Projeto
Novo terminal de cruzeiros exige debate sobre futuro de Santos. Por Antonio Carlos Fonseca Cristiano
Novo terminal de cruzeiros…Mais que uma obra, projeto impõe à cidade o desafio de integrar turismo, logística e governança urbana em um plano comum de desenvolvimento.

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DIÁRIO DO LITORAL, EDIÇÃO DE 17 DE JULHO DE 2025
O anúncio da construção de um novo terminal de cruzeiros na Ponta da Praia, com investimento privado superior a R$ 1,2 bilhão, reacendeu um debate necessário sobre o papel de Santos no turismo marítimo internacional e sobre a própria governança do nosso território portuário. É inegável: Santos tem vocação portuária e precisa manter sua relevância na rota dos grandes investimentos logísticos e turísticos. O empreendimento obteve aval do Ministério de Portos e Aeroportos e da Antaq, mas encontra resistência por parte do poder público municipal, que aponta “altos impactos – ambiental, urbanístico e de vizinhança”.
Antes de qualquer juízo definitivo, é importante compreender que estamos diante de uma oportunidade concreta de repensar o modelo de desenvolvimento urbano e logístico de Santos. Um projeto dessa escala não pode ser tratado apenas como obra de governo ou como investimento privado isolado. Ele precisa ser lido como vetor de transformação: para o bem ou para o mal, a depender da forma como for conduzido. E este é o ponto central.
Santos já abriga o maior terminal de cruzeiros do país. Recebemos mais de 60% dos cruzeiristas do Brasil. Isso coloca a cidade em um patamar de liderança no setor, mas também impõe desafios. O turismo marítimo está mudando. Navios maiores, temporadas mais longas, exigência por infraestrutura moderna e integrada. Nesse contexto, a ampliação da capacidade, com a possibilidade de dois terminais coexistindo, pode ser um diferencial competitivo. Desde que feita com critério.
É compreensível que haja receio quanto à sobreposição de estruturas ou ao impacto sobre a vizinhança da Ponta da Praia. Mas o que deveria preocupar a cidade não é apenas onde o terminal será construído, mas, principalmente, como ele será integrado à malha urbana, à lógica portuária já existente e ao plano de futuro da cidade. E, acima de tudo, quem está participando dessas decisões.
A ausência de um canal institucional claro entre porto e cidade segue como uma das maiores fragilidades de Santos. Quando o município se posiciona contra a obra, surge a pergunta inevitável: quantas vezes, de fato, esteve presente na construção de outras decisões estruturais? Há anos, projetos centrais para o desenvolvimento da cidade são formulados e aprovados com pouca interlocução com o poder público local. Um exemplo emblemático é a revisão do Plano de Desenvolvimento e Zoneamento (PDZ) do Porto de Santos, que redefiniu usos, espaços e prioridades sem uma articulação robusta com o poder público da cidade.
Esse é o ponto central: não basta ser contra ou a favor de uma obra específica. É preciso construir uma cultura de participação permanente, de governança compartilhada, tema que destaco com frequência. O Porto é uma estrutura federal, mas seu impacto é diário, urbano, social. O município precisa se posicionar, mas também precisa se preparar para ser ouvido. E isso se faz com dados, planejamento, articulação e presença técnica nos fóruns onde as decisões são tomadas. A estrada para a liberação e execução, de fato, da nova obra ainda é longa e há tempo hábil para todo esse debate.
Investimentos privados podem trazer benefícios expressivos. Geração de empregos, dinamização do turismo, requalificação de áreas urbanas, aumento da arrecadação. Mas também trazem riscos. Pressão sobre infraestrutura urbana, especulação imobiliária, concentração de fluxos em áreas sensíveis. O que fará a diferença é a capacidade de a cidade transformar os investimentos em oportunidades, por meio de pactos claros, contrapartidas definidas e integração com outros planos públicos, como mobilidade, habitação e meio ambiente.
É tempo de maturidade institucional. O futuro de Santos não pode ser decidido por entusiasmo de investidores, nem por resistência do poder local. Precisa ser construído com coerência, escuta e visão estratégica. E, acima de tudo, com responsabilidade pública. O novo terminal pode somar, desde que seja parte de um plano que vá além das temporadas e se conecte a um projeto de cidade.
ANTONIO CARLOS FONSECA CRISTIANO, “CAIO” – Empresário, santista. Presidente da Marimex Inteligência Portuária em Logística Integrada.
