objetos pessoais

Objetos pessoais. Por Antonio Contente

Objetos pessoais …Ele começa a exemplificar acentuando que cada um prefere determinada pasta de dentes. Da mesma forma, há preferência por certas marcas de sabonetes, jornais, revistas, azeites para saladas, uísques, vinhos etc….

Mulher fica na frente do guarda-roupa bagunçado e desarrumado. Pessoa olha para armário aberto cheio de roupas e acessórios desordenados. Fêmea antes de organizar a bagunça e a desordem no armário. Ilustração

        Trata-se de um homem bem colocado, próspero, e, sobretudo, fino. Claro, quando toma uns uisquinhos a mais fala coisas; naquela tarde, começou contando que tem verdadeira obsessão com seus próprios bregueços.

        — Em casa – acentuou – eu e minha mulher não confundimos. Cada um tem seus troços.

        — Como assim? – Alguém da roda quer saber.

        Ele começa a exemplificar acentuando que cada um prefere determinada pasta de dentes. Da mesma forma, há preferência por certas marcas de sabonetes, jornais, revistas, azeites para saladas, uísques, vinhos etc.

        — Cada um ocupa sempre o mesmo lado da cama? – Outro arrisca.

        — Não, meu caro, nós dormimos em camas separadas. Preferências por colchões…

        Foi, porém, no instante em que a primeira garrafa de uísque chegava ao fim, que ele se aproximou de um dos mais íntimos para suspirar:

        — Por causa desse cuidado com minhas próprias coisas, na semana passada quebrei o maior pau com a patroa.

        Nesse ponto abro parêntesis para informar que nosso personagem viaja muito. Pelo Brasil mesmo, vez ou outra algum país da América Latina. Nessas condições, certa manhã ele saiu de casa, maletinha em punho, tendo informado que precisava ir a Buenos Aires. Porém, ao chegar ao escritório, após dois ou três telefonemas precisou adiar a viagem para a semana seguinte.

        — Veja – o camarada segue contando – eu tenho uma norma.

        — É mesmo? – O outro mostra interesse.

        — Exatamente, e é a seguinte: nunca, jamais, em tempo algum, torno de uma viagem, sem antes ligar.

        — Pra quem?

        — Pra minha esposa, é claro.

        — E faz isso pra que?

        — Para avisar que estou regressando.

        — Não me diga que…

        — Exatamente – vem o corte – aconteceu. Eu saí para ir a Buenos Aires e não fui; porém, esqueci de tocar pra esposa.

        — Bem – o que ouvia argumenta – na verdade se você sequer viajou, não poderia avisar regresso algum, não é mesmo?

        — Certo – uma nova dose é ingerida — só que minha esposa me julgava na calle Florida. Então, naquela noite, voltei normalmente pra casa.

        Detalhou que entrou e, conforme fazia normalmente, tirou o paletó na sala mesmo, preparou uma bebida e se preparou para ligar o som. Todavia, antes que isso ocorresse, ouviu rumores na parte de cima do sobrado. O que escutava a história, agora envolvido pelo suspense, segurou forte no braço do outro:

        — Os rumores vinham de onde?

        — Do lado dos quartos.

        — Ladrão. Você, naturalmente, logo pensou em ladrão.

        — Não, não pensei em ladrão nenhum, até porque minha casa é uma verdadeira fortaleza.

        — Mas vamos lá, vamos lá. Você ouviu rumores para o lado dos quartos e daí? Que história, rapaz, e daí?

        — Daí que, como te contei no início, acabei quebrando o maior pau com a minha mulher.

        Modula a voz para murmurar que subiu até com certa calma para o aposento do casal. Ali, imediatamente sentiu que havia algo no ar além dos aviões de carreira.

        — Bom – o outro serve-se de nova dose – pelo que imagino, justifica-se que você tivesse quebrado o pau com a patroa…

        — Pois é, a explosão veio porque como em casa cada um curte suas coisas, inclusive armários de quarto, tinha mais que fica uma fera. Uma vez que a cretina enfiou o amante justamente no meu guarda-roupas…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

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