Reflexões e frustrações acerca do cérebro e da política. Por Adilson Roberto Gonçalves
… Parece que a evolução para um cérebro pensante é contrário à otimização da energia em que a passividade intelectual é o caminho mais fácil. Ou seja, a entropia cerebral não é natural…

A frustração com a incompletude do desenvolvimento de uma ideia leva à reflexão acerca da gênese da própria ideia. Creio que o filósofo moderno assistirá, primeiramente, ao mundo em que vive e, a partir daí, desenvolverá o conjunto de sentidos que possam explicar esse mundo, ainda que parcial ou provisoriamente. Buscará em seus predecessores, nos autores clássicos – tantos os escolhidos quanto os preteridos – os que darão o melhor embasamento para a visão de mundo que ora está sendo plasmada. Não sou filósofo e, portanto, tais pressupostos não vingam e não fazem parte das ideias pretensamente desenvolvidas. Daí, talvez, a frustração.
Deixo para eles, portanto, a tarefa de interpretar os fatos, e a mim cabe ler os clássicos e os profanos para entender o mundo lato e sem senso em que habitamos. Ou, pelo menos, ler a obra digerida (ou dirigida) em artigos da revista CULT. Assim, vou chegando perto de algum conhecimento que não mais frustre tanto os anseios iniciais.
Nessas voltas que ao mundo dão, o clássico Utopia, de Thomas More, tem sido substituído por seus antagonistas e mesmo o momento distópico advindo do doidivana norte-americano nos propicia aprendizados, revelando o quanto o fascismo é baseado na ignorância total e quão grande é o número de ignorantes que o seguem. Parece que a evolução para um cérebro pensante é contrário à otimização da energia em que a passividade intelectual é o caminho mais fácil. Ou seja, a entropia cerebral não é natural. Forçamos o pensamento supostamente para nossa sobrevivência, pois não temos força bruta individual para competir com os demais seres vivos do planeta. Em algum momento de nossa evolução, a intelectualidade divergiu para que também sobrevivessem os que se beneficiam da inteligência alheia, pois o mundo concreto, consumista e capitalista, somente pode ser construído com esforços físicos e mentais.
Mas tudo pode ser apenas um jogo de palavras, sem direito ao famigerado VAR para verificar se a frase foi impedida – ou apenas regulada –, se o sujeito é simples, do povo, ou pomposo das elites que bancam bancadas BBBs no parlamento. E ainda poderemos avaliar se, nessa frustração filosófica e bastante real, o placar foi votado ou comprado.
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– Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista. Vive em Campinas.
