terra arrasada

Terra arrasada. Por Silvia Zaclis

Ouve-se um galope, ao longe a terra seca se desprende e envolve o cavaleiro numa bruma avermelhada. Atrás dele, mantendo distância respeitosa, seguem outros cavaleiros.

A cavalgada é uma tradição semanal: o grupo chega até o mata-burro da porteira e ali se reúne para o hasteamento da  bandeira, que agora tem uma efígie com o semblante do dono da fazenda. Depois  cantam o hino com a mão no coração. Dependendo de como bate o vento, a bandeira parece sorrir ou destilar muito ódio. Os acompanhantes sempre esperam que o vento esteja a favor para  que o capitão  apareça sorrindo. Naquele dia nem precisavam se preocupar, o chefe estava feliz.

Toda a mídia noticiara que o presidente vetou a homenagem a uma psiquiatra brilhante como heroína da Pátria; que elogiou a “neutralização de pelo menos 20” traficantes pelos “guerreiros” do Bope em uma ação no Rio, e que ainda teve a alegria de ver aprovado pela Câmara o texto básico de um projeto que autoriza a educação domiciliar. Ordem, mão firme com a bandidagem, e ainda por cima controle da educação, do pensamento…

E ainda há poucos dias, o capitão derrubara mais uma ampla área de floresta e poderia soltar todos os bois – vão pastar, meninos!

Enquanto o capataz  prende a bandeira no mastro, ele se permite um profundo suspiro. Sua missão está indo tão bem, que poderia baixar a guarda por algumas horas: depois de anos de manobras, enganos e mentiras bem plantadas, conseguira obter aquele panorama de terra arrasada com que sonhara desde jovem.

Que alegria ver aquela boiada toda esparramada numa área que “muitos paisinhos europeus” nunca viram – e nem vão ver.  Seus seguidores trabalham como se deve, pé no chão, rastelo e arado. Se abrir a boca, tem milhares se matando pela chance de ocupar a vaga do descontente.

Não venham falar de tecnologia no agronegócio. O negócio aqui não é agro; é meu, e eu faço da maneira que me parecer melhor. O gado eu mando vacinar, a campesinada eu deixo se vacinar, mas tem que ser na folga deles. Ah, preciso suspender as folgas, vai chegar um  carregamento de armas importadas para o meu exército, tem que trazer para a fazenda. Nessas coisas eu não faço economia: só o melhor para meus homens.”

Terminada a cerimônia da bandeira, todos ali sabem que seu grande prazer é voltar sem pressa para a casa grande e, no caminho, recolher as saudações dos cortadores de madeira, das mulheres cozinhando em fogões a lenha improvisados ao longo da estrada, das crianças que trabalham nas olarias, dos velhos ocupados em remendar redes de pesca e consertar velhas panelas .

Sente orgulho de ser tão amado.

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SILVIA ZACLISÉ JORNALISTA

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM POST DO FACEBOOK NO FIM DE 2021

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