… em apenas 199 páginas, além das entrevistas em si – interessantes porque traduzem o pensamento de um grupo de líderes num determinante momento da história do pais –  o autor destaca em quadros os principais problemas apontados pelos entrevistados o que permite uma análise do que une e o que divide cada um.

A Nova República - O Nome E A Coisa - Lourenço Dantas Mota - Traça Livraria e Sebo

Como os bons vinhos, os bons livros duram na prateleira até que um dia, um passante desavisado ou interessado os tiram do lugar. Os amantes dos livros sabem como tê-los nas mãos. Vi o poeta argentino Jorge Luis Borges acariciar um livro que já não podia ver.

Há livros de toda classe e categoria. Como tudo na vida, sofrem também a ação do tempo e dos costumes… um dia são famosos, outro são esquecidos…ou banidos. Mas eles estão lá, enfileirados na prateleira como soldadinhos de prontidão, ou espalhados pelos quatro cantos, à espera da mão que os fará reviver por um instante. Um prazer físico e mental. E, no caso, um exercício de memória.

Procurando as chaves encontro sem querer o livro “A Nova República o nome e a coisa” – título bizarro, como que provocando… – estava fora do lugar! Por acaso, tinha acabado de escrever um artigo sobre livros, nomes e coincidências. E agora aparece este que estava claramente esquecido.

Lourenço Dantas Mota, colega jornalista dos velhos tempos, reuniu em “O Nome e a Coisa” as entrevistas que publicou no suplemento “Cultura” do jornal O Estado de S. Paulo onde trabalha. Foi em 1985, um ano crucial para o futuro político do país. Tratava-se de perguntar aos líderes do momento como viam a transição do regime militar e os rumos do país. Um bom momento para fazer um balanço do caminho andado – os acertos e desacertos – e apontar para o futuro.

Foram entrevistados Hélio Beltrão, Fernando Henrique Cardoso, Roberto Campos, Celso Furtado, Mário Henrique Simonsen, Hélio Jaguaribe, Francisco Weffort e José Mindlin.

Os temas abordados: o papel do Congresso, a questão militar, a estrutura sindical, a distribuição de renda, a questão agrária, a dívida externa, a reforma tributária, o Estado e a economia, as multinacionais.

Lourenço explica o objetivo do livro –  fornecer elementos para um perfil ideológico da Nova República passando ao largo dos rótulos automáticos, se possível, uma vez que a política brasileira, sobretudo a partidária…  não teria a “nitidez ideológica que se observa na Europa Ocidental…” devido  entre outras razões às desigualdades regionais em termos de formação histórica, formação de sociedade de classes, diferenças de desenvolvimento regional, ritmo de desenvolvimento econômico e social entre os Estados  graças à industrialização e consequente explosão demográfica e  intensa urbanização.

Hoje, passados quarenta anos, que perguntas faríamos-  e quais seriam os entrevistados?  Segundo Lourenço seria necessário fazer uma “revisão constante das ideias para ajustá-las aos fatos… para que o nome decorra da coisa… para que o adjetivo não passe a existir sem o substantivo” (grifo meu).

Essa frase que tiro do contexto me sobressalta…  penso que esse seria  efeito perverso das redes sociais de hoje que serve também para o cidadão, os políticos, os “influenciadores”, jornalistas, e  tutti quanti, diria eu.  A ilusão que nos isola da ação concreta e nos exime de qualquer responsabilidade!

Aliás, lembro da primeira aula de jornalismo …o jornalista não usa adjetivos, descreve, explica, informa – a não ser em colunas assinadas ou editoriais em que exprime seu ponto de vista ou opinião. Assim, o jornalista, como todo e qualquer cidadão é em princípio responsável, inclusive juridicamente, pelo que divulga por qualquer meio de difusão existente.  As palavras são como penas atiradas ao vento. Impossível recolhê-las todas já dizia um velho sábio em outros tempos.

O autor explica no capítulo inicial o passo a passo que seguiu para elaborar as entrevistas, o modo de publicá-las e a análise dos dados “que nos levam às questões que unem e às que dividem os entrevistados”.

Assim, em apenas 199 páginas, além das entrevistas em si – interessantes porque traduzem o pensamento de um grupo de líderes num determinante momento da história do pais –  o autor destaca em quadros os principais problemas apontados pelos entrevistados o que permite uma análise do que une e o que divide cada um.

Assim, mais do que um retrato das opiniões políticas ou posições ideológicas, o conjunto dos depoimentos permite ao autor analisar as principais questões que dariam  em princípio  embasamento às ações políticas então propostas  – as ideias e os fatos.

“Essas reavaliações das ideias em função dos fatos fazem surgir naturalmente correntes de opinião que se traduzem em programas de ação e servem, portanto, para que nos situemos melhor diante da realidade política, afirma o autor”.

Se fosse o caso, que perguntas se fariam hoje? Quais os entrevistados? E em que jornal pergunto –pois o jornal também sofre com as injunções do tempo… O livro é composto por dois corpos – as entrevistas em si que refletem o pensamento e o dito dos autores e em paralelo a maneira como o autor extrai e ordena a informação decorrente do dito. Donde o título do livro – o nome e a coisa – frase de Montaigne, filósofo e escritor francês (1533-1592).


Teresa Montero Otondo – jornalista,  autora de “Rascunhos de Vida – entre livros e escritos”. (Editora Coerência, BP 2024.)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine a nossa newsletter