A crônica fugitiva. Por Antonio Contente
… do teto no qual se abriga o tema luar, vem a sugestão, para aliviar a crônica fugitiva, do quanto foi inesquecível aquele, como se dizia antigamente, plenilúnio sobre as ruinas da pequena igreja que os jesuítas, no alvorecer do século XVIII…

A crônica estava toda na cabeça e sentei diante do teclado para começar a escrever. Não cheguei nem a formatar o pequeno prólogo, e logo as ideias, com certeza tomando o rumo da janela, por ela fugiram. Não me preocupei muito porque este quarto do tugúrio que me protege das intempéries sempre foi um repositório de bons temas. Eles estão nas prateleiras das estantes, fora dos livros, nos cantos das paredes, na solidão do teto, no arrastar do chão e até na porta do velho guarda roupas onde guardo os trapos de um dos homens mais mal vestidos desta cidade. Assim é que resolvi que catar outro tema para ter o que mandar para os lugares devidos seria absolutamente fácil.
Logo lembrei, num simples piscar d’olhos, que ao sair de manhã para ir à rua de Cima pegar pão e leite para o franciscano desjejum, vi que o chão sob as duas goiabeiras que passarinhos plantaram no jardinzinho junto da garagem estava coberto só de sombras. Isso, como qualquer goiabilófago sabe, é o sinal que as goiabinhas já estão prestes a se formar para a safra que romperá com o alvorecer de 2026. Será então o tempo de despertar com o chiar das maritacas, muitas delas enviadas aos meus domínios pelo escritor e pianista Antonio de Pádua. Que mantém um verdadeiro exército das verdes aves em seu paraíso na Serra do Moquém, enclave da Mantiqueira no município de Socorro. Ia teclar mais sobre isso, mas logo fui provocado por outro tema que começou a me chamar da parede junto à porta.
Acabei por concluir que a crônica poderia ser sobre a ausência. É que, logo logo, uma pessoa muito amada e muito presente no dia a dia deste velho escrevinhador, vai se enfiar num jato e partir para Genebra, na Suíça, onde passará um tempo com o único filho e as duas únicas netas que moram lá. Dolorido será, mas certas ausências que são provocadas pelos chamamentos do amor, cobrem os que partem com a aura da felicidade; o que acaba aliviando as dores de quem fica. É verdade que faz falta ver Cy a regar plantas, acompanhar os trêmulos voos dos colibris que tentam pousar nos seus ombros, ou ouvir as meigas palavras que sabe dizer para colocar luz em sombras ou aperfeiçoar afetos que têm o tamanho do que seria sublimar estrelas. E o personagem que fica precisa estar atento para lhe dizer, antes da partida, que ela, mesmo ausente seguirá a semear sua eterna expressão de beleza — que alegra a todos que a vêm; e também de ternura — que é a luz do amor.
Mas, agora, do teto no qual se abriga o tema luar, vem a sugestão, para aliviar a crônica fugitiva, do quanto foi inesquecível aquele, como se dizia antigamente, plenilúnio sobre as ruinas da pequena igreja que os jesuítas, no alvorecer do século XVIII, construíram numa pequena ilha no Delta do Rio Amazonas. Quando o veleiro em que estávamos, o elegante “Albatroz”, encostou na enseada, ainda havia restos de claridade na superfície das águas e sobre as árvores seculares da margem. O que nos permitia ver as ruinas com total nitidez. Quando escureceu, eu, o comandante do barco e a pequena tripulação ficamos no convés, à espera do luar. E ele veio, subindo por detrás das copas altas do outro lado da enseada, espalhando-se sobre tudo; e desenhando, na água, aquilo que os poetas parnasianos chamariam de uma passarela de prata.
— Sabe? — O comandante me disse – Afirmam que é nas luas cheias que os fantasmas dos antigos frequentadores da capela aparecem entre as ruínas.
— E o amigo já viu? – Pergunto.
— Não, mas tudo pode ser comprovado.
— Como?
— É que como a ilha é desabitada e está fora das rotas, depois das luas cheias, pela manhã, há sempre marcas de pés nas areias em torno das paredes quebradas. Só pode ser dos antigos jesuítas e soldados; você não acha que é verdade?
Antes de responder, primeiro cocei a ponta do nariz. Depois disse, apenas:
— Acho.
No quarto do tugúrio em que escrevo a janela bate com o vento e mostra uma crônica sobre certo temporal que revelou um amor proibido. Mas fica para a próxima.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
