O GRITO, EDWARD MUNCH, 1893
A dor da aceleração. Por Meraldo Zisman
A DOR DA ACELERAÇÃO:
O Grito do Corpo Contra o Ritmo Desumano das Máquinas

A ansiedade é a nova febre do tempo. Não chega de repente, como um ataque, mas se infiltra aos poucos, sorrateira, até se tornar o pano de fundo da vida moderna. É o sintoma de uma época que fez da pressa uma virtude e do descanso, um pecado. Cada toque do celular é um chamado à urgência. Cada meta não cumprida, um lembrete da própria insuficiência. Vivemos acuados pelo relógio e alimentados pela ilusão de que estar ocupados é estar vivos. O perigo, antes externo — a fome, o predador, a guerra —, agora se instalou dentro de nós. O corpo permanece, mas a mente foge para o futuro, tentando antecipar o que ainda não aconteceu. É nesse descompasso entre o agora e o amanhã que nasce a ansiedade: o medo de não dar tempo, de não ser suficiente, de perder o controle.
Os algoritmos, silenciosos e precisos, amplificam essa angústia. Eles ditam o ritmo da vida, empurrando-nos para dentro de uma corrida sem linha de chegada, onde o descanso é confundido com fracasso. O corpo, porém, não se cala. Traduz em sintomas o que a alma já não consegue dizer: insônia que se arrasta, palpitações sem causa aparente, dores de cabeça insistentes, músculos tensos, gastrites que voltam, alergias que explodem. São os gritos de um organismo exausto sob o jugo da produtividade. Quando o corpo fala, é porque a alma já gritou demais. A ansiedade, mais do que um distúrbio individual, tornou-se o retrato de uma civilização esgotada, que confunde movimento com sentido e resultado com valor.
Vivemos conectados, mas profundamente desligados de nós mesmos. A tecnologia, criada para poupar tempo, o consome. A velocidade, que antes era meio, virou fim. Estamos desaprendendo a pausa, e a culpa tomou o lugar do descanso. O ócio passou a ser visto como falha moral. Corremos tanto que já não sabemos por quê. Vivemos uma vida acelerada e, paradoxalmente, ausente. Não sentimos o gosto das coisas, apenas as atravessamos. As relações tornam-se superficiais, as emoções, comprimidas, e o corpo paga o preço da alma que corre.
É preciso reaprender a lentidão, reencontrar o ritmo humano, o compasso natural da respiração, o tempo do sentir. A desaceleração não é um luxo, é uma urgência coletiva. O corpo precisa de silêncio, de pausa, de espaço para existir. Resistir à lógica da máquina é um ato de sanidade. A sabedoria está em ouvir o que o corpo diz antes que ele grite. Desacelerar é um gesto de coragem num mundo que glorifica o cansaço. Porque o corpo, sábio em sua linguagem silenciosa, continua nos lembrando o que a mente teima em esquecer: nenhuma máquina sabe viver.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu
