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Negacionismo improdutivo. Por José Horta Manzano

As origens de seu negacionismo são obscuras. Talvez nem Freud explique. Mas as consequências são sempre previsíveis. Funciona assim: dotado de raciocínio particularmente torto, o Bolsonaro se posiciona contra tudo o que o bom senso indica como bom para a população…

VACINA- negacionismo

A fraqueza do Bolsonaro salta aos olhos. Faltando menos de seis meses para encerrar o prazo de se afiliar a um partido – condição indispensável para concorrer à eleição –, ele ainda não conseguiu encontrar nenhum que o acolha de olhos fechados e braços abertos. Nenhuma agremiação quer saber do capitão, com receio de que seu pé frio e sua imagem degradada contaminem o partido e causem dano aos demais candidatos. Tirando a turma do sim-senhor, ninguém quer ver seu nome associado ao do presidente. Se isso não é presidente fraco, o que será?

As origens de seu negacionismo são obscuras. Talvez nem Freud explique. Mas as consequências são sempre previsíveis. Funciona assim: dotado de raciocínio particularmente torto, o Bolsonaro se posiciona contra tudo o que o bom senso indica como bom para a população e, por consequência, para o Brasil. No sentido inverso, funciona também: ele será contrário a tudo o que for bom para o Brasil e, por consequência, para a população.

Basta surgir um fato novo, e a gente já sabe o que vai acontecer. Basta analisar: se for bom para a população, o capitão fatalmente será contra. E vice-versa. O exemplo maior foi o da vacina contra a covid-19.

Bolsonaro foi contra desde antes de ela ser lançada no mercado. Para ele, era questão de princípio: ser contra tudo o que possa melhorar as condições de vida e de saúde do povo que o elegeu. Ele não arreda pé dessa premissa.

…Não é estranho o povo castigado pelo governo mais negacionista do mundo tornar-se campeão dos adeptos da vacina? No meu entender, é prova eloquente da fragilidade do Bolsonaro e do fracasso de sua imbecil teoria negacionista…

O capitão não foi o único no planeta a ver a chegada da vacina com certa desconfiança. Será que não foi desenvolvida rápido demais? Todos viram que ela ficou pronta em tempo recorde. Será que funciona? Muitos duvidaram que funcionasse. No início, os questionamentos eram numerosos. Havia mais perguntas que respostas.

Só que as respostas foram chegando. Não se pode lutar contra os fatos. Com milhares de cidadãos vacinados em dezenas de países, e com a epidemia a ponto de ser controlada, não há mais como negar. Um a um, dirigentes desconfiados passaram a encarar a realidade. A vacina veio rápido, funcionava e era indispensável para frear o alastramento da epidemia.

O único que se recusou a aceitar os fatos foi nosso genial doutor Bolsonaro. Negou e continua negando. Não perde ocasião para repetir, com o orgulho dos ignorantes, que não está vacinado e que não tenciona vacinar-se.

Nestes meados de novembro, dirigentes de um bom punhado de países europeus (França, Áustria, Suíça, Alemanha, entre outros) procuram a melhor maneira de convencer sua população de que é necessário tomar vacina. Até Vladimir Putin, de costume tão reservado, foi à tevê implorar a seu povo que tomasse vacina.

Os governos estão propagandeando a imunização faz um ano. No entanto, uma quarta parte dos “vacináveis”, em média, se recusa a espichar o braço. E olhe que não foi por falta de incentivo. Desde que as vacinas foram lançadas, todos os governos têm feito campanhas intensas de convencimento da população. Talvez seja medo da agulha, mas nenhum “antivax” confessa.

Por seu lado, apesar de contar com o dirigente mais antivax do planeta – um bizarro capitão que não perde ocasião para desdenhar a ‘gotinha que salva’ –, o Brasil tornou-se um dos campeões mundiais da vacinação. Em vez das ruidosas passeatas de cidadãos refratários à imunização que se veem na Europa, temos mais é gente louca pra receber a segunda dose, a terceira, e quantas mais vierem.

Não é estranho o povo castigado pelo governo mais negacionista do mundo tornar-se campeão dos adeptos da vacina? No meu entender, é prova eloquente da fragilidade do Bolsonaro e do fracasso de sua imbecil teoria negacionista.

Xô, estrupício terraplanista! Nem teu povo presta mais atenção às insanidades que proferes!

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JOSÉ HORTA MANZANO – Escritor, analista e cronista. Mantém o blog Brasil de Longe. Analisa as coisas de nosso país em diversos ângulos,  dependendo da inspiração do momento; pode tratar de política, línguas, história, música, geografia, atualidade e notícias do dia a dia. Colabora no caderno Opinião, do Correio Braziliense. Vive na Suíça, e há 45 anos mora no continente europeu. A comparação entre os fatos de lá e os daqui é uma de suas especialidades.

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2 thoughts on “Negacionismo improdutivo. Por José Horta Manzano

  1. Prezado colunista, que tanto gosto de ler. Deixe-me lhe dizer umas palavras para iluminar cientificamente esta conversa. Talvez Freud não explique o capitão, mas minha genial patroa tem uma teoria – que, diz ela, já discutiu com colegas de departamento, e parece que conta com ampla aceitação no meio acadêmico. Trata-se do seguinte: todos temos, no sistema nervoso central, uma estrutura chamada Amígdala Cerebral. Nas palavras de um leigo como eu, tomemo-la como a responsável pela saúde bioquímica de nossas emoções, interferindo decisivamente em nossos estados anímicos e em nossas variações patológicas de humor, sendo responsável pelo controle de sentimentos negativos persistentes, paranoias inexplicáveis e impulsos animalescos irracionais como a raiva, o desejo de destruir e a permanente vontade de vingança (mesmo que não haja nada a vingar). Ocorre, e é isso que defendem minha patroa e vários de seus colegas, que o capitão nasceu sem a tal Amígdala Cerebral, com as consequências que, nós, brasileiros, já conhecemos na teoria e, principalmente, na empiria. Mas não apenas, porque ele também veio ao mundo sem o Hipotálamo e a glândula Pineal, que, digamos, ajudam a tal Amígdala a controlar as coisas. Natural, portanto, que o capitão tenha tentado explodir quartéis do exército quando jovenzinho, e que, mais recentemente, tente a todo custo destruir um país inteiro, a começar por seu povo, contra quem ele tem verdadeira sede de vingança. Ou seja, o tipo vive com sangue nos olhos, mas não tem culpa de ser a besta cega, dementada e irrecuperável que sempre foi…

    1. Olhe, prezado Fox, não se deve contradizer quem sabe mais que a gente. Não vamos fazer igual ao capitão, que briga com os fatos. Se sua senhora e outros acadêmicos chegaram a essa conclusão, só nos resta aquiescer.
      Forte abraço.

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