1ª Eleição, 1º Mesário. Blog do Mário Marinho

1ª ELEIÇÃO, 1º MESÁRIO

BLOG DO MÁRIO MARINHO

How Much Would You Pay to Vote? - Lara-Murphy Reporting

Eu tinha 18 anos quando votei pela primeira vez, no dia 7 de outubro de 1962.

Naquela época, ir votar era mais ou menos como ir à missa aos domingos: vestia-se a melhor roupa, chamada roupa de ver Deus.

Fui votar na Escola Municipal Cornélio Vaz de Melo que ficava na rua Leopoldina de Oliveira, esquina de Pororocas, no bairro Aparecida, BH, que ficava, mais ou menos, a um quilômetro de distância de minha casa.

Não era distância muito grande mas, entre os dois endereços, havia subidas e descidas bastante acentuadas.

Some-se a isso, que eu estava com roupa de ver Deus, conforme o costume.

Mais ainda.

Eu havia sido convocado para trabalhar naquela eleição.

Motivo de orgulho. Para o meu pai, maior orgulho ainda.

– Você tem que ir de gravata.

O pai mandava e você obedecia. Simples assim.

Aliás, na véspera da eleição, meu pai reuniu o colégio eleitoral familiar, composto por ele, minha mãe Celina, meu irmão Márcio e por mim. Na reunião, dividimos os votos e especificamos quem votava em quem.

Lá fui eu para o local de voto e trabalho.

Lá chegando, constatei que de terno e gravata só o presidente da Seção Eleitoral e eu. Talvez, até por solidariedade, ele me nomeou secretário. Cabendo a mim a função de substituí-lo se necessário fosse e escrever a ata ao final dos trabalhos.

No ano seguinte, no dia 6 de janeiro de 1963, lá estava eu novamente, com a mesma turma, trabalhando no referendo que foi convocado para que o povo decidisse sobre o regime de governo: parlamentarismo ou presidencialismo.

Foi um dia de trabalho fácil, já que era apenas para responder sim ou não. O “não” ao parlamentarismo que vigorava desde a renúncia do Jânio Quadros venceu com mais de 80% da preferência.

Eu novamente de paletó e gravata.

Muitos anos depois, conversando com uma jornalista, mais ou menos de minha idade, falei sobre a questão da roupa de ver Deus.

E ela me contou um episódio bem marcante.

Mais ou menos naquela época, ela foi fazer sua primeira viagem de avião: Porto Alegre, onde morava, para o Rio de Janeiro.

O pai dela era um orgulhoso comandante da Varig.

Para quem não se lembra ou não sabe, a Varig era uma empresa aérea brasileira muito conceituada. Seu serviço de bordo, principalmente nos voos internacionais, era de provocar inveja a muitas companhias aéreas estrangeiras.

Quando ela foi, alegremente despedir do papai, ouviu a pergunta:

– Onde você vai?

– Ora, pai, eu vou para o Rio.

– Você vai de avião?

– Sim pai, o senhor sabe.

– Vai pela Varig.

– Sim, pai.

– Com essa roupa?

– O que tem a minha roupa, pai?

– Isso não é roupa de viajar de avião e muito menos pela Varig.

A minha amiga estava de calça jeans. Aquela não era roupa de viajar de avião, segundo o Senhor Comandante que vinha a ser o Senhor seu Pai.

Ela teve que trocar de roupa.

Eu continuei trabalhando até 1968, inclusive, quando me mudei para São Paulo.

Naquela época, o trabalho começava às 8 e ia até às 17 horas. Eram 200 eleitores por seção. E uma fila que não acabava nunca. Ou quase nunca.

O eleitor tinha que escrever o nome do candidato na cédula (analfabetos não votavam). E isso, muitas vezes era um grande problema.

Lembro-me que uma senhora entrou na cabine de pano azul que era chamada e Cabine Indevassável e de lá não saía.

O presidente, respeitosamente, se aproximou da Cabine Indevassável e perguntou se havia algum problema.

A senhora, muito tímida e sem graça, saiu da cabine e explicou:

– Moço, eu quero votar no Doutor Amintas de Barros. O doutor até que eu escrevi, mas, o Amintas eu não consigo. O Senhor pode me ajudar?

O presidente explicou que ele não podia ajudar.

A mulher insistiu, pediu pelo amor de Deus, que não poderia sair sem votar no doutor Amintas…

Falamos com o presidente que, por força do cargo, ele tinha autoridade para ajudar a pobre senhora.

O presidente seguia a lei e foi inflexível. Por fim, a pobre senhora se deu por vencida e foi embora, mas deixou no ar uma ameaça:

– Se o doutor Amintas perder a eleição por causa desse voto, a sua alma vai penar pelo resto da vida.

Amintas de Barros, ex-prefeito de BH, foi eleito deputado federal com folga.

Outra vez, uma mocinha bonitinha, tímida, magrinha, parou à porta da seção e me chamou.

– Mario Lúcio, Você pode me passar na frente dessa fila, né?

Só então eu reconheci, a Maria, filha do sô Dico, uma ex-namoradinha. Ela continuava magrinha, bonitinha, delicada.

– Puxa, eu sinto muito. Mas, eu não posso passar você na frente de ninguém.

– Mário Lúcio, mas eu estou grávida. Grávida não pode passar na frente?

Minha ex-namoradinha estava grávida! Tão magrinha que nem aparecia a barriga.

– Claro, Maria, pode sim.

E eu achando que ela estava querendo explorar o namorado. Cara pretensioso…

Lembrei-me dessa época ao exercer o meu direito de voto nesse domingo. Não havia ninguém vestido com roupa de ver Deus, muito menos de paletó e gravata.

A começar por mim que estava de bermuda.

Não era roupa de votar. E muito menos de viajar pela Varig.

 

votação no rio de janeiro

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
 NOVIDADE OU COISA BOA DE COMENTAR)

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