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Solidão: a dor silenciosa de não ser visto. Por Meraldo Zisman

Solidão é dor silenciosa, porque não sabemos bem como explicá-la. Às vezes nem sabemos o que estamos sentindo. Sabemos apenas que dói, que está faltando algo essencial.

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Tenho pensado muito sobre a solidão. Não aquela que a gente escolhe para respirar um pouco, mas aquela outra, que pesa devagar e ninguém percebe. É uma solidão quieta, quase educada. Ela não chega batendo portas ou fazendo escândalo. Chega suave, senta-se no canto da sala e vai ficando. Você demora a perceber que ela está ali porque, no começo, há muito barulho em volta. Há conversas, mensagens, compromissos. Mas falta o essencial.

O essencial é sentir-se visto. Sentir que alguém nos olha e realmente enxerga. É perceber que, quando falamos, alguém realmente escuta, não só com os ouvidos, mas com o coração. Solidão não é a falta de gente por perto; é a ausência desse olhar, dessa escuta. É estar numa roda cheia de amigos, falando muito, rindo muito, e ainda assim voltar para casa vazio.

Outro dia, lembrava de Winnicott. Ele dizia algo bonito sobre solidão. Dizia que existe uma solidão boa, necessária, que acontece quando estamos seguros, sabendo que existe alguém confiável por perto. Essa solidão cura, renova, organiza os sentimentos. Mas há também outra solidão, que vem da ausência de um vínculo verdadeiro. Essa dói, machuca devagar, silenciosamente, como um corte que ninguém vê.

Nos tempos atuais, ficamos tão conectados às telas que esquecemos de estar conectados às pessoas. Achamos que estar online é estar disponível, mas não é. Disponível é quem olha nos olhos, quem escuta sem pressa, quem realmente está presente. A solidão nasce exatamente dessa falta. Não da falta de mensagens no celular, mas da falta de calor humano, do toque leve no braço, do abraço sincero, da risada compartilhada.

Precisamos voltar ao básico. Perguntar como o outro está e realmente querer saber. Chamar as pessoas pelo nome com carinho, perceber o que não é dito em voz alta, valorizar as pequenas pausas entre uma palavra e outra. Porque é nesse espaço que moram as verdades mais silenciosas. É nesse espaço que moram as solidões mais profundas.

Solidão é dor silenciosa, porque não sabemos bem como explicá-la. Às vezes nem sabemos o que estamos sentindo. Sabemos apenas que dói, que está faltando algo essencial. E esse essencial é sempre o mesmo: ser visto, ouvido, acolhido. Talvez não possamos curar todas as solidões do mundo, mas certamente podemos aliviar muitas delas. Basta olhar com atenção, escutar com verdade e estar presente. Não virtualmente, mas humanamente.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

1 thought on “Solidão: a dor silenciosa de não ser visto. Por Meraldo Zisman

  1. Caro Dr. Meraldo,

    Que artigo pungente, humanizado e extremamente tangível! Parabéns! Sim, a solidão está a escancarar aqueles minutos que qualquer simulação de presença torna-se um fardo. Há de se ter solitude, por quê não? Essa é aquela da qual ninguém deveria se afastar. É estar bem consigo mesmo sem qualquer flagelo.

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