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Negociar o quê com Trump? Por Antonio Cláudio Mariz de Oliveira

Qualquer negociação implica necessariamente na renúncia recíproca e parcial dos interesses de cada um dos negociantes

NEGOCIAR - TRUMP

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO ESTADÃO, ESPAÇO ABERTO,
OPINIÃO, EDIÇÃO DE 29 DE JULHO DE 2025

Alguém tem dúvidas sobre o desequilíbrio emocional que marca as falas e as ações de Trump, bem como que a sua noção de poder e de como exercê-lo extrapola os limites da lei e da razoabilidade?

Diante dessas características, as razões que ele apresenta para justificar suas decisões raramente condizem com a realidade dos fatos. São, em regra, invencionices, mentiras deslavadas propagadas por ele sem nenhum escrúpulo.

Exemplo eloquente desse seu desvio de caráter é encontrado na sua justificativa para impor a absurda taxa de 50% aos produtos exportados pelo Brasil.

Alegou que a balança comercial está desequilibrada em detrimento do seu país. Mentira grotesca. Os Estados Unidos possuem superávit há anos. Mais exportam do que importam. Fato notório por ele falseado sem qualquer pudor.

Decência, obviamente, é o que lhe falta. Resta saber se ele é um reles mentiroso ou se é um mitomaníaco, que cria as suas “verdades” e nelas passa a acreditar.

Tendo a achar que ele mente conscientemente. Mente porque quer mentir, ciente de que as informações que divulga destoam daquelas que já possuía, estas, fruto de suas próprias fontes oficiais.

O que me parece tão ou mais grave do que a insanidade “trampista” é o apoio que ele recebe de políticos e poucos empresários nacionais. O fanatismo bolsonarista de um lado e a mesquinha visão voltada exclusivamente para interesses comerciais, encobrem outros valores que deveriam nortear as suas ações e opções. O apreço pela dignidade e pela soberania nacional, diante da estapafúrdia e desmotivada exigência do americano, deveriam superar o afeto pelo ex-presidente e relativizar o apego aos compreensíveis interesses empresariais. Por mais relevantes que sejam, eles não podem ceder à chantagem imposta.

As razões verdadeiras das imposições tarifárias foram reveladas em carta escrita com clareza: o amalucado da Casa Branca deseja que o Poder Judiciário brasileiro retire do banco dos réus o ex-presidente Bolsonaro. Isso atendido, o gringo retiraria a taxação.

E há quem aplauda essas sandices. Inéditas sandices, dentre as inúmeras que a humanidade já assistiu no curso de sua história.

Qual a justificativa dessa sua indevida interferência? Qual a sua legitimidade e autoridade para se imiscuir na vida intestina do Brasil, país estruturado constitucionalmente, com a soberania a conduzir os seus destinos. Quem pensa que é esse governante? Aliás, não pensa, portanto, especulações a respeito de suas motivações e objetivos são inúteis.

É evidente que o seu foco em relação às questões comerciais é mera cortina de fumaça, até pela falsidade de suas razões. Seu desiderato é nos ameaçar, para livrar das garras legais o seu títere Bolsonaro. Ninguém põe em dúvida esse fato. Os que o aplaudem sabem que estão apoiando a impunidade do ex-presidente.

No entanto, nada garante que se, por absurdo, o nosso capitão ficar isento de processo, o cabeludo da Casa Branca não voltará com outras alopradas exigências. Não se esqueça que estamos diante de um megalomaníaco sem limites, exercente de um poder para ele desprovido de barreiras legais, territoriais, históricas, culturais, humanas ou de qualquer outra natureza. Ele quer porque quer, convicto que tudo pode querer.

Pois bem, a sua impenetrável capa de arrogância e de prepotência o torna insensível aos clamores da ponderação e da prudência. Sensatez, equilíbrio e espírito conciliatório são exatamente o que lhe faltam. Trata-se, sem dúvida, de uma personalidade avessa ao imprescindível diálogo para que se alcance a harmonia entre interesses opostos.

Em sendo assim, ele mesmo constitui o primeiro óbice à negociação que setores nacionais ardentemente apregoam.

Ademais, e esse é o ponto crucial nessa questão: negociar o quê?

Responderão: negociar a taxa de 50% sobre os nossos produtos de exportação.

Ora, qualquer negociação implica necessariamente na renúncia recíproca e parcial dos interesses de cada um dos negociantes. Eles têm de ceder. Nesse nosso caso específico, os Estados Unidos concordariam em diminuir o índice da taxa imposta aos nossos produtos.

Muito bem, e nós, cederíamos em quais dos nossos interesses? Abdicaríamos de quais exigências que estaríamos impondo? Difícil responder qual seria a parte da nossa abstinência na negociação. Nossos interesses são os que estão sendo unilateralmente ameaçados, nós nada estamos exigindo.

Ao se ler a carta mencionada, concluímos que a única possibilidade de um acordo é cedermos à exigência nela contida de o Poder Judiciário Brasileiro encerrar o processo instaurado contra Jair Bolsonaro deixando-o imune à persecução penal.

Diante dessa realidade, parece-me que não se deve mais mencionar a expressão negociação. Devemos sim, por meio da diplomacia, amparada pelas forças políticas e sociais da Nação, trabalhar para dissuadir o atual morador de Washington de permanecer com a sua irracional e estapafúrdia pretensão dos 50%. Missão difícil, mas factível. É preciso ter foco nos seus inúmeros pontos fracos e encontrar os corretos e existentes caminhos para pressioná-lo. Ele sabe recuar quando lhe convém.

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*Antônio Claudio Mariz de Oliveira é advogado criminalista, da Advocacia Mariz de Oliveira. Mestre em Direito Processual pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Conselheiro no Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), membro da Comissão de Direito Penal do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) e atuou como Secretário de Justiça e Secretário de Segurança Pública de São Paulo nos anos 1990. Foi presidente da AASP e da OAB-SP por duas gestões. 

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