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Este fascinante mundo verde. Por Antonio Contente

Fascinante..Imagine, pense comigo nesta manhã de total deslumbramento. Veja casinhas de madeira com galinhas ciscando à porta, note cabritos e carneiros que comem o próprio leito da rua, escute canto de pássaros que você, com certeza, não identificará. Mais adiante observe um imenso búfalo de chifres tortos pastando como se fosse a  reencarnação animal de um monge…

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        Gosto de ir para lá quando sei que anda forte a Estação das Chuvas. É que as águas do Inverno amazônico são cúmplices, companheiras do viço das folhas, das gramas, da noção de eternidade que perpassa pelos troncos úmidos. Para esses meus encontros com o verde tão fascinante do vilarejo de Joanes, preciso viajar seis horas de barco até Marajó, a partir do meu esconderijo no delta. Vou através de braços de rios, furos e paranás. Depois atravesso a enorme baía que banha o litoral de água doce da imensa ilha que, no lado oposto, recebe o sal do Atlântico.

        Na última vez em que lá estive o leito das ruas nas quais só circulam carroças e charretes (veículos motorizados são proibidos), benzido por chuvarada que caíra de madrugada estava ainda mais verde. Agora, amigo, feche os olhos e imagine os cheiros que emanam de um mundo vegetal molhado e batido por leve aragem. Entram pelas janelas aromas tão absolutamente estranhos e agradáveis que mesmo o olfato privilegiado de Jean-Baptiste Grenouille, o do livro de Patrick Susskind, conseguiria identificar. Mas eu, acostumado a andanças por estes quintais que me devolvem à infância e acariciam a velhice, identifico odores de rosas e jasmins, flores de mangueiras, laranjeiras, jambeiros nos quais já pintam os primeiros frutos, isso sem falar da própria fragrância da terra molhada, com algo de lascivo para o coração e para a memória.

        Andando por este mundo estranho e totalmente diferente de tudo o que a maioria das pessoas já viu, você acaba por redescobrir que as gotas de orvalho são de fato diamantes líquidos; e que o limo dos troncos imensos falam de idades que se renovam para o sol e os ventos.

        Imagine, pense comigo nesta manhã de total deslumbramento. Veja casinhas de madeira com galinhas ciscando à porta, note cabritos e carneiros que comem o próprio leito da rua, escute canto de pássaros que você, com certeza, não identificará. Mais adiante observe um imenso búfalo de chifres tortos pastando como se fosse a  reencarnação animal de um monge, saque a latada de buganvílias se debruçando sobre velha cerca carcomida pelo tempo, e talvez, irmão, como eu, você acabe sacando que ainda não chegou o momento exato de se concluir que tudo está perdido.

        Caminho vagarosamente pelo alto da escarpa sobre o rio-mar. No platô que antecede a queda paro diante das ruínas da Missão que teria sido construída pelo navegador espanhol Vincente Pinzon, e tento imaginar o que ele pode ter sentido como o primeiro homem dito civilizado a pisar ali.

        No que restou — muito pouco – das antigas construções, impressiona, de fato, um pedaço de fachada do que teria sido uma igreja. Identifica-se ainda o portal e, acima, vestígios do capitel rusticamente trabalhado. Dos espanhóis, restou isso. Dos índios que habitavam a região, os ralos vestígios estão nos rostos das pessoas, nos olhos levemente rasgados e nas bocas com lábios particularmente fartos. Algumas árvores seculares que permanecem por trás da espécie de praça, talvez sejam daqueles tempos. Os ventos, em geral constantes, nas noites em que sopram mais fortes uivam entre as pedras que se decompõem, ou entre as palmas dos coqueiros que se espalham na descida para a praia.

        E na praia, afinal, sento sobre um velho tronco para olhar os barcos de pesca que saem. Por incrível que pareça, a maioria deles ainda usa velas. Azuis umas, vermelhas outras, vão lado a lado em direção à baía, de onde regressam ao cair da tarde. Pergunto a um velho pescador há quanto tempo executa o ritual. Desde menino, responde. E quantos anos você tem? Oitenta, mostra nos dedos…

        Agora, com a chuvinha retornando e os barcos soltos na linha do horizonte, tudo ao redor fica deserto. Batem as ondas contra o silêncio. Na verdade, elas são o silêncio…

        Subindo a ladeira no caminho de volta, encontro um padre de batina branca. Aceno, ele cumprimenta, ofereço uma cerveja apenas refrescada nas águas de um igarapé atrás da barraca, ele aceita. Sentados na biboca com cobertura de palha, mostro o búfalo que continua pastando e afirmo ser ele um monge transformado no lindo animal. Ágil cabritinho passa correndo no rumo das tetas da mãe. Um pássaro trina e nova lufada de vento dobra a esquina entre tufos de assaizeiros. Comento com o sacerdote (suíço) que retornar à civilização será um inferno. Ele cruza as pernas. Dá um gole. E sorri.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

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