perdão - algemas abertas

Cem anos de perdão. Coluna Carlos Brickmann

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 14 DE NOVEMBRO DE 2021
perdão - algemas abertas

Perdão não é a palavra juridicamente correta. Mas, na prática, os processos contra Lula, 76 anos de idade, têm de voltar ao começo, para um dia desses, quem sabe, chegar a uma conclusão. Até o neto dos atuais juízes proferir a sentença, Lula é ficha limpa – tão limpa quanto a de Flávio Bolsonaro, cujo processo sobre rachadinhas ficou para lá, ou a do presidente da República, que não enfrentará ação por usar métodos irregulares na campanha porque as próximas eleições estão logo aí, mas nas quais a Justiça promete punir quem cometer irregularidades que já estavam fora da lei quando ele foi eleito.

Aliás, os dois candidatos ficha-limpa já se enfrentaram neste ano, na disputa pelo apoio de Valdemar Costa Neto, que foi condenado pelo Mensalão e passou algum tempo na prisão por isso. Costa Neto apoiou Lula e Dilma, agora apoia Bolsonaro; e, no livre exercício de seu comando sobre um partido, enfrentou Ciro Nogueira, do PP, aquele que chamava Bolsonaro de fascista e hoje é homem forte de seu Governo, ambos abrindo as portas de suas legendas para filiar o presidente. Segundo Bolsonaro, Valdemar tem 99% de chances de ter ganho a disputa contra Ciro. Mas, se não me falha a memória, em qualquer dos casos Bolsonaro controlará a sigla, mas sem acesso aos fundos de campanha. Ciro e Valdemar podem não ser os políticos ideais, mas burros é que não são. Seus cofres não têm porta de saída.

Dúvida: nessas negociações todas, quem é que busca cem anos de perdão?

Memorex nele

Aí entra Sergio Moro na disputa. Em sua primeira grande entrevista após ter entrado num partido político, que anuncia sua candidatura à Presidência, Moro revela um sério problema de memória: ele sempre disse que não era nem seria político, sempre disse que seu objetivo não era ser presidente. Bom, já há algum tempo virou político, ao aceitar o convite de Bolsonaro para ser ministro da Justiça. E, na entrevista à Folha de S.Paulo, disse que seu projeto de país já existia há tempos, aguardando “o momento certo”. Falha de memória: se ele não queria ser político nem presidente, para que criou um projeto de país?

E que “momento certo” era esse que aguardava?

Marechal de toga

Um dos pontos mais importantes da entrevista de Moro passou batido. Só um colunista, Reinaldo Azevedo, parece ter percebido o quanto é ditatorial. Moro se propõe a criar, sem demora, uma Corte Nacional Anticorrupção, espécie de Lava Jato acima do Poder Judiciário.

Talvez Moro não tenha percebido que esse mecanismo já existiu durante a ditadura militar. Era a Comissão Geral de Investigações, CGI, sob o comando do marechal Estevão Taurino de Resende Neto (e, depois dele, do almirante de Esquadra Paulo Bosísio, que mais tarde seria ministro da Marinha). Funcionou? Depende: o ex-governador Leonel Brizola, adversário do regime, foi investigado. Já as acusações contra Antônio Carlos Magalhães e José Sarney foram esquecidas. Eram aliados. A CGI, com poder ilimitado, teve resultados pífios. Crime não se combate com tribunal de exceção, mas com trabalho diário. O problema é que trabalhar não rende fotos, nem viagens, ou diárias. Trabalhar dá trabalho.

Presitour

Bolsonaro deve embarcar nesta semana para o Oriente Médio. Participa da ExpoDubai, da inauguração da embaixada em Manama, capital do Bahrein, e passa pelo Qatar. A parte importante da viagem foi cancelada: a ida ao Iraque, para discutir compras de petróleo. O cancelamento foi motivado por questões de segurança: no dia 6, houve um atentado contra o primeiro-ministro iraquiano Mustafá al-Khadimi (que nada sofreu).

Dúvida 1

Comprar petróleo? E a autossuficiência anunciada desde o Governo Lula?

Dúvida 2

Já que estará no Oriente Médio, como anda a transferência da Embaixada do Brasil em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém? É promessa de campanha.

Prioridades

A viagem de Bolsonaro é também um presente para seu superministro Paulo Guedes, que deve acompanhá-lo. Guedes já enviou ofício à Câmara informando que, por estar em viagem com o presidente, não poderá depor no dia marcado, depois de amanhã, sobre sua off-shore – empresa montada num paraíso fiscal, as Ilhas Virgens. Mas o superministro ganhou apenas algum tempo: seu depoimento foi remarcado para o dia 23.

Tempos de ódio

O colunista Gustavo Alonso, da Folha, disse que Marilia Mendonça vivia em luta com a balança, mas fazia um regime radical e perdia peso. Um manifesto com 908 assinaturas diz que há gordofobia e machismo e exige desculpas do jornal e demissão do colunista.

Dá para aguentar?

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3 thoughts on “Cem anos de perdão. Coluna Carlos Brickmann

  1. Reinaldo Azevedo detesta Moro e a lava jato.

    Ele é advogado e eu não. Mas sempre achei
    Reinaldo a voz do ministro Gilmar, a quem eu tenho milhares de questionamentos.
    Entre Moro e a dupla Gilmar e Reinaldo, sou Moro e elogio Moro.
    Votar em Moro, São outros quinhentos.

  2. O fato de nunca ter pensado em ser político não significa que ele não possa ter mudado de ideia, muito provavelmente convencido por gente do seu entorno alarmada com o futuro das próximas eleições.
    Como ministro da Justiça não se mostrou nem um pouco político, caso contrário teria entrado no jogo do presidente e acatado suas “ordens” e dançado conforme a música da ocasião. Pulou fora, como vimos.
    Quanto a observação do brilhante Reinaldo Azevedo (há anos porta-voz e alter-ego de Gilmar Mendes), é no mínimo interessante ler a observação de alguém com uma memória privilegiada, mas que não percebe que seu juiz de estimação é tão ditatorial quanto o objeto de sua crítica.

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