Existem partidos políticos no Brasil? Por Aldo Bizzocchi
… No Brasil temos um Partido Comunista que não é comunista (um de seus antigos caciques, por sinal, é latifundiário); temos um Partido Socialista que não é socialista; um Partido Social Democrata e um Partido da Social-Democracia Brasileira que não são social-democratas; um Partido Liberal que de liberal não tem nada…
Disse certa vez um analista político, não me lembro quem, que o Brasil não tem partidos, tem legendas. E legendas que são, na verdade, balcões de negócios onde se vendem votos e favores, desde que por um bom preço.
No Brasil temos um Partido Comunista que não é comunista (um de seus antigos caciques, por sinal, é latifundiário); temos um Partido Socialista que não é socialista; um Partido Social Democrata e um Partido da Social-Democracia Brasileira que não são social-democratas; um Partido Liberal que de liberal não tem nada; um Partido Progressista que é conservador; um partido chamado Republicanos que é complacente com ataques à república; um Partido Popular que tem desprezo pelo povo; um partido Avante que defende o retrocesso; e um partido Patriota que aplaude quem, dos Estados Unidos, conspira contra o Brasil. Também já tivemos um partido autointitulado Democratas, atual União Brasil, que também é complacente com ataques à democracia, bem como um Partido ao mesmo tempo Social e Liberal que não era nenhuma das duas coisas.
Como se pode constatar, essas legendas têm nomes pomposos, mas que nada significam e servem apenas para impressionar uma maioria de eleitores analfabetos políticos, que pensam, por exemplo, que Hitler era comunista. Legendas sem ideologia, meramente fisiológicas, que se aliam da extrema esquerda à extrema direita desde que estejam no poder e possam fartar-se com cargos e verbas. São os famosos “partidos-rolha”, que nunca afundam.
Seria ótimo que houvesse a tão prometida reforma política para acabar com essa pletora de legendas sem identidade, transformando-as em uns poucos partidos com ideologia e linha programática definidas. Isso contribuiria por sinal para o fim do chamado presidencialismo de coalizão, na verdade presidencialismo do toma lá dá cá. Mas desta, que é a pior legislatura da história do parlamento brasileiro, com suas blindagens, bandidagens e anistias a bandidos, nada de bom se pode esperar.
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Aldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.
Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”
Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br
