Sinal dos tempos. Por Lula Vieira
Sinal dos tempos?… Já existe prova científica de que é preciso viver com um odre à mão para bebericar continuamente? Mudando de assunto, eu pergunto, quem foi que descobriu que somos uma raça de bichos totalmente aparelhada para comer carne, mas não devemos fazê-lo? Somos dotados de dentes, mandíbula, estômago de carnívoros, mas é de sacanagem. O certo é comer plantinha?…

Definitivamente não estou adequado aos novos tempos. Não me acostumei ainda com as manias contemporâneas. Estou ficando velho. E ranzinza. Mas não consigo compreender alguns comportamentos que estão se tornando padrão. Um exemplo? Fácil: o pessoal que anda pra cima e pra baixo com uma garrafa térmica com água e toma um golinho a cada 5 minutos. É preciso fazer isso mesmo? Chegamos até aqui sem essa mania e só agora descobrimos que goles de água podem ser a salvação da vida? O ser humano foi criado para viver próximo a um veio d’agua para ir se hidratando a cada minuto?
Já existe prova científica de que é preciso viver com um odre à mão para bebericar continuamente?
Mudando de assunto, eu pergunto, quem foi que descobriu que somos uma raça de bichos totalmente aparelhada para comer carne, mas não devemos fazê-lo? Somos dotados de dentes, mandíbula, estômago de carnívoros, mas é de sacanagem. O certo é comer plantinha? Vamos abandonar a linguicinha, a mortadela e o presunto porque de uma hora para outra, depois de séculos vivendo cada vez mais e com menos doenças, concluímos que estas delícias fazem um mal danado para nosso corpo? Não consigo entender.
Posso até concordar que a vida sedentária seja prejudicial, que fomos feitos para caminhar e lutar pela comida. Então existe uma certa lógica na esteira das academias, onde estão instaladas uma paródias das veredas que nossos avós percorriam a pé, em busca de alimento. Mas se for para imitar de verdade os antepassados, que se caminhe duas ou três horas num aparelho, encha-se o bucho de carne e durma-se até dar fome de novo. Assim é que era.
Andar, caçar, dormir, comer. E só largar o soninho quando der fome.
Qual seria a razão para imitar boi ou ovelha e viver de capim? Não que eu ache que os vegetarianos sejam doidos. Eu também tenho pena dos bois e vacas, dos porquinhos que são sacrificados para saciar a nossa fome. No início dos tempos eles até tinham uma chance de escapar de nós, seus predadores. Hoje não há a oportunidade da fuga, do drible, que deveria dar aos membros de nossa cadeia alimentar alguma perspectiva.
Vamos exigir que a vida e morte dos bichos que nos servem de comida seja mais divertida. Que sejam proibidas as práticas que tiram deles a alegria de viver antes do sacrifício. As galinhas lá de casa, por exemplo, têm à disposição um terreno bem grande para ciscar enquanto ficam aptas a serem comidas.. Estou pensando até em presenteá-las com um galo, apenas para o prazer delas, já que não pretendo me tornar um criador. Elas comeriam do bom e do melhor, fariam sexo sempre que quisessem e seriam sacrificadas exatamente como suas antepassadas pré históricas: na marreta.
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A luta dos bolsonaristas contra a Folha e a Rede Globo me lembra a história do ventríloquo que para se distrair enquanto esperava o trem resolveu brincar com um menino que conduzia uma cabra amarrada a uma corda. O ventríloquo fingiu que falava com um cachorro e um gato que vadiavam pela estação. Fazia de conta que a cada um perguntava o que estava fazendo e usando seu talento dava a impressão que eles respondiam relatando seu cotidiano. O menino, assustado, tentava esconder a cabrinha atrás de si. Até que, acreditando que o artista falava de verdade com os animais, apelou: “moço, não fala com essa cabra! Ela é muito mentirosa…”
Os radicais de direita tentam desmoralizar os veículos de comunicação como medida preventiva.
Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
