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Suschila Karki

Um pequeno grupo dos atuais dirigentes ocupa-se quase exclusivamente de fortalecer exércitos e promover guerras. As demais políticas públicas ficam em segundo plano. As tais novas gerações são vistas, senão como potenciais trabalhadores, como soldados.

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Protestos no Nepal

 “Devemos agir de acordo com o pensamento da “Geração Z”, também conhecida como “nativos digitais”, surgidos entre 1995 e 2010. É a única que tem passagem para o futuro”. Essas declarações são da primeira ministra Suschila Karki, do Nepal, umas mais antigas civilizações do planeta. Ela assumiu interinamente a chefia do Governo, após os protestos jovens que se espalharam pelo país, na última semana, contra a corrupção de governantes, e que resultaram no incêndio do Parlamento, 72 mortos, milhares de feridos.

Mas nem todos os governantes no mundo pensam da mesma forma. Um pequeno grupo dos atuais dirigentes ocupa-se quase exclusivamente de fortalecer exércitos e promover guerras. As demais políticas públicas ficam em segundo plano. As tais novas gerações são vistas, senão como potenciais trabalhadores, como soldados. Os políticos no Poder acreditam nos militares para dar consistência aos seus governos.

Induzidos pela insanidade desses tipos de líderes em plena atividade, estudiosos da geopolítica, abandonam os PIBs para divertirem-se com comparações sobre a capacidade, maior ou menor, entre países, como potências militares. Em 2025, a liderança estaria ainda com os Estados Unidos, seguido pela Rússia, China, Índia, Coreia do Sul, Japão, Israel, França, Inglaterra, Polônia, Turquia, Paquistão. Arsenais nucleares capazes de destruir o mundo, prontos para serem detonados, seriam os indicadores dos desequilíbrios.

Nesse cenário, o Brasil aparece na décima primeira colocação. A dúvida é se o consultor não teria contabilizado a “retórica” como um artefato militar. Não é de admirar, já que alguns líderes fazem sistematicamente uso da “conversa fiada”, ilustrada por drones espiões, para ameaçar os vizinhos. Ji Jinping, da China, trata como “ridículos” os arsenais de países tradicionalmente pacifistas como o Brasil. Os brasileiros não assustam sequer a Venezuela. A tendência imediata é piorar o ambiente, depois que Trump cobrou dos europeus um aumento substancial nos gastos militares: Uma espécie de preparação para uma guerra.

Ora, o Nepal, na contramão, altamente espiritualizado, sai na frente, ao retomar a pauta das preocupações com os nativos digitais, cujo perfil envolve uma consciência ambiental, justiça social, estímulo à produção de alimentos e tolerância. As novas gerações não veem sentido nas guerras e no ódio que se espalha pelo Planeta, temas alimentados por sociopatas, reunidos em pequenos grupos de interesse, que tentam preservar os privilégios ancestrais, a memória das diferenças e as hegemonias históricas. No meio dos nativos digitais é algo fora de moda, sobretudo para aqueles que se reúnem na Praça Darbar, em Katmandu, para puxar um “fuminho”. Consideram-se cidadãos do mundo e são solidários com os povos oprimidos. “Tenho saudades de tudo que ainda não vi”, dizia o roqueiro Renato Russo, um dos ídolos dessas novas ondas jovens no Brasil. De modo que se assiste no mundo um clima belicoso crescente no qual os governantes brasileiros tentam se meter pela simples busca de visibilidade política.

As preliminares do que está acontecendo no Nepal parecem uma extensão do tempo das rebeliões estudantis em 1968, em Paris, e que se espalharam pelo mundo, na busca do ensino público, gratuito e democrático. Em 2010 e 2011 tomou o Norte da África, com a chamada Primavera Árabe, protestando contra as ditaduras e reclamando por direitos sociais. Derrubaram governos. No Brasil, em 2013, a partir de um simples reajuste de tarifas do transporte urbano, registrou-se a implosão de indignação da juventude, assustando os governantes. Não somos, de fato, uma ilha.

 A insistência retórica interna em cultivar a obsoleta polarização entre o “nós e eles”, acompanhada da naturalização da violência e das transgressões legais e até constitucionais, parece pouco aderente à consciência pública. Cobranças incubadas nas redes sociais por uma pacificação interna podem emergir repentinamente, a partir de uma reação cultivada em silêncio, por essa juventude, aparentemente alienada, mas conectada pelas redes sociais (um Parlamento Digital).

Suschika Karki, que era presidente do equivalente por aqui ao Supremo Tribunal Federal, percebe profeticamente o papel a ser desempenhado por essa geração de nativos digitais. As lideranças serão outras, as instituições também não serão as mesmas e os mentores de guerras tenderão a desaparecer. O mundo está diante de uma última geração de governantes analógicos, conservadores, confusos, belicistas, narcisisticamente auto empoderados, tem suas ideias e intenções cada vez menos autorizadas pelos”212 milhões de pequenos ditadores” da ministra Carmem Lúcia, que usou uma figura de linguagem imprópria para descrever os cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.

 O Presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), do Brasil, Vital do Rêgo, advogado e médico, ex-vereador, ex-deputado e ex-senador, pela Paraíba, agora ministro, vê de maneira diferente. Está preocupado com as agressões à Constituição, à Lei da Ficha Limpa e ao uso dos recursos públicos por aqui. Conclui que sem se perceber, “… a credibilidade das instituições públicas no Brasil vem sofrendo uma erosão crescente e rápida, marcada pela desconfiança, a desinformação, a polarização e a supressão do direito de opinar, fiscalizar e transformar. Em sentido inverso ao contrato social, observa-se “um afastamento entre governantes e governados“.

Compostura perdida interna e externamente, o Brasil parece caminhar em direção ao modelo venezuelano: censura à imprensa, perseguição às oposições, “clima generalizado de medo”, “inflação incontrolável”, “dificuldade até para comprar comida”. No governo há quem defenda que a verdade importa menos que a sua utilidade política. Aceita-se silenciar a Justiça e, que se para chegar ao bem, tenha-se de fazer o mal. Assusta…

Níkolás Ferreira e outros jovens que ocupam cadeiras no Parlamento Brasileiro, representando milhões de seguidores, são a imagem de uma pinguela geracional.  Fatos e protagonismos beligerantes ou transgressores dão sinais de que, no Brasil, serão atirados debaixo da cama, com o propósito de serem deixados para o julgamento da História. Quase impossível evitar a Justiça dos algoritmos. Dos nativos digitais ninguém vai escapar. Suschila Karki parece ter razão.

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Aylê-Salassié F. Quintão –  Consultor de projetos sociais | Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais. Jornalista, professor, doutor em História Cultural, ex-guarda florestal do Parque Nacional de Brasília. Vive em Brasília. Autor de  “AMERICANIDADE”, “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018
Autor, entre outros, de Lanternas Flutuantes:
Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
novo livro de Aylê-Salassiê: TERRITÓRIO LIVRE!

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