Yargos

apresentação do diretor e equipe

… A Yorgos… Acabo de assistir seu mais novo filme Bugonia e, para minha surpresa, gostei. O filme, um remake do sul-coreano Save the Green Planet! é estrelado por Emma Stone e Jesse Plemons e explora temas como teorias da conspiração mirabolantes, militância contra instituições e corporações, polarização política, desinformação disponível nas redes sociais, mas principalmente a dificuldade de discernir a verdade no mundo moderno…

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Wladimir Weltman – lançamento de Bugonia

Muitos críticos de cinema elogiam constantemente Yorgos Lanthimos por sua originalidade, domínio artístico e capacidade de extrair atuações brilhantes de seus atores. Seu trabalho é frequentemente descrito como “engenhoso”, “bizarro” e “obra-prima”.

Outros afirmam que seus filmes são frios, pretensiosos, perturbadores e emocionalmente obtusos. Afirmam ainda que assistir seus filmes são uma experiência frustrante, desconfortável, cansativa.

Até recentemente eu concordava com a segunda categoria. Não tinha paciência de ver seus filmes. Tentei assistir Poor Things e The Lobster e não consegui chegar ao final. Parei no meio.

Acabo de assistir seu mais novo filme Bugonia e, para minha surpresa, gostei. O filme, um remake do sul-coreano Save the Green Planet! é estrelado por Emma Stone e Jesse Plemons e explora temas como teorias da conspiração mirabolantes, militância contra instituições e corporações, polarização política, desinformação disponível nas redes sociais, mas principalmente a dificuldade de discernir a verdade no mundo moderno.

Os que acreditam nos papos de terra plana e alienígenas vão adorar. O filme conta desses dois primos que acreditam nas conspirações mais loucas da Internet e que sonham com a glória de salvar o planeta. Para isso sequestram uma poderosa CEO de indústria farmacêutica, convencidos de que ela é uma alienígena hostil responsável pelos problemas da humanidade.

O termo Bugonia vem de um mito grego que diz que as abelhas surgem espontaneamente a partir da carcaça de uma vaca. Talvez o diretor grego escolheu essa palavra porque soa próxima a gíria inglesa “Bull Shit”, que traduzida literalmente trata-se de merda de touro, mas que significa besteira, papo furado, conversa fiada.

Além da minha aversão aos filmes anteriores, outro motivo que me fez ir ver o filme cheio de preconceito foi o fato de que Yorgos Lanthimos e Emma Stone assinaram um compromisso em setembro de 2025 de boicotar profissionais da cinematografia israelense em resposta ao conflito em Gaza.

Fiquei feliz de colocar meu preconceito de lado e ver o filme. Valeu a pena, mas me fez pensar. O que ou quem convenceu esse povo de cinema a assinar essa carta? Quem estaria por trás dela?

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Cartaz de Bugonia

Quando a carta veio a público cheguei a escrever uma postagem criticando esses dois e os outros 1.198 profissionais de cinema internacional que a assinaram. Nela chamei-os de Inocentes do Cinema, uma referência aos Inocentes do Leblon, personagens de um poema de Carlos Drummond de Andrade que representava pessoas alienadas e alheias à realidade exterior, focadas em seus próprios prazeres e confortos.

Somente gente assim poderia ter feito a burrada de assinar tal documento. Mas ainda o jornalista em mim me fez pesquisar quem se encontrava por trás da organização “Film Workers for Palestine“, que assumiu reponsabilidade pela carta.

Escarafunchando descobri um nome – Jason Fox – ele é um cineasta, professor e editor, com residência entre Nova York e Toronto. Lecionou na Escola de Pós-Graduação em Estudos Cinematográficos da Universidade de Nova York, na Universidade de Princeton, no Vassar College e no CUNY Hunter College. E também é o editor fundador da World Records, publicada pelo Centro de Mídia, Cultura e História da Universidade de Nova York.

A World Records é uma revista que explora a mídia não ficcional, ou seja, documentários. Apresenta uma gama diversificada de vozes de acadêmicos, críticos, realizadores e curadores para discutir perspectivas complexas e em constante evolução sobre a área. Embora a World Records não seja explicitamente de “esquerda” ou “direita” em termos políticos, ela opera a partir de uma perspectiva comum nos estudos críticos de mídia, que é mais frequentemente associada à esquerda acadêmica.

Além dessa brilhante carreira universitária, Jason também é cofundador do “Film Workers for Palestine”, uma coalizão de cineastas, produtores, críticos e profissionais independentes criada no início de 2024 em resposta aos ataques de Israel a Gaza (nenhuma menção ao ataque do Hamas a Israel…). A princípio buscava ampliar o espaço profissional para palestinos que fazem documentários e filmes, mas em 2025 veio com a tal carta contra a indústria cinematográfica israelense e seus profissionais, assinada pelas celebridades.

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Jason Fox

Vale recordar que também em 2024 a coisa esquentou em diversas universidades americanas com protestos, violências e intervenções policiais em que até professores foram presos por incentivar a baderna e bloquear acesso de estudantes judeus ao campus das universidades. Uma demonstração clara de qual lado de conflito a esquerda acadêmica estava apoiando.

Existe uma ligação direta entre a Universidade de Nova York, seu Centro de Mídia, Cultura e História (CMCH) e os protestos estudantis de 2024 contra Israel. Professores do CMCH participaram, organizaram e apoiaram publicamente as manifestações estudantis pró-Palestina. Jason Fox está ligado a essas duas instituições.

Tudo isso é muito interessante, ainda mais que o filme de Yorgos Lanthimos fala exatamente de gente que age de maneira radical e violenta em busca de culpados para justiçar, achando que com isso vai salvar o planeta…

Outra curiosidade dessa história é que o coração desses 1.200 profissionais de cinema (alguns deles milionários) sangra pelos “cineastas” palestinos, mas não tem tempo de assinar uma cartinha que seja para protestar pela situação dos profissionais de cinema de Hollywood.

Após as greves de roteiristas e atores a produção de conteúdo em  Los Angeles caiu drasticamente. Os profissionais da área que já estavam sem ganhar por causa das greves, não conseguiram encontrar mais trabalho na cidade. Uma crise que se estende até hoje.

O motivo de não haver quase nada acontecendo em termos de produção na cidade, é porque os estúdios transferiram a sua  produção de conteúdo para fora do estado.

Eles alegam que as despesas extras causadas pelos acordos com os sindicatos forçaram eles a fazer isso. Outro motivo seria que a produção em Los Angeles é muito cara, por causa dos impostos. Como outros estados e países oferecem custos mais baixos e incentivos fiscais viabilizando seus projetos, os estúdios optaram por transferir as produções.

Com isso, quem é profissional da indústria e reside em LA perdeu emprego e passa por dificuldades financeiras. Muitos estão partindo. E o futuro se anuncia ainda mais negro por causa do advento da inteligência artificial, que ameaça empregos criativos e técnicos. Está na hora dos bem remunerados atores e produtores de Hollywood criarem o “Film Workers for Hollywood“. Podem contar com a minha assinatura.Yargos

Assisti a Bugonia na sala de exibição do sindicato dos atores, o SAG-AFTRA. Depois da sessão, Yorgos, Emma, ​​o diretor de fotografia Robbie Ryan, a figurinista Jennifer Johnson, o compositor da trilha sonora Jerskin Fendrix e o designer de som Johnnie Burn responderam às perguntas de um moderador. Não dos jornalistas.

Em seguida serviram um brunch aos presentes. Achamos que Yorgos e Emma se juntariam a nós no saguão, mas somente a equipe técnica apareceu pra falar com a gente. Por isso não tive oportunidade de questionar o diretor e a atriz sobre as demais questões que levanto neste artigo.

Caso tivessem aparecido, recomendaria a Yorgos e a Emma assistirem seu próprio filme novamente apara evitar assinar documentos como este que o “Film Workers for Palestine” publicou com a pretensão megalomaníaca de ajudar as pessoas em Gaza, sem se questionar se é justo para isso prejudicar o ganha pão dos colegas profissionais de cinema de Israel que não tem culpa nenhuma nesse conflito.

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WLADIMIR WELTMAN – é jornalista, roteirista de cinema e TV e diretor de TV. Cobre Hollywood, de onde informa tudo para o Chumbo Gordo.

_________________________(DIRETO DE LOS ANGELES)

 

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