genocídio

O genocídio como parte do projeto ou É hora de já ir. Por Alexandre H. Santos

                  O GENOCÍDIO COMO PARTE DO PROJETO

ou

É HORA DE JÁ IR

ALEXANDRE HENRIQUE SANTOS

… A profunda gravidade do agora exige de todos os que se opõem ao genocídio, ignorância e devaneios autoritários, a coragem de preterir picuinhas, prejulgamentos e divergências. Coragem de superar tudo o que possa nos atritar e nos afastar…

Cena do filme The Painted Bird, dirigido por Václav Marhoul
Temos de deixar de ser um país de maricas.”

Presidente Bolsonaro

 

Semana passada (24/03/21) Ângela Merkel fez um importante pronunciamento, divulgado com destaque na imprensa internacional. A líder reconheceu um erro cometido, chamou para si 100% da responsabilidade pelo ocorrido e pediu desculpas à nação alemã. Ora, esperar que o presidente Bolsonaro faça algo parecido por aqui é como querer que goiabeira dê cachos de uva. Isso não vai acontecer. Mesmo descartada veremos que essa hipótese tem muito a nos ensinar.

Certamente você já ouviu o provérbio “à mulher de César não basta ser honesta, ela precisa parecer honesta”. Se isso vale para a mulher do Imperador, que dizer do próprio Imperador? O indivíduo que se propõe a conduzir um país e não tem a humildade de reconhecer suas falhas, não apenas não está à altura do cargo que ocupa; mas põe em risco o próprio país – já que coloca sua boçal vaidade acima de 300 mil mortos. É justo, porém, começarmos por reconhecer que se ele chegou lá, foi porque 57 milhões de brasileiros o conduziram até lá. Erros se cometem.

Logo nas primeiras semanas de 2019 ficou claríssimo que o personagem obscuro elevado às luzes da ribalta não iria surpreender. Ao contrário, permaneceria o que sempre tinha sido – Jair levou para o Alvorada a mentalidade e as práticas do baixo clero.

Outra vez: goiabeira não dá cachos de uva. Observando o histórico das pesquisas de opinião desde a data da posse até hoje, fica patente que os brasileiros, paulatinamente, viemos despertando para o que até as pedras já sabem: Jair é o homem errado, no lugar errado, na hora errada. As evidências de incompetência se somam, fartas e diversas, mas o ápice foi e tem sido a negligência completa e total com o Covid-19. A humanidade acompanha aterrorizada o calvário das famílias brasileiras. O “país de maricas” paga agora a fatura do negacionismo presidencial descartando três mil vidas diárias.

A aritmética da caserna é curta e grossa: “maior o posto, maior a responsabilidade”. Outros preferirão a palavra culpa. A letargia de Bolsonaro se destaca, mas contou com a conivência dos outros Poderes da República, das Forças Armadas e da sociedade civil. São variados e poderosos os cúmplices do cenário de terra arrasada que nosso país mostra hoje ao mundo. A lista dos inertes começa com os financiadores do Poder – banqueiros, industriais e empresários, inclui artistas, intelectuais, cientistas e chega até o cidadão comum, como eu, você, o pipoqueiro da esquina e o desempregado. Porém, uma vez reconhecido nosso erro, que tenhamos a grandeza de Ângela Merkel; sejamos capazes de reconhecer o equívoco e tenhamos a valentia de mudar. No ponto extremo dessa tragédia brasileira quem se cala é cúmplice do genocídio.

Dói reconhecer o quanto essa pandemia escancarou nosso lado mais rasteiro. Em nenhum país o colapso sanitário foi capaz de romper a cadeia dos interesses egoístas e da corrupção. Nas profundezas todos somos muito parecidos. Aqui, o Brasil profundo não está só nos cafundós perdidos nas entranhas do país. Está nas avenidas Vieira Souto e Faria Lima. O Brasil profundo está em cada um de nós. Pois só um olhar distorcido e mesquinho aceita passivamente a falaciosa oposição entre saúde e economia. “O que dói não é o curativo; é o machucado. Medidas de segurança não prejudicam a economia. A pandemia prejudica a economia.”

A primeira vez que visitei o mais temido campo de concentração nazista, Auschwitz, na Polônia, foi em 1980. Lá vi tapetes tecidos com o cabelo das mulheres judias e ciganas. Engoli seco e senti o estômago revirar.  Mas só desfiz por completo minha ilusão sobre os limites da maldade humana ao ver o abajur feito com a pele de um ser como eu…

Lendo a reveladora biografia do falso Messias, fui levado a crer que sua olímpica passividade diante da pandemia é proposital e responde à estratégia do “quanto pior, melhor”. Explico: as situações complementares de caos sanitário e crise socioeconômica compõem a tempestade perfeita. Ou seja, a precondição para que se possa propor e instaurar um regime de exceção – o sonho de consumo da Famiglia Bolsonaro.Foi a resistência do Ministro da Defesa, General Fernando Azevedo e Silva, de envolver as Forças Armadas numa aventura insana e golpista, o que levou à demissão coletiva dos Ministros da Marinha, Aeronáutica e Exército, anteontem (29/03/21), gerando mais uma crise institucional!

Quem analisou com acuidade a convocação do Presidente de líderes e notáveis para lutar juntos contra a Covid-19, notou os elementos de um jogo de cena; além do que a iniciativa chegou com um ano de atraso. Não sejamos ingênuos; nenhuma solução para os nossos urgentes problemas virá do capitão. Ele não está interessado nisso; e nem teria inteligência emocional para liderar tamanha empreitada. Somos nós os que precisamos de nós.

A profunda gravidade do agora exige de todos os que se opõem ao genocídio, ignorância e devaneios autoritários, a coragem de preterir picuinhas, prejulgamentos e divergências. Coragem de superar tudo o que possa nos atritar e nos afastar.

É tarde, sim. Mas antes tarde do que nunca: os progressistas brasileiros precisamos nos unir. Isso é missão para já. Ninguém que tenha fé democrática deve ficar de fora desse arco de resistência ao fascismo. Apenas unidos conseguiremos nos levantar desse berço esplêndido que tem hoje o formato de uma cova.

Parodiando o velho e sábio provérbio africano: quando a tribo se une, o leão vai dormir com fome!

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Foto: @catherinekrulik

*Alexandre Henrique Santos – Atua há mais de 30 anos na área do desenvolvimento humano em e para grandes corporações.  É terapeuta e coach. Mora em Madri e realiza workshops presenciais e à distância. É meditante, vegano, ecologista. Publicou O Poder de uma Boa Conversa e Planejamento Pessoal, ambos editados pela Vozes..

Contato: alex@ndre.com.br

2 thoughts on “O genocídio como parte do projeto ou É hora de já ir. Por Alexandre H. Santos

  1. Meu querido amigo, suas palavras sábias e sempre bem colocadas me fazem pensar e chorar pelos meus filhos, minha família e por todos os brasileiros. Como diria o vovô, estamos num mato sem cachorro…, e a qualquer hora, por mais preparados que estivermos poderemos ser sempre surpreendidos. Fique com Deus.

  2. Muito bom texto.
    Não me considero progressista. Sou mais republicana, o que não significa que eu seja a favor dos desmandos do atual governo – mesmo porque o atual presidente se apropriou de valores caros aos republicanos para construir um Frankstein, deu-lhe o nome que bem quis, e se autointitulou de republicano. Mentira!
    Bolsonaro é republicano tanto quanto Lula é progressista.
    Ambos são, na verdade, dois arrivistas espertalhões, faces de uma mesma moedinha falsa de três reais – e se merecem, assim como seus respectivos seguidores.
    E nas próximas eleições, caso não apareça uma luz no final do túnel, a contenda será entre seis e meia dúzia.

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