eleições - 1989

Contra o cenário imposto das eleições. Desde 1989. Por Emmanuel Publio Dias

… A legítima mobilização por quaisquer outras candidaturas que não as do cenário “definitivo” são desqualificadas como sendo a “terceira via”, acrescida da ameaça de que irá favorecer a candidatura rejeitada do “Outro” (dependendo de quem você não quer que seja eleito). Tanto Lula quanto Bolsonaro sabem que dependem do outro para viabilizar suas campanhas, principalmente no segundo turno…

corrupção

A escolha de um candidato à Presidência fora do roteiro sempre proposto como “definitivo” e também, sempre rejeitado por boa parte (às vezes maioria) dos eleitores, tem sido uma persistente busca dos brasileiros, à esquerda e à direita, desde as primeiras eleições livres para presidente, em 1989.

Neste ano, 22 candidatos se apresentaram. Nomes como Ulysses Guimarães, Mario Covas, Paulo Maluf, Afif Domingos, Aureliano Chaves e Ronaldo Caiado, além de Fernando Collor que, afinal, iria para o segundo turno. Lula, à frente do PT, pela primeira vez competitivo, além de outros candidatos à esquerda, onde se destacavam Leonel Brizola, Fernando Gabeira, Roberto Freire.

Neste ano, em outubro, o apresentador Silvio Santos oficializou sua candidatura e, em menos de um mês, as pesquisas o apontavam na liderança, superando o dilema rejeitado pelos eleitores e até então considerado intransponível: Collor x Lula. A poucos dias das eleições, o TSE impugnou a candidatura de Silvio Santos. Não demorou muito, cresceram as candidaturas de Leonel Brizola e Mario Covas, do outro lado do espectro político de Sílvio Santos, deixando claro o repúdio de importante parcela do eleitorado à opção Collor e Lula, que iria para o segundo turno, com apenas 454 mil votos (0,65%) à frente de Brizola.

Obrigados a decidir no segundo turno entre o ainda não digerido líder metalúrgico e o queridinho da mídia, os brasileiros deram a vitória a Collor, por uma diferença de 4 milhões de votos. Mas atenção, seus votos representariam apenas 42% do eleitorado apto a votar na época. Resultado minoritário, que irá se repetir nas eleições subsequentes, sempre que uma parte do eleitorado não encontra razões para votar nos dois principais candidatos rejeitados.

A partir dos anos 90, inicia-se o período de polarização, onde o PSDB venceria com facilidade os pleitos de 94 e 98 e, na sequência, o PT também com facilidade, em 2002, 2006, 2010 e (com alguma dificuldade) 2014.

Assim mesmo, alguns fenômenos merecem registro. Em 2001, o PFL testou Roseana Sarney, que passou a disputar com Lula a liderança das pesquisas (em fevereiro de 2002, empatou na margem de erro com o petista; Roseana era a única candidata a derrotar Lula na prévia de 2º turno). Na sequência, uma descoberta de dinheiro vivo no escritório de seu marido em São Luiz foi amplamente divulgada nos telejornais e ela terminaria por retirar sua candidatura.  O que acontece depois é curioso: em vez dos eleitores de Roseana convergirem seus votos para a candidatura Serra, quem cresce é Ciro Gomes, que chegou a alcançar 29% das intenções de votos em agosto, contra 34% de Lula, enquanto Aécio afundava para 12% (Instituto Vox Populi -agosto/2002). O candidato do PDT, entretanto, não soube manter os votos que conquistou, permitindo que Serra se recuperasse e fosse para o segundo turno, derrotado por Lula, por larga margem.

Em 2009, Dilma Rousseff foi indicada para concorrer pelo PT. Rapidamente assumiu a liderança das pesquisas e com a mesma rapidez, a perdeu, não apenas para o candidato do PSDB (José Serra), como para as intenções de voto brancos/nulos/indecisos. À medida em que a campanha crescia, já em 2010, ficavam nítidos os indícios de que, de novo, os eleitores estavam sendo obrigados a escolher um “adversário para o PT” e não necessariamente o candidato dos seus sonhos. Nos últimos meses de campanha, as pesquisas de intenção de voto mostrariam que Serra não era esse candidato. Ele cairia do patamar de 35 para 25% das intenções de voto. Enquanto isso, uma desconhecida senadora do Acre, ascendia para conquistar o terceiro posto no primeiro turno, com 20 milhões de votos (19,3%). Marina Silva representava principalmente eleitores que repudiavam o cenário “definitivo”. Nesta eleição, já ficou claro que, uma outra proposta, que não a tradicional PT x PSDB, poderia ter sucesso.

Essa percepção da força de Marina como opção ao cenário “definitivo”, ou melhor, a força de uma candidata de fora deste cenário, ficou absolutamente clara nas eleições de 2014. Até sua morte, Eduardo Campos (PSB) disputava com Aécio Neves, em vários cenários, a segunda indicação para o 2º turno. Ao assumir o lugar de Eduardo, Marina dispara para o patamar de 34% das intenções de votos, distante de Aécio e muito próxima à candidata do PT (Dilma), que percebe o risco de enfrentar uma candidatura fora do cenário que lhe era mais confortável e atacou duramente a antiga aliada na propaganda eleitoral. Deu certo (para o PT), Marina perdeu eleitores nas últimas semanas e Aécio arrastou-se para o segundo turno, onde perderia para Dilma Rousseff. Marina, novamente fez mais de 22 milhões de votos, desta vez atingindo 21,3% dos votos do primeiro turno. Dilma elegeu-se com pouco mais de 1/3 (34%) dos eleitores registrados naquele ano.

Nas eleições de 2018, mais uma vez, vários nomes se apresentaram ou foram levantados pela imprensa, destacando-se Joaquim Barbosa e Luciano Hulk, que chegaram perto dos 10% de intenções de voto e Sérgio Moro, que atingiu 14%, em junho de 2017, os 3 sem sequer oficializarem uma candidatura.

A campanha foi dominada pela disputa Lula e Bolsonaro que, até o incidente da facada não conseguia se descolar do patamar dos 20%. A partir daí (e com a entrada de Fernando Haddad no lugar de Lula), Bolsonaro cresceria nas pesquisas, vencendo o primeiro turno com 46 milhões de votos. Em segundo lugar, não foi o candidato do PT, mas, de novo, os brasileiros que não foram votar, ou votaram em branco/nulo (expressivos 40 milhões de eleitores). A rejeição pela ausência ou voto branco/nulo se repetirá no 2º turno, quando Bolsonaro se tornou presidente com apenas 38,7% dos votos disponíveis.

Em 2018, o eleitor brasileiro buscou caminhos para se libertar da disputa PT x PSDB, inicialmente descartando o candidato Alkmin e mantendo suas esperanças em Marina Silva, que chegou a ficar à frente de Lula nas pesquisas (em 2016), mantendo-se num patamar de 10/15%, até que Bolsonaro viabilizou-se como o candidato anti-PT. Marina terminaria o primeiro turno com 1% dos votos (comprovando que os 20 milhões de votos não eram dela, mas de repudio ao cenário definitivo), ao tempo em que Ciro Gomes, em pouco mais de dois meses, cresceria de 5 para os 12,5% que obteve no primeiro turno.

As pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2022 repetem que os eleitores continuam rejeitando o cenário que lhes é imposto. Lula e Bolsonaro têm os maiores índices de rejeição absoluta em todas as pesquisas, sendo que o presidente acumula os maiores números, tanto de rejeição quanto de avaliação/aprovação negativa de seu governo. Dada a rejeição de ambos e os números ainda tímidos dos outros candidatos, impõe-se mais uma vez o cenário “definitivo”. Tenta-se cooptar a maioria dos eleitores que rejeita um ou outro candidato, para o fato de que não há saída, fora deste cenário e que, portanto, a única forma de evitar “Este” é votar no “Outro”. Exatamente como vem acontecendo desde o embate Collor x Lula de 1989.

A legítima mobilização por quaisquer outras candidaturas que não as do cenário “definitivo” são desqualificadas como sendo a “terceira via”, acrescida da ameaça de que irá favorecer a candidatura rejeitada do “Outro” (dependendo de quem você não quer que seja eleito). Tanto Lula quanto Bolsonaro sabem que dependem do outro para viabilizar suas campanhas, principalmente no segundo turno. Sabem que a soma dos votos dados ao seu oponente mais os eleitores que já rejeitavam suas candidaturas os levará a uma previsível derrota (não importa quem seja o adversário. Perde no segundo turno).

As pesquisas realizadas agora, a um ano das eleições de 2022, não permitem a consagração de nenhum cenário “definitivo”, bem ao contrário: mostram que o eleitorado rejeita, majoritariamente, as duas candidaturas (quando sobrepostos os dois índices de rejeição) e que espera ainda poder optar por outros nomes.

O principal é que, fora as duas candidaturas de maior recall, o quadro de opções que é apresentado ao eleitor sugere nomes de que muito pouco ou quase nada ouviram falar.

Neste momento, metade dos entrevistados não consegue se lembrar ou decidir por um nome espontaneamente. Sem as menções a Lula e Bolsonaro, nenhum candidato é citado espontaneamente por mais de 3% dos entrevistados em todos os segmentos, exceto entre os eleitores de educação superior, onde Ciro tem 5%. Ou seja, fora do cenário “definitivo” (Lula e Bolsonaro), nenhum candidato sequer consegue ser lembrado pelos eleitores.

Pesquisa conduzida pelo Instituto IPEC em julho deste ano, mediu o grau de conhecimento dos candidatos pelos eleitores. “Não conhecem suficientemente” Ciro Gomes (20%); João Dória (25%); Mandetta (37%). Outro instituto, Quaest, registrou na mesma época (julho/21) que, de Tasso Jeireissati, Rodrigo Pacheco, Eduardo Leite, mais de 80% dos eleitores apenas “ouviram falar” e mais de 60% “nunca ouviram falar”, exceto Mandetta, com 39%.

Em simulações de 2º turno realizadas pelos institutos, todos estes candidatos desconhecidos dos eleitores alcançam expressivos números de intenções de voto, acima dos 30%. O que quer dizer que estes eleitores, em sua maioria, conhecem apenas Lula e Bolsonaro. Todos os outros lhes são desconhecidos, o que não os impede de registrar uma forte intenção de voto em qualquer deles, contra os dois. Na pesquisa Quaest, respondendo à questão “Quem você prefere que vença?”. Lula e Bolsonaro obtiveram menções iguais às mencionadas na pergunta de intenção de voto (41 a 24%). A opção “Nem Bolsonaro, nem Lula” alcançou 31% de menções!

Mais uma vez, os brasileiros clamam por votar fora dos limites em que foram aprisionados. A rejeição aos dois candidatos melhores colocados é estatisticamente consistente, ambos não representam e não representariam uma vontade verdadeiramente majoritária dos eleitores, caso a evolução do processo político lhes ofereça um caminho mais autêntico.

O bom é que há tempo para isso, em que pesem as manobras dos dois candidatos-líderes, pela certeza que têm, de que sua única chance de vitória, consiste na manutenção da candidatura do outro.

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“Emmanuel Publio Dias” Emmanuel Publio Dias, especialista em marketing político, professor da ESPM.

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