FÚLVIO PILEGGI - FONTE FAPESP

Fúlvio Pileggi: paixão e a autoridade das grandes personalidades do nosso tempo. Por Charles Mady

FÚLVIO PILEGGI:

PAIXÃO E A AUTORIDADE DAS GRANDES PERSONALIDADES DE NOSSO TEMPO

CHARLES MADY

… Tinha uma personalidade única, transparente e sincera, gostassem ou não. É fácil descrever profissionalmente um acadêmico, com suas publicações e aulas. Mais difícil é comentar o ser humano, suas visões e pensamentos, que é seguramente seu maior legado, levando-o a desenvolver nossa instituição após as gestões de Zerbini e Décourt

fulvio pileggi

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO INCOR NEWS - 8 DE ABRIL DE 2021

Perdemos, o Incor, a Faculdade de Medicina da USP e o Hospital das Clínicas, as sociedades médicas e civil, Fúlvio José Carlos Pileggi, figura histórica e marcante. Tinha uma personalidade única, transparente e sincera, gostassem ou não. É fácil descrever profissionalmente um acadêmico, com suas publicações e aulas. Mais difícil é comentar o ser humano, suas visões e pensamentos, que é seguramente seu maior legado, levando-o a desenvolver nossa instituição após as gestões de Zerbini e Décourt. Não deve ter sido fácil suceder a dois gigantes, mas Fúlvio conseguiu elevar ainda mais o Incor. Todos temos virtudes e defeitos, mas nessa balança as virtudes predominaram de forma esmagadora. Fui, juntamente com muitos, privilegiado com uma convivência quase diária, assistindo de perto sua atuação liderando o Incor, e mesmo antes, na Segunda Clínica Médica, como Professor adjunto do Prof. Décourt.

Foi nessa ocasião, como aluno do quarto ano, em 1968, que o conheci e, dizia ele, brincando, que eu não andava sem um livro ou revista embaixo do braço. Passamos a discutir Medicina com frequência, e esse contato nos aproximou muito, mesmo durante o internato, a residência, e a preceptoria. Foi o período que mais aprendi, tendo sido essa época os alicerces de minha formação como clínico geral e cardiologista. Iniciava-se a Pós-graduação, em nível de mestrado, e Fúlvio estimulou a minha inscrição na primeira turma. Logo após, convidou-me a ser contratado como médico assistente, e me colocou, juntamente com outros, no curso de doutorado e desde então nos acompanhou diuturnamente, querendo ser informado sobre o andamento de todas as atividades na instituição. Fui comunicado por ele que deveria defender a Livre-docência, sem direito à argumentação. Simplesmente ordenou, e assim foi.

Como não ser grato a alguém que participou ativamente, construtivamente, de minha formação? Tinha uma academia, um time que, sob sua orientação, levou o Incor ao apogeu, formando líderes interna e externamente, exigindo qualidade. Tinha também paixão por outra academia, o Palmeiras. Conhecia tudo, e todos, como grande líder que era. Cobrava, a seu modo, resultados, auxiliado por uma equipe invejável, com Macruz, Tranchesi, Serro-Azul, Bellotti, Ebaid, Del Nero, e tantos outros, a seu lado. Agregava aqueles que produziam, recebendo o respeito de todos, valorizando o mérito. Era desbocado, como bom descendente de calabreses, gritando e esperneando, mas não era homem de mágoas, como bom sentimental que era, que a agressividade escondia. Tivemos, como é natural, algumas discórdias conceituais, que logo se resolveram. A porta de sua sala estava sempre aberta, recebendo a todos sem agendamentos. Chegava às lágrimas, ouvindo seus tenores e barítonos italianos. Certa vez, em sua casa, chorou ao ouvir Giglio, após algumas taças de vinho, uma de suas paixões. Construiu uma adega invejável, e era generoso para oferecê-los Certa vez, em um jantar em sua casa, na companhia de um pesquisador italiano, ofereceu-nos um Romanée-Conti, e presenteou-o com um Chateau Lafite. Em nossos almoços de quarta-feira, no restaurante Massimo, levava o que havia de melhor. Era também admirador da boa cozinha, e o anfitrião fazia questão de agradá-lo.

Certa vez, contou emocionado, como havia comunicado seu pai que tinha sido o terceiro colocado no vestibular da USP. Seu pai perguntou-lhe: porquê não em primeiro? Exigências e exigente desde pequeno.

As rédeas do Incor estavam sempre em suas mãos, não as largando mesmo em fins de semana, e férias. Essa paixão construiu. Os poderosos que aqui se tratavam eram instados a fazer doações. Certa vez, estando em sua sala um banqueiro que aqui havia sido operado, solicitou um determinado valor para a compra de um equipamento. O paciente vacilou, e Fúlvio disse-lhe que, sendo seu médico, exigia a quantia, pois o hospital havia salvo sua vida. No mesmo instante, ligou para o banco, liberando a verba. Colocava o Incor acima de tudo, dizendo que permanecia mais aqui do que em sua casa, pois era também sua casa. Esse legado, esse espírito acadêmico foi, para mim, o que de mais importante ele cultuou. Sempre usou seu poder, que era muito grande, em prol desta casa. Poucas vezes desanimou, como resultado de certos eventos políticos. Mas, logo se levantava, voltando a produzir. Era avesso à mídia, nunca a procurando. Ao contrário, a mídia queria chegar a ele, sem sucesso.

Em seu concurso para Professor Titular, o tema sorteado foi “Pericardites”, tendo ministrado uma aula magistral. Aposentou-se aos setenta anos, desgostoso com certos fatos. Conseguimos trazê-lo de volta, a duras penas, voltando a se reunir com amigos antigos, gerando alegria para todos.

Por tudo, terá sempre um local de destaque na Medicina. Esteja onde estiver, saiba que o seu Incor tem um enorme respeito por você, e que sempre será lembrado, com saudade, por ter deixado um legado inesquecível. Você fez a diferença, com coragem e determinação.

Descanse em paz.

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Charles Mady, professor associado do Instituto do Coração (Incor) e da Faculdade de Medicina da USP

Diretor
Unidade Clínica de Miocardiopatias e Doenças da Aorta
InCor – HCFMUSP

charles.mady@incor.usp.br

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