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Bolsonaro, Trump e o teatro da prisão domiciliar. Por José Horta Manzano

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, longe de ser um acidente político ou uma mera consequência judicial, parece ter sido provocada de forma deliberada. Tudo indica que o ex-presidente, em conjunto com membros do seu clã familiar, esticou a corda conscientemente, de caso pensado, e “cavou” essa prisão domiciliar…

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 A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, longe de ser um acidente político ou uma mera consequência judicial, parece ter sido provocada de forma deliberada. Tudo indica que o ex-presidente, em conjunto com membros do seu clã familiar, esticou a corda conscientemente, de caso pensado, e “cavou” essa prisão domiciliar como parte de uma estratégia que vai além das fronteiras nacionais. O objetivo? Despertar a atenção – e a ação – de Donald Trump.

Trata-se de uma jogada desesperada, mas alinhada com a lógica que rege o bolsonarismo desde o início: a crença de que a realidade pode ser moldada a partir de narrativas delirantes e alianças simbólicas. Essa movimentação, por mais absurda que soe (pode até ser confundida com roteiro de novela), segue um raciocínio próprio da bolha em que o bolsonarismo se aninha. É, em essência, a ingenuidade bolsonarista levada ao paroxismo.

Nesse contexto, até Donald Trump – com todo seu histórico de absurdos – passa a parecer um dirigente equilibrado, se comparado à atuação tresloucada dos Bolsonaros. A família revela um egoísmo sem limites. Ao que tudo indica, não haveriam de hesitar em ver o país ruir se isso significasse a salvação pessoal do patriarca. Se a única saída fosse um bombardeio atômico que destruísse o Brasil, a escolha seria óbvia para eles: que se dane o país, desde que o pai se salve.

O que parece estar em curso, neste momento, é uma tentativa explícita de provocar Trump. Os Bolsonaros querem ser vistos como vítimas de um sistema judicial “perseguidor”, esperando que isso alimente o discurso populista e conspiratório do ex-presidente americano. Com isso, esperam que Trump amplie as sanções contra o STF e contra o Brasil.

O problema dessa estratégia é que ela desconsidera uma realidade simples: nem o STF, nem o governo brasileiro, estão dispostos a se curvar diante de pressões externas. As instituições brasileiras seguem com firmeza o caminho que lhes traçou a Constituição de ‘88. Para um grupo que passou anos governando o país sem demonstrar qualquer apreço por valores como brios, pudor ou responsabilidade, há de ser incompreensível descobrir que ainda existem líderes com vergonha na cara.

Em certas cabeças, a esperança bolsonarista de escapar das consequências jurídicas depende menos de fatos e mais da construção de uma narrativa internacional de martírio político. O plano, no entanto, está fazendo água e parece cada dia mais deslocado da realidade.

Enquanto isso, o Brasil segue seu curso, enfrentando as turbulências deixadas por um governo que jamais colocou os interesses nacionais acima dos seus próprios.

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JOSÉ HORTA MANZANO – Escritor, analista e cronista. Mantém o blog Brasil de Longe. Analisa as coisas de nosso país em diversos ângulos,  dependendo da inspiração do momento; pode tratar de política, línguas, história, música, geografia, atualidade e notícias do dia a dia. Colabora no caderno Opinião, do Correio Braziliense. Vive na Suíça, e há 45 anos mora no continente europeu. A comparação entre os fatos de lá e os daqui é uma de suas especialidades.

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