NAPOLEÃO

Busto de Napoleão. Por Lula Vieira

Quase morri. A piada do Busto de Napoleão é a mais imunda, imbecil, grossa e estúpida das piadas criadas no mundo. Em puteiro ela é considerada pesada. E, o que é pior, não existe como contá-la sem usar os mais cabeludos palavrões. Busto de Napoleão é uma piada que necessita da agressão para ter um mínimo de graça.

👤 O busto de Napoleão・Arquivo STL para Impressão 3D・Cults

Alguém aqui conhece a piada “Busto de Napoleão”, uma das mais idiotas, inoportunas, antigas, agressivas, deselegantes piadas jamais inventadas no universo? Bem. Não vou contá-la, pois se ainda existe um vivente que desconheça essa imbecil historieta, ou é muito jovem ou não pegou o período de piadas sujas narradas à socapa.

Pois eu vivi uma história que, de certa forma, gira em torno dessa miserável ficção humorística que, neste caso, é absolutamente verdade. Vamos lá, com licença. Uma vez um cliente importantíssimo me chamou para jantar na sua casa. Como a história se passa no exterior e é muito velha, não tenho medo que seja lida pelo próprio nem pela principal personagem. Por isso contá-la-ei na íntegra. Contá-la-ei é uma expressão que passei a vida sonhando em escrever um dia. Consegui. Mais um sonho realizado. Agora só falta o Santos voltar a jogar bola.

Vamos em frente. O cliente em questão era realmente importantíssimo, presidente de uma multinacional monstruosa, verba de muitos, muitos milhões de dólares. E o panaca aqui, convidado para um jantar tipo íntimo, mais ou menos dez casais, se sentiu honradíssimo com a oportunidade de estar mais próximo do cara cuja opinião poderia ser a diferença entre a aprovação entusiástica de uma campanha ou a execração pública do publicitário de merda que a criou.

Claro que antes de sair para o jantar a primeira recomendação de minha mulher foi exatamente aquela que marcava minhas noites: “Vai com calma na bebida, meu amor”. A sábia criatura, me conhecendo, tinha medo que depois do segundo whisky eu já estivesse dando tapinha nas costas do anfitrião. Na verdade saímos de casa após a promessa de que eu seria praticamente um abstêmio. Corta para a festa.

O cenário: a casa era uma versão melhorada de cenário de musical da Metro. Como estávamos no verão, o jantar seria servido à beira da piscina, onde arranjos florais boiavam à luz de velas. Um desperdício de beleza e sofisticação. Os garçons estavam infinitamente mais bem vestidos que eu. Tudo recendia a luxo, riqueza, classe e requinte. Fui cuidadosíssimo com a bebida. A mulher do cliente era uma senhora elegantíssima, vestida com um Balenciaga que deveria custar uns quatro meses do meu salário. Tinha até um conjunto clássico com uma harpista. Não conheço nada mais deslumbrante que música ao vivo tocada por uma harpista linda, magra, celestial, vestida de branco esvoaçante.

A noite começou assim, discreta e elegante. Na hora não reparei, mas a tal senhora (a mulher do cliente) mamava direitinho. Entornou alguns uísques, misturou com champanhe e ainda deu uns tapas num coquetel de frutas enjoativo que passava de vez em quando. E eu me controlando. Já é uma merda festa em inglês. Com executivo de multinacional, sem álcool é quase uma tortura. Mas, tudo pela causa. Fiquei bicando o champanhe, fazendo cara de que todo dia jantava numa casa igual aquela. Até que chegou a hora da janta, como se diz na minha terra. Eram pequenas mesas, como já disse, dispostas à beira da piscina.

Eu me sentei com um embaixador de um país africano, um professor de Harvard, uma pesquisadora francesa e a mulher do cliente. Estávamos degustando as ostras de entrada quando a senhora me pediu para que eu repetisse para as pessoas a piada do Busto de Napoleão, que o marido tinha contado dias atrás e que ela tinha achado muito engraçada.

Quase morri. A piada do Busto de Napoleão é a mais imunda, imbecil, grossa e estúpida das piadas criadas no mundo. Em puteiro ela é considerada pesada. E, o que é pior, não existe como contá-la sem usar os mais cabeludos palavrões. Busto de Napoleão é uma piada que necessita da agressão para ter um mínimo de graça. Tentei me fazer de desentendido, mas ela me incentivou explicando o começo, que já é um festival de estupidez.

Não tive outro jeito e fui até o fim. Daí o embaixador africano retrucou com a história do elefante brocha, devidamente rebatida outra sujeira do mesmo teor, contada pela anfitriã. Resultado: mandei o garçom deixar o uísque na mesa, mandei ver e até as quatro da manhã desfiamos a maior coleção de histórias impublicáveis, capazes de envergonhar as moças da zona de baixo meretrício da periferia. Foi uma noite inesquecível, até porque a harpista era completamente maluca e tinha um repertório de abalar os alicerces da civilização ocidental.  Quase caímos na piscina de tanto rir.

Não aconselho a ninguém tentar repetir a façanha. Mas desta vez – desta vez – deu certo.

rir


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos no Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

 

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