CRIMINALIDADES D`ANTANHO

Criminalidades d’antanho. Por Antonio Contente

Certamente eram os tempos da criminalidade risonha e franca. Que saudade (nesta época de estreladíssimos pilantras de colarinhos brancos) dos imaculados ladrões de galinhas…

CRIMINALIDADES D`ANTANHO

         Com a institucionalização do roubo em todos os níveis da vida brasileira, os românticos ladrões de galinha do passado se tornaram símbolos da mais pura e cristalina honestidade; até poesia. Este tema me fascina, sobre ele escrevi várias vezes, inclusive neste espaço. Porém, a cada exercício de memória novas histórias sobre o assunto renascem; tendo como cenário, à semelhança de outras já narradas, o lendário Pátio do Colégio, onde nasceu a capital paulista e onde funcionou uma Central de Polícia. No final dos anos 50, ainda estudante de jornalismo, fui repórter do jornal O Tempo. De vez em quando, até para aprimorar meu aprendizado, a chefia mandava o aplicado foca cobrir o setor policial. Invariavelmente no Pátio.

         Foi a mexer nuns recortes de matérias escritas em tempos remotos, que achei um de reportagem saída no matutino acima citado na segunda metade dos anos 50. Contarei, aqui, de outra maneira, porém mantendo os nomes dos personagens. Era fim de tarde de um domingo de junho frio, muito, muito frio. No Pátio, não só os policiais de plantão como os repórteres setoristas se encolhiam cada um no seu canto da sala enregelada. De repente, por volta das 17 horas escutamos o rumor do camburão que entrava no estacionamento. Farejando boa matéria os jornalistas correram para lá. E mais excitados ficaram quando três investigadores saltaram segurando robusto homem negro. Um colega do Diário da Noite, mais experiente, foi o primeiro a abordá-lo, enquanto caminhávamos para a sala do delegado de plantão. Perguntado sobre o que fizera, o aprisionado foi sucinto:

         — Sou ladrão de galinhas!

         Exatamente assim ficamos conhecendo Wagner Arruda, vulgo Jabuticaba. Que posto diante da autoridade confessou, com voz firme, ter afanado nada menos de 25 penosas em dois quintais do Brás e um da Moóca. Detalhou que 10 surrupiou de nobre casarão na rua Celso Garcia; outras 10 na rua do Gasômetro; e, mais cinco, na rua dos Trilhos. Sendo estas subtraídas da residência de um advogado e deputado conhecido como Dr. Camilo. Nessa altura um dos investigadores informou que tinha o endereço de cada residência de onde as poedeiras foram afanadas. E também das pessoas a quem o lunfa vendera o produto da rapina. No instante em que os repórteres souberam que o delegado convocaria a presença não só dos lesados como dos receptadores para as horas seguintes, deu para sacar que poderia pintar boa matéria.

         Assim, não demorou muito estavam todos diante da autoridade, inclusive o parlamentar. Como este era obviamente importante, o investigador pediu que o ladrão declarasse para quem vendera as penosas dele. O indicado imediatamente se levantou para afirmar que não sabia que as aves haviam sido pilhadas. Colocou emoção na voz:

         — Minha mulher deu à luz uma menina; no resguardo pós-parto, ela só pode comer galinhas. Daí, comprei…

         Agilíssimo o parlamentar, talvez vislumbrando futuros votos, abriu os braços:

         — Se é assim, como as minhas aves estão sendo usadas em algo nobre, abro mão da queixa.

         Das outras vítimas da gatunagem, resultaram acordos distintos entre elas e os compradores das robustas aves: um  acertou com o receptador, dono de afamada cantina, participar, junto com a família, de lauto jantar cuja “pièce de resistence” seria o objeto do furto preparado à moda toscana, tudo regado com finos vinhos da mesma região italiana; o terceiro (o deputado ficou de fora), aceitou receber pelas dez cacarejantes ex-moradoras do seu quintal o dinheiro do valor de cada uma pela tabela do Mercadão da Cantareira, uma vez que elas já tinham virado churrasco para festejar as Bodas de Prata do comprador.

         Noite alta, permaneciam na sala do Pátio, tiritando com o frio cada vez maior, o prisioneiro, alguns investigadores e o delegado. Os jornalistas tinham ido embora, escrever suas matérias. Quanto a Wagner Arruda, o Jabuticaba, dormiu numa cela para ser solto de manhã. Certamente eram os tempos da criminalidade risonha e franca. Que saudade (nesta época de estreladíssimos pilantras de colarinhos brancos) dos imaculados ladrões de galinhas. Homens de bem, honestíssimas, honradas criaturas de um tempo que não volta mais…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

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