PANELA VAZIA - VÁRZEA

A Várzea ajudando a encher panelas vazias. Blog do Mário Marinho

A VÁRZEA AJUDANDO A ENCHER PANELAS VAZIAS

BLOG DO MÁRIO MARINHO

PANELA VAZIA - VÁRZEA

A raiz do futebol que é Pentacampeão do Mundo é a várzea.

Foi na várzea, com seus campos de terra, de barro, de areia com pedaços de grama, onde a molecada se jogava com genuíno prazer, o prazer pelo prazer, foi lá que se nasceu, cresceu e se tornou vitorioso o nosso futebol.

Todos nós que, um dia, demos um chute em uma bola de pano, de meia, de borracha ou, o sonho maior, de couro temos um pé na várzea.

Atleta de várzea, goleiro de linhagem – Paulo Marinho, meu Pai; Márcio Marinho, meu irmão mais velho foram goleiros antes de mim – atleta de várzea, eu dizia, fiz minha primeira reportagem para o Jornal da Tarde, na várzea.

Foi em janeiro de 1968.

Marco Antônio Rezende, com quem eu trabalhara na Última Hora, em BH, me convidou para fazer um teste no Jornal da Tarde.

O JT era – e foi durante muitos anos – a bíblia do jornalismo.

Fazer um teste no JT, eu que era pouco mais que um foca (assim chamamos quem se inicia no jornalismo), foi motivo de muito orgulho.

Assim, num sábado, cheguei de Cometa em São Paulo. Por volta das 10 da manhã, bati no apartamento do Marco Antônio que morava na Praça Roosevelt.

Pouco depois chegávamos à redação do JT, vazia naquele dia, já que o jornal não circulava aos domingos. Olhei com muita emoção aquela redação vazia, sem ousar pensar que eu poderia estar ali dentro de alguns dias.

Marco foi me mostrando os espaços vazios.

– Ali, é a reportagem Geral; do lado, fica a Variedades; aquela mesa é do Ivan Ângelo, secretário de Redação; a editoria Internacional fica ali do lado. Aquela sala ali é do Murilinho Felisberto, nosso Redator Chefe. Aqui, nesse espaço, fica o esporte.

Dito isso, pegou uma prancheta onde havia uma lauda com o título: “Pauta para o Mário Marinho. A/C Marco Rezende.”

Era uma pauta elaborada pelo Kleber de Almeida, aliás, ricamente elaborada, para a minha reportagem-teste.

Eu deveria ir à região do Campo de Marte onde havia muitos campos de futebol de várzea. Escolher um dos jogos e fazer a matéria.

Kleber – que não me conhecia e não poderia imaginar que eu ainda era um jogador de várzea – explicava detalhadamente como funcionavam os jogos de várzea.

“O primeiro jogo, a pauta dizia, é do 2º Quadro. O 2º Quadro geralmente é formado por jovens que estão começando e por veteranos que já não tem mais condições de jogar no 1º Quadro, onde estão os melhores do time.”

A Pauta continuava detalhando o mundo da várzea que eu conhecia tão bem.

Afinal, até há poucos anos, eu jogava no Clube Atlético Riachuelo, time que eu fundara no meu bairro, lá em Belo Horizonte. Fui goleiro do 1º e 2º quadros. Fui também Secretário da Diretoria e, mais tarde, Presidente.

Escolhi ao acaso o meu jogo.

Fiz a cobertura da forma que me pareceu o mais Jornal da Tarde possível.

            – Comentário do jogo não muito grande e personagem bem ao gosto do JT:

            – O melhor jogador em campo. Sua história, seus sonhos.

           – O juiz do jogo escolhido no meio dos torcedores. Será que ele sonhava ser um Armando Marques? Armando era o mais famoso juiz brasileiro da época.

            – O vendedor de cachorro-quente;

            – O vendedor de laranjas descascadas;

            – Uma mulher que vendia cocadas no meio daquele mercado super masculino;

            – O técnico do time vencedor que não sabia nada de tática de futebol, mas sabia organizar seu time em campo. E há muitos jogos não perdia.

Voltei para o apartamento do Marco com a noite começando.

No dia seguinte, domingo pela manhã, fui à ainda deserta redação do JT escrever a matéria.

À noite do mesmo domingo, peguei de volta para BH o sacolejante ônibus Cometa que me levou de volta. Levou de volta um foca feliz por ter conhecido o JT e por simplesmente ter feito um teste.

Quanta honra!

Felicidade maior, aconteceu quando, duas semanas depois, recebi um telefonema do Marco Rezende.

– Arruma as malas. Pode vir. O Murilinho gostou da matéria e vai te contratar.

Naquele dia, comuniquei à minha namorada da qual, aliás, me tornara noivo há poucas semanas.

– Vou para São Paulo e volto em um ou dois anos. Vou aprender a fazer jornalismo e volto mais tarde.

Um ano depois, voltei a BH. Mas foi para me casar e trazer para cá a minha noiva, fiel e amada companheira destes cinquenta e poucos anos.

Mas, por que estou me lembrando de tudo isso?

É que hoje, na hora do almoço, assisti a uma boa reportagem do Globo Esporte, em que foi apresentado ótima reportagem com o “Complexo Esportivo Campo de Marte”, uma entidade que coordena o futebol e preserva o futebol de várzea, ali na região do Campo de Marte, a mesma onde fiz aquela matéria em 1968.

A reportagem mostrou o sr. Otacílio Ribeiro, que comanda a entidade, agora voltada não só para a várzea, mas também na meritória causa de alimentar os mais necessitados nesse terrível e triste tempo de pandemia.

A entidade está recolhendo doações para fazer a distribuição entre os necessitados. E o que mais se necessita no momento são os alimentos. Veja o que ele diz:

– Estamos de plantão aqui no Complexo Esportivo do Campo de Marte, na rua Marambaia 802, Casa Verde, para receber doações de alimentos. O que você puder doar será muito bem vindo e o povo faminto agradece. Se você não puder ir ligue nos telefones 984845782 e 999383206 que iremos retirar. Se você preferir pode também, querendo e podendo, doar via bancária. Muito Obrigado por este ato humanitário.

Vamos ajudar a Várzea a encher as panelas do nosso sofrido Povo.

  O sr. Otacílio Ribeiro fala à reportagem da Globo

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
 NOVIDADE OU COISA BOA DE COMENTAR)

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