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Como é bom rezar. Por Antonio Contente

Rezar…Na cheia, lá está, sobre minha cabeça, o chamamento para o melhor dos rituais às orações particulares. É então que abro as mãos para que a claridade prateada escorra entre meus dedos…

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Certamente que não sou o único, porém estou entre as poucas pessoas que, mesmo não professando religião nenhuma, reza com certa frequência. Claro que isso não ocorre em momentos extremos, como durante as turbulências que eventualmente enfrento a 34.000 pés de altitude em viagens de avião. Ou quando, acometido por algum mal físico, às vezes me surpreendo a arder em febres alimentadas por provavelmente rubras labaredas. Gosto de rezar exatamente em situações normais, como naqueles dias em que, mal colocando os pés fora da cama, sou tomado pelos ares de manhãs azuis em que ecoam cantos de certas aves afeitas aos trinos de lindas composições. Basta ouvir e entro em estado de reza.

Como tive formação familiar católica, sobraram, em minha mente, retalhos de orações aprendidas na infância, em casa e em colégio de irmãos maristas. A estes retalhos não recorro, se me posto para orar. Mas às vezes, sem que queira, eles vêm, e é bom, reconfortante, quase diria meigo. Descobri isso há tempos, muito tempo, quando ainda era estudante de Jornalismo em Sampa, no final dos anos 50. Então recebi pauta para fazer matéria para o jornalzinho da Cásper Líbero, A Imprensa, editado pelos alunos. Era algo sobre a praça da Sé, vendedores ambulantes na época ainda poucos, e o Marco Zero que, suponho, não mudou de lugar. Pois bem, terminada a tarefa, meus pobres olhos caíram sobre a fachada da Catedral. Não vou afirmar que fui tocado por alguma força transcendental. Mas subi a escadaria e entrei.

Era de tarde, coisa de 15 horas mais ou menos. O templo se encontrava vazio. Diante de tal silêncio, sentei num dos bancos de fundo. De repente, começou. Fui envolvido por maravilhosa música de órgão. Reconheci, imediatamente, algo de Bach. E tudo melhorou ainda mais quando as suaves vozes de um coro ecoaram. Daí, reconheci, pois ao lado de minha casa, na adolescência, morou um alemão especialista em música barroca. Seu filho, amigo que me ensinou muitas coisas, tocava violino. Saquei que o que ouvia era a cantata Ich Habe Genug (Eu Tenho o Bastante), do citado Johann Sebastian. Tomado por aquilo, fechei os olhos e me senti no já citado “estado de reza”. Muitas outras tardes voltei ao mesmo local para, ouvindo os ensaios dos religiosos, sair de dentro de mim mesmo. Em total envolvimento de oração. Num chuvoso novembro, o Messias, de Haendel, me levou aos céus.

 Ainda hoje sei de certos templos católicos onde são ensaiadas peças daquilo que alguns chamam de “música sacra”. Nas minhas estadas em Belém do Pará, até alguns anos passados, toda quinta-feira o organista, e, às vezes, o coro da Basílica de Nossa Senhora de Nazareth, ensaiavam. Da última vez pintou o recorrente Bach, com a cantata Die Heilige Weihnachten, que me limpou e purificou. Total, cristalina e absoluta oração a me acariciar o coração, a mente, a alma…

Ultimamente, com estadas mais longas na ilha em que costumo me esconder no delta do rio Amazonas, meus transes de entrega ao transporte têm sido cada vez mais comuns. No final do ano passado, no começo da Estação das Chuvas, o Inverno Amazônico, surpreendi, em clara manhã, uma flor a boiar num remanso do cristalino igarapé que corre nas matas atrás de minha choupana. Uma espécie de hibisco, com pétalas grandes, três ou quatro, de vermelho denso; outras duas de amarelo gritante. Ali estavam, diante dos meus olhos, os versos de uma oração sacralizadíssima. Que se burilou ainda mais no instante em que duas abelhas vieram pousar sobre as pétalas. A linda flor navegando, como se passeasse no redemoinho, cena feita para a admiração, o enlevo, a carícia e o sonho, peças fundamentais de quem não ora apenas para encaminhar pedidos ao imponderável.

 De outra parte, nas manhãs do pomar, contatos com o que poderíamos chamar de divino, no melhor dos sentidos, se espalham por todo lado. Na brisa que a baía lança a fim de que, a estalar no ar, as sementes das seringueiras caiam para a íntima fecundidade da terra; na dimensão real do ninho que o suí construiu num galho bem diante de minha janela, passarinho que, com o sagrado azul de suas penas, é toda uma estrofe de oração à beleza, à vida; e também, afinal, na audível, apenas para quem tem bons ouvidos, sinfonia que o largo braço do Amazonas inscreve constantemente no pentagrama do azul. Os tufos de nuvens muito brancas são notas para a execução de celeste partitura.

Por fim, depois dos dias de muitas chuvas que despencam com o alvorecer da lua nova, as noites, já no quarto crescente, começam a ficar mais limpas. Na cheia, lá está, sobre minha cabeça, o chamamento para o melhor dos rituais às orações particulares. É então que abro as mãos para que a claridade prateada escorra entre meus dedos. Sinto-me puro e amplo, em véspera de me ver adornado por brilhantes réstias de poeira de estrelas. Tudo em volta de mim diz que, então, estou sendo alcançado pelos milagres.

Não duvidarei se, ao passar desta para a melhor, for parar no céu…

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Antonio ContenteANTONIO CONTENTE

Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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2 thoughts on “Como é bom rezar. Por Antonio Contente

  1. Eu tb acredito, Contente, que vc vai para o céu.
    E rezar, é na verdade falar com Deus, sempre com o coração nos lábios, pedindo o que precisamos sem nos esquecermos, principalmente,
    de agradecer o muito que nos dá .
    Bjs

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