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Crônica, senhora do tempo. Por Adilson Roberto Gonçalves

A crônica já foi chamada de gênero literário menor e hoje essa senhora do tempo é o que dá alento à sobrevivência dos jornais, uma vez que a notícia impressa é sempre velha. Mais velha ainda quando a publicação dos fatos acontece quase simultaneamente a eles…

Crônica

Fez bem Álvaro Costa e Silva, em artigo para a Folha de S. Paulo do mês passado, resgatar a delícia e a doçura das crônicas e suas (in)definições. O título interrogativo que ele deu já foi instigante: “O que é a crônica? Azeitona do pastel ou vanguarda literária?” (Opinião, 22/7). Lembremos que grandes escritores escreviam crônicas e é nesse material de Lima Barreto, por exemplo, que se buscam seus inéditos e novas visões do Rio de Janeiro de sua época. O cronista é o deus de seu tempo e sem suas impressões ficaríamos sem saber o dia a dia de muitas épocas, pois o jornal busca vender a notícia e os livros consolidavam uma história ou um pensamento. Na crônica é que se via a realidade.

A crônica já foi chamada de gênero literário menor e hoje essa senhora do tempo é o que dá alento à sobrevivência dos jornais, uma vez que a notícia impressa é sempre velha. Mais velha ainda quando a publicação dos fatos acontece quase simultaneamente a eles. Não lemos mais as notícias nos jornais, mas buscamos os cronistas ou os chamados articulistas para saber um pouco além dos fatos, com os devidos cuidados para os vendilhões da verdade. Cronistas foram vários cânones de nossa literatura e incluo Machado de Assis e Clarice Lispector ao já citado Lima Barreto apenas para exemplificar. E eles nunca foram acusados de deturpar os fatos para vender um texto.

Hoje nos questionamos onde estarão os retratistas do tempo, uma vez que os jornais escasseiam, a qualidade do que ali vai escrito também, e a crônica está sujeita aos espaços cibernéticos de posse duvidosa. Sim, as nuvens em que estamos publicando poderão um dia chover e carrear para o solo do esquecimento nossos conflitos, angústias, pensamentos, reflexões e um longo etc.

A senhora crônica, vendo-se desfazer em bits e bytes apagados, soltará uma lágrima ao mesmo tempo em que esboçará um leve sorriso para iniciar uma nova conversa sobre o que com ela está acontecendo. Apaga-se uma, mas sempre haverá outra boa história.

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Perfil ambiental e político – Adilson Roberto Gonçalves –  pesquisador da  Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista.  Vive em Campinas.

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