COP30

… A questão, a meu ver mais profunda, é que diversas características peculiares do Brasil se colocam na contramão das propostas apresentadas na COP. Em primeiro lugar, o Brasil sempre foi um país predominantemente agrícola…

Curupira será o mascote oficial da COP 30 em Belém | Jovem Pan

Nesta COP-30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, o Brasil pretende despontar como a grande liderança mundial na transição energética, na redução da emissão de gases de efeito-estufa e na defesa do meio ambiente. No entanto, uma série de fatos relativos ao nosso país indicam que talvez tudo não passe de hipocrisia. E não me refiro só à exploração de petróleo na Margem Equatorial, tão criticada por especialistas e por opositores ao governo Lula, embora essa seja uma contradição flagrante.

A questão, a meu ver mais profunda, é que diversas características peculiares do Brasil se colocam na contramão das propostas apresentadas na COP.

Em primeiro lugar, o Brasil sempre foi um país predominantemente agrícola. Até o final do século XIX, o único produto de exportação brasileiro foi o café, e 90% da população vivia no meio rural. Houve um primeiro surto de industrialização com a chegada dos imigrantes estrangeiros (o conde Francesco Matarazzo é um exemplo) e um segundo no governo Juscelino Kubitschek. Ainda assim, o carro-chefe da nossa economia ainda hoje é o agronegócio, que desmata florestas para criar gado — e os gases emitidos pelos rebanhos (acho que não preciso explicar por onde, né?) são uma das maiores causas da mudança climática —, além de despejar toneladas de agrotóxicos no solo, nos rios e nos lençóis freáticos. Em pleno século XXI, ainda somos um país eminentemente agrícola e, desta vez, donos de uma agricultura poluidora, que derruba e queima florestas, além de envenenar as águas. Enquanto isso, o governo (este e todos os anteriores) é refém da chamada bancada ruralista do Congresso, além de não fiscalizar devidamente o desmatamento ilegal, que até tem diminuído, mas continua existindo.

Por sinal, para atender ao escoamento de soja, o governo pretende construir a polêmica ferrovia Ferrogrão, interligando o Norte e o Centro-Oeste do país. Dizem as más línguas que esse empreendimento atravessará áreas de conservação, terras demarcadas e ainda atrairá mais garimpo ilegal às reservas indígenas.

Por outro lado, o Estado não constrói ferrovias onde elas são realmente necessárias. Contraditoriamente, nosso país, que tem uma matriz energética majoritariamente limpa, com sobra de energia hidrelétrica — e agora também solar, eólica e da biomassa — optou há décadas pelo transporte rodoviário de mercadorias e pessoas, desprezando os outros modais e, assim, queimando óleo diesel e poluindo ainda mais o planeta, bem como encarecendo desnecessariamente os bens transportados. Isso sem falar de como ficamos reféns das greves de caminhoneiros.

Nossa ministra do meio ambiente, Marina Silva, fala muito em floresta de pé, como se meio ambiente se resumisse a florestas. Há muitas alternativas não poluentes à matéria plástica, algumas até mais baratas (até cerca de 50 anos atrás, quase nada era feito de plástico, e vivíamos muito bem, obrigado), mas nenhum governo e nenhum parlamentar são capazes de propor uma lei restringindo seu uso ao estritamente necessário e insubstituível.

Apesar de catador de resíduos ser uma das principais “profissões” no Brasil, haja vista o grande número de puxadores de carrinho em nossas ruas, apenas 2% de nosso lixo reciclável é efetivamente reciclado. E o que dizer dos lixões, que deveriam ter acabado 10 anos atrás, mas seguem firmes e fortes para alegria dos urubus?

Enfim, pode até haver no governo pessoas bem-intencionadas com relação à busca de soluções à emergência climática, mas, como se sabe, de boas intenções o Inferno está cheio.

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ALDO BIZZOCCHIAldo Bizzocchi é doutor em linguística e semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorados em linguística comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em etimologia na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Etimologia e História da Língua Portuguesa da USP e professor de linguística histórica e comparada. Foi de 2006 a 2015 colunista da revista Língua Portuguesa.

Autor, pela Editora GrupoAlmedina, de “Uma Breve História das Palavras – Da Pré-História à era Digital”

Site oficial: www.aldobizzocchi.com.br

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