Confesse seus pecados

Confesse seus pecados. Por Paulo Renato Coelho Netto

De súbito e ameaçador, de dentro para fora do corpanzil, ele determina em um tom grave de voz: – Confesse seus pecados. Aquilo me pega de surpresa como se eu, criança de oito anos e morador do cerrado, fosse um ladrão de guavira, pequi e guariroba…

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Aos oito anos de idade me vi dentro de um confessionário, sentado ombro a ombro com um padre corpulento.

Estudante em um colégio católico, cumpria o ritual para a primeira comunhão.

Fisicamente, estávamos separados por uma folha escura de mogno surrado.

Na altura da cabeça, uma cortina trançada de madeira por onde a pouca luz fazia daquele cubículo um lugar ainda mais claustrofóbico.

Éramos seres antagônicos, sob todos os aspectos.

O religioso grande.

Eu franzino, como a maioria das crianças de oito anos deve ser.

Ele com sotaque italiano.

Eu brasileiro nato, fruto do cerrado como a guavira, o pequi e a guariroba.

Ele com a certeza absoluta que um ser onisciente, onipotente e onipresente habitava a abóbada celeste e passava dias e noites vigiando tudo que eu fazia, deixava de fazer e até pensava.

Logo eu, um ser insignificante, fruto do cerrado como a guavira, o pequi e a guariroba.

De súbito e ameaçador, de dentro para fora do corpanzil, ele determina em um tom grave de voz:

– Confesse seus pecados.

Aquilo me pega de surpresa como se eu, criança de oito anos e morador do cerrado, fosse um ladrão de guavira, pequi e guariroba.

Um devorador impiedoso de mangas bourbon, goiabas brancas, vermelhas e acerolas.

Que diabos de pecado uma criança pode ter?

Quem era aquele italiano tomador de vinho tinto que queria que eu sentisse culpa com apenas oito anos de idade?

Fiquei mudo, atônito, sem reação.

Precisava encontrar um pecado para saciar a fome daquele padre. A única maneira, pensei, de sair dali para voltar a respirar ar puro.

Ar sem ácaros, além do confessionário. Com cortina de veludo roxa como parte da decoração sombria daquele lugar inconcebível para uma criança.

Inventei um pecado qualquer e joguei para o sacerdote como um tratador de zoológico que atira carne aos crocodilos.

Foi a primeira e última vez que entrei em um confessionário.

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paulo rena

Paulo Renato Coelho Netto –  é jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas Piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de sete livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”. Vive em Campo Grande.

 

capa - livro Paulo Renato

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