir à prisão. Como se vê, corrupção e outras mazelas, sempre fizeram parte da família Bolsonaro.

Para continuar no campo dos absurdos, quando veio a público o dinheiro sujo do senador do DEM, vice-líder do governo, seu pares mais chegados e que consideram nada de mais ter algumas centenas de milhares de reais dentro de casa, se calaram. Alguns chegaram ao absurdo de questionar a guarda do dinheiro da na cueca . “logo ele, tão experiente…”. Os que se indignaram com o fato e condenaram o senador pego em flagrante delito foram poucos. Mas foi só o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, determinar o óbvio afastamento do senador apanhado com as cuecas recheadas de notas de cem reais, para que o grupo  de senadores, talvez tão safados quanto o encuecado, saíssem em sua defesa, dizendo ser “um absurdo um ministro afastar um senador numa decisão monocrática, que o Senado é soberano e ele é quem decide que deve ou não continuar exercendo suas nobres funções para as quais foi eleito pelo povo…”

Como se vê, são as bobagens de sempre em defesa de um colega descaradamente corrupto e da corrupção em geral. E isso, embora se constitua um absurdo, não é inédito. Em governo recentes assistimos a infindáveis desfiles de desculpas esfarrapadas para flagrantes delitos, sem contar a descoberta não de uma cueca, de uma mochila ou de uma única mala recheada de notas de reais, dólares e euros (as três preferidas da bandidagem com mandato), mas sim de um apartamento inteiro servindo de cofre a nada menos que 51 milhões de reais guardados em mais de uma dezena de malas e caixas. A descoberta do apartamento recheado foi em setembro de 2017. Os acusados pelos crimes foram condenados em 2019, mas, por mais absurdo que pareça, ainda estão soltos aguardando julgamento da fieira de recursos que a bondosa Justiça brasileiro oferece a todos os facínoras ricos que podem pagar caros advogados com o dinheiro fruto da corrupção. Já se tentou proibir que advogados sejam pagos com dinheiro da corrupção, mas a OAB e outras entidades ligadas à advocacia, por mais absurdo que pareça, berraram muito por aí e os políticos, que seriam prejudicados com a medida, não a aprovaram, claro.

… E assim, de absurdo em absurdo, os políticos brasileiros vão destruindo toda e qualquer esperança de que esse país saia da encalacrada situação a que chegou, por obra e graça dos políticos eleitos pelo povo que, ao invés de se tornarem empregados desse povo que o elegeu, passam a ser seus carrascos.

No país dos absurdos há, por exemplo, uma empresa estatal que foi criada para administrar a implantação de um trem-bala. Os petistas criaram a estatal para o trem, mas não conseguiram fazer o trem. Ora, se não tem trem, não pode continuar existindo uma empresa criada para administrar a implantação do trem. Mas estamos no Brasil e a empresa já tinha centenas de apaniguados dos políticos nela empregados, mamando o erário, que é o que eles mais sabem fazer. Constatado o “elevado serviço social” que a empresa do trem que não existe prestava à “comunidade” (comunidade lá das negas deles, bem entendido), ela continuou existindo, sem qualquer objeto ou objetivo, sem qualquer produto ou produção. E custando alguns bilhões de reais por ano, por mais absurdo etc. e tal…

Só que a história não acaba aí. Tem mais absurdos…

Veio o governo-tampão de Temer e ele, fiel a quem lhe sustentou nos anos anteriores (o PT), manteve a empresa do trem agora já considerada totalmente fantasma. E quem substituiu Temer foi um candidato que não só esbraveja contra a corrupção, como prometera acabar com as estatais todas. Ora, se prometera acabar com estatais que, embora deem prejuízo, produzem alguma coisa, imaginem o que aconteceria com uma estatal que nada produz e nem tem objetivo algum. Pois no país dos absurdos, a estatal não só continuou existindo e nenhuma das outras, até praticamente dois anos de mandato, foi extinta ou vendida. Ensaia-se uma tímida desestatização dos Correios, para o ano que vem, se os absurdos do país dos absurdos não suplantarem, como têm suplantado até aqui, a lógica e o bom senso.

É isso mesmo: a existência de funcionários fantasmas que já é um absurdo, ganhou um novo patamar no Brasil. Temos sim uma empresa inteirinha fantasma, cheia de funcionários fantasmas para cuidar de um trem idem, que jamais saiu e nem vai sair na próxima década do papel.

E assim, de absurdo em absurdo, os políticos brasileiros vão destruindo toda e qualquer esperança de que esse país saia da encalacrada situação a que chegou, por obra e graça dos políticos eleitos pelo povo que, ao invés de se tornarem empregados desse povo que o elegeu, passam a ser seus carrascos.

Estamos em plena campanha eleitoral para prefeitos e vereadores. Eu ia dizer que se trata de mais uma chance para votarmos em cidadãos honestos e interessados em melhorar de fato o país, mas acabei de ouvir o horário eleitoral obrigatório no rádio (outro absurdo) e cheguei à triste e realista conclusão: não há qualquer esperança de melhorar.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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