O Brasil não pode brincar com o antissemitismo. Por Meraldo Zisman
Como judeu brasileiro, não peço um governo “pró-Israel” em tudo. Peço algo mais simples e mais urgente: que o Brasil não vista o velho traje do antissemitismo disfarçado de causa humanitária. Criticar governos é saudável numa democracia; reciclar fantasmas de ódio não é…

Sou judeu, sou brasileiro e escrevo movido menos pela raiva e mais por uma tristeza profunda pelo meu país. O Brasil, com todos os seus defeitos, sempre foi para muitos de nós um porto relativamente seguro num mundo onde o povo judeu correu de pogrom em pogrom, de fronteira em fronteira, carregando mala, memória e medo. Hoje, porém, vejo com angústia um perigo que se aproxima pela porta dos fundos do discurso público: a importação de uma velha doença social, conhecida e mortal — o antissemitismo.
Antissemitismo não é apenas uma opinião “dura” sobre o governo de Israel. É um modo adoecido de enxergar o mundo, em que o judeu vira explicação mágica para qualquer tragédia. Muda-se o rótulo, conserva-se o veneno: usa-se “sionista” como máscara para dizer “judeu”, relativiza-se o Holocausto, trata-se o extermínio de seis milhões de pessoas como “mais um episódio” da história, comparável a qualquer outra barbárie.
Quando o presidente da República — que deveria ser ponte de paz — escolhe palavras que aproximam Israel do nazismo ou falam em genocídio de forma leviana, ele não está apenas criticando um governo. Ainda que não queira, ele recicla a velha fantasia que associa judeus a monstros e coloca mais lenha no fogo do ódio. O mais doloroso é saber que o povo brasileiro, em sua maioria, não é extremista. Pesquisas mostram que a maior parte dos brasileiros quer paz, aceita a ideia de dois Estados, não apoia o terrorismo e não deseja a destruição de Israel. Em resumo: o povo é mais equilibrado do que parte da retórica que fala em seu nome. Quando Lula escolhe um vocabulário que demoniza Israel, relativiza o Holocausto ou parece lançar um julgamento moral sobre os judeus como coletividade, ele se afasta desse sentimento sereno da maioria e empurra o país, pouco a pouco, para o terreno escorregadio do vocabulário do ódio.
Do discurso à agressão, o caminho é curto: começam as pichações em sinagogas, as ameaças a crianças em escolas judaicas, o isolamento de profissionais, os boicotes silenciosos, o medo de usar um símbolo na rua. Nada disso nasce do nada. Precisa de um aval simbólico — e poucas coisas legitimam mais do que a palavra descuidada ou o silêncio conveniente de quem governa.
Como judeu brasileiro, não peço um governo “pró-Israel” em tudo. Peço algo mais simples e mais urgente: que o Brasil não vista o velho traje do antissemitismo disfarçado de causa humanitária. Criticar governos é saudável numa democracia; reciclar fantasmas de ódio não é. O Brasil pode e deve defender a paz, denunciar mortes de civis, acolher refugiados — sem, para isso, transformar o único Estado judeu do mundo em caricatura do mal absoluto, nem os judeus em alvo coletivo.
Que o nosso país continue sendo casa, e não ameaça, para quem traz na pele, no sobrenome e na memória as marcas de um povo perseguido há milênios. Que o Brasil, em vez de importar venenos antigos, escolha ser terra de encontro, respeito e cuidado — também com aqueles que aprenderam, desde cedo, que o ódio não começa com tiros, mas com palavras.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu
