sexta-feira da paixão

Sexta-Feira da Paixão. Blog do Mário Marinho

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

BLOG DO MÁRIO MARINHO

sexta-feira da paixão

Dia de reflexão, dia de silêncio, dia de respeito.

Pelo menos era assim, há algumas décadas.

Menino ainda, levantava cedo pronto para um dia agitado, mas com todo respeito.

O silêncio da casa era quebrado pelo som da música clássica que tocava no rádio. Em nome do respeito, as emissoras de rádio só tocavam música clássica.

Após o café, começavam se os preparativos da Sexta-Feira da Paixão: era preciso enfeitar as ruas, fazer os arcos com bambu, colar bandeirolas, colocar flores – enfim, enfeitar a rua para a passagem da esperada e sacra Procissão da Paixão.

Em minhas primeiras lembranças da Sexta Feira Santa, lembro-me de ter acompanhado a Procissão com o meu saudoso pai, Paulo Marinho. A Procissão saía da Igreja do Senhor Bom Jesus, percorria um longo trajeto cruzando os bairros do Santo André, Vila Nova Esperança, Aparecida, Parque Riachuelo até chegar de novo à Praça Senhor Bom Jesus, onde tudo começara.

O caminho era longo, todo enfeitado e reinava absoluto respeito.

Agora, já com meus 10-11 anos de idade, iria participar com os adultos do enfeite da rua.

Os homens cuidavam da rua; as mulheres, dos enfeites, do grude, das bandeirolas.

Nós, os homens, subimos na carroceria do caminhão (não me lembro quem era o dono) e nos mandamos para os lados do bairro São Francisco para cortar os bambus.

Duas horas depois já estávamos de volta.

O esforço era compensado com um bom café com leite acompanhado de biscoitos.

Toca a furar os buracos de um lado e de outro da rua, onde seria enfiados os bambus que, entrelaçados e rigorosamente amarrados, formariam um belo arco sobre a rua.

Colocados os bambus, breve pausa para o almoço.

Logo após, sem direito a descanso, nós, os homens, esticávamos os barbantes para que as mulheres passassem os grudes e, na sequência, colassem as bandeirolas.

Os vasos de flores eram colocados nas janelas onde também ficavam os panos de enfeite que podiam ser panos de prato discretamente coloridos. E as cores predominantes eram a vermelha, sangue de Cristo, e a roxa, cor da Paixão.

Terminadas essas tarefas, eu ia apressadamente conferir os dois ou três quarteirões antes e depois do nosso. E voltava com o peito inflado e orgulhoso para dar a notícia:

– O nosso é o mais bonito!

Só então passava para a fase dois de minha dupla jornada de trabalho na Sexta Santa.

Ia rapidamente para a Igreja, vestia minha batina de coroinha e me mandava para a rua vendendo velas.

– Olha a vela! Olha a vela!

Havia concorrência de outros meninos, mas a batina dava a certeza ao comprador e compradora que a minha vela era oficial, da Igreja. Afinal, só nós os coroinhas podiámos sair de batina.

A freguesia era boa, principalmente das senhoras.

– Essa vela é benzida?, perguntava a velhinha beata.

– Claro, dona! Pode comprar.

Na verdade, eu não tinha essa certeza, mas, por via das dúvidas eu deixava a cliente satisfeita e faturava a grana para a Igreja.

Por volta das três e meia, a Procissão da Paixão começava a se formar na Praça Sr. Bom Jesus (ou ainda era Praça Açu? – não me lembro).

Eu acompanhava os primeiros quarteirões e voltava rapidamente à Casa Paroquial para renovar meu estoque.

A Procissão era fechada com o Padre e os homens da turma do Sagrado Coração de Jesus que se revezavam carregando o pesado andor.

Numa boa jogada mercantilista, eu não acompanhava a Procissão: pegava o caminho contrário e ia me encontrar, lá no Parque Riachuelo, com o começo da Procissão, onde as velas já haviam acabado.

Vendia tudo.

Só então eu acompanhava a Procissão, procurando me colocar perto da moça vestida de Verônica, que de quando em quando, entoava o Canto da Verônica.

A moça, de vestido branco, subia num pequeno suporte, entoava a música e ia desenrolando um pano, tipo um véu, onde estava estampado sofrido rosto de Cristo.

Ela desempenhava o papel de uma mulher, que ficou conhecida apenas por Verônica, que enxugou o rosto de Cristo molhado pelo suor e pelo sangue que escorria da coroa de espinhos colocada em sua cabeça.

Era o momento mais emocionante da Procissão.

A letra da música ninguém entendia, pois era cantada em Latim, língua também usada nas celebrações de missas das quais eu participava e sabia das respostas em latim.

Mas não era preciso entender.

A música, a figura de Cristo martirizado, a própria Sexta-Feira da Paixão carregada de sentimentos e respeito levavam pessoas a ouvir, contritas, a música. Muitas chegavam às lágrimas.

Ouça o Canto da Verônica:

O vos omnes

https://youtu.be/EhGf9pUzE4k

Por volta das sete horas da noite o final da Procissão estava de volta à Igreja.

A sexta-feira acabava e o pequeno, porém bravo guerreiro voltava para casa.

Havia pouco o que fazer. Os homens já haviam tirado os enfeites, deixando os arcos de bambu para serem removidos no dia seguinte, Sábado de Aleluia.

O rádio ainda tocava músicas clássicas, as pessoas mantinham as conversas em baixo volume.

Fora um dia agitado.

Agora, o pequeno guerreiro precisava repousar o corpo cansado, mas, feliz com o dever cumprido.

sexta-feira da paixão

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
 NOVIDADE OU COISA BOA DE COMENTAR)

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1 thought on “Sexta-Feira da Paixão. Blog do Mário Marinho

  1. Obrigada por compartilhar suas memórias.
    Minha prima tinha uma voz linda, de soprano, e todo ano era a Verônica na procissão lá no bairro do Sacomã.

    Realmente havia respeito pelo dia e aqui em São Paulo todas as rádios só tocavam música clássica.
    Lembrei disso hoje de manhã porque ouço diariamente a rádio Cultura FM onde o clássico impera.

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